A urgência de uma economia centrada no homem

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1. Já há anos que muitos vinham avisando para a inevitável chegada de uma anunciada crise e para o iminente colapso das finanças públicas portuguesas. Já há anos muitas vozes vinham alertando para a trajectória dos gastos do Estado central, das Regiões e das Autarquias e para o facto desse rumo ser incomportável com realidade económico-financeira do País. Já há anos que se percebia que a deriva despesista que assaltou governos, autarquias, empresas públicas, institutos públicos, empresas municipais e toda a panóplia de similares que se foram criando por esse País fora, iria um dia ter um mau fim!

A todos os avisos a maioria dos governantes, gestores públicos e autarcas portugueses fez ouvidos moucos, persistiu em manter um rumo inconsciente e suicida, deixou de lado as preocupações da boa gestão e do criterioso investimento e deslumbrou-se com o dinheiro fácil e a ilusão de uma prosperidade sem fim. Ignoraram de forma ostensiva os avisos de que o rumo conduziria a um final trágico. Teimaram em gastar quando deviam ter poupado. E, com o seu exemplo, contribuíram para contagiar famílias inteiras que hoje vivem afogadas na insolvência!

O resultado está aí à vista: não fosse o apoio da chamada "Troyka",  Portugal estava já na bancarrota e nem dinheiro para pagar os salários dos seus funcionários tinha!

2. Estamos a pagar e vamos pagar por muitos anos a inconsciência histórica de sucessivos governantes. Mas de algum modo, somos também, todos nós, cidadãos, vítimas de uma mentalidade que interiorizámos e assumimos: a ilusão de que muitas coisas boas que tínhamos, filhas do 25 de Abril e da Revolução que nos trouxe a liberdade e a democracia, estavam garantidas, eram direitos intocáveis, justos e irreversíveis: o emprego para a vida inteira (e quase intocável depois de se estar "no quadro"), a assistência gratuita na doença, boas reformas a 20 anos do fim da idade média de vida, etc. E como coisas boas que eram, e como estavam garantidas, perdemos, muitos de nós, o brio em as apreciar e fazer delas um bom uso: muitos deixaram de ser funcionários cumpridores e zelosos, porque sendo-o ou não, o emprego era intocável e garantido. Muitos, de plena saúde e no gozo das suas totais faculdades, se reformaram da vida activa e passaram a pensionistas. Muitos usaram de forma desregrada os serviços de saúde, ignorando os seus custos. E os exemplos poderiam multiplicar-se para mostrar a ilusão em que vivíamos de que este "Estado Social" era tão bom e justo quanto inesgotável!

3. Da ilusão de que tudo estava garantido, passou-se, nos dias de hoje, ao oposto. O mesmo Estado que era o garante do cidadão, é agora o promotor e defensor da precariedade, do transitório. Ao mesmo tempo, eleva-se a iniciativa privada e os empresários a substitutos de muitas daquelas que foram até agora funções do Estado. Do Estado presente e omnipresente na vida dos cidadãos, quer-se agora um Estado quase ausente, substituído pelo dinamismo da iniciativa privada.

4. Estou convencido que será no justo equilíbrio destas duas tendências que vai certamente surgir um compromisso de futuro.

Porque se é verdade que o Estado tal como o conhecemos tem de mudar e não tem meios para poder continuar a assumir junto dos cidadãos o papel e as responsabilidades que até agora tinha, também é verdade que continuam sendo ainda muitas as empresas que só pensam no lucro e em usar as pessoas como meio de enriquecimento. E são tão condenáveis os empresários cheios de vícios que exploram sem escrúpulos os seus empregados, como o são os trabalhadores que imoralmente não cumprem com empenho e zelo os seus deveres e obrigações.

5. Por isso, urge que também em Portugal, e especialmente no nosso País nesta época de grandes dificuldades, se escutem com especial atenção e se sigam os ensinamentos do Papa Bento XVI, quando, no contexto da recente Jornada Mundial da Juventude em Madrid,  lançou um apelo por uma economia "centrada no homem" e não "no lucro".  Segundo o Papa, "O homem deve estar no centro da economia" e a actual crise económica “confirma o que já aconteceu nas anteriores crises”, isto é, que “a dimensão ética não é uma coisa exterior aos problemas económicos, mas uma dimensão interior e fundamental”.“A economia não funciona apenas com uma auto-regulação mercantil, tem necessidade de uma razão ética, para funcionar”, e esta deve-se medir pelo “bem de todos”.

Que em Portugal haja a sabedoria para entender e levar à prática estas palavras!

05.09.2011

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