Políticos num país a arder

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1. As semanas que passaram vão marcar indelevelmente Portugal por muitos anos. Pelas mortes. Pelo que ardeu. Pelo que se perdeu. E, naturalmente, também, pelas consequências políticas.

Algumas reportagens de órgãos de comunicação social nacionais trouxeram-nos ao conhecimento um Portugal profundo, tantas vezes esquecido e que muitos teimam em ignorar e menosprezar. Um Portugal de gente valente, que foi vítima de uma tragédia indizível e que foi protagonista de dramas pungentes. Mas uma gente que teima em continuar, que teima em não desistir de viver na sua terra, que teima em recomeçar a contruir o que o fogo destruiu.
João Almeida Dias, por exemplo, conta no “Observador” o que se passou na região de Vouzela: “(…) José pegou em duas mangueiras e ligou-as a um depósito de mil litros que tem para a agricultura. Com este material tentou apagar o fogo que lhe lambia as paredes de casa. Em trinta minutos, ficou sem água. Depois, só conseguiu ir buscá-la a um chafariz comunitário. O resto da noite foi passada a correr da fonte à casa, com dois baldes cheios de água — até que, também ali, ela deixou de brotar. Nessa altura, não teve outra escolha para além de esperar pelo fim. Enquanto isso, Irene e Daniela, na casa de uma vizinha, tentavam apagar o fogo com o que tinham à mão. Quando a água também por ali acabou, começaram a deitar mosto, das uvas que há pouco tempo foram pisadas após a vindima, para cima das labaredas.”
No “Diário de Notícias”, Rui Marques Simões conta que em Oliveira do Hospital se salvaram “cento e tal ovelhas, de raça bordaleira, autóctone da Serra da Estrela”, que era a base do negócio familiar, mas os alicerces estão bem abalados. “Está para ali um balde de leite sem préstimo, preto e a cheirar a fumo. E nós nem alimentação temos para lhes dar nos próximos dias – só ração, o resto ardeu tudo. Não sei se eu e o meu marido vamos ter forças para recomeçar…. Custa muito perder o resultado de uma vida de trabalho”, lamenta Maria de Fátima, baixando o olhar que antes fitava o manto negro que cobre as colinas em volta. “Por mim não consigo, têm de ajudar”.
E, no “Público”, Natália Faria descrevia, sobre uma aldeia perto de Vouzela, que “Em aldeias há muito ameaçadas pelo despovoamento galopante, os mortos confirmados estavam todos ao pé da porta de Maria de Lurdes, no lugar de Vila Nova. “Sabíamos que as pessoas estavam lá, mas não imagina o que isto foi, com fogo por todo o lado. Ninguém conseguiu lá ir. Às tantas, dei por mim a pensar uma coisa que até me custou: ‘Já devem estar mortos.’ E mortos estavam, coitadinhos.” Quando via as notícias de Pedrógão, Maria de Lurdes, que tem nos vizinhos a família que, solteira e sem filhos, nunca teve, costumava benzer-se: “Nós aqui estamos no céu.” Afinal, não. “É um inferno como os outros. Depois disto, o que é que nos segura cá?”
2. Foi este País e esta Tragédia (para não ir buscar relatos bem mais crus e pungentes) que o Governo de Portugal e o Primeiro Ministro, António Costa, nunca foram capazes nem de ver, nem de compreender, nem sequer de se compadecer publicamente.
Refastelado na cómoda couraça do burocrata lisboeta, preocupado mais em proteger o regime e aqueles que o suportam, o Primeiro Ministro fez tudo mal na forma como lidou com a situação dos incêndios e das mortes em Portugal neste verão. A sua comunicação ao País, na véspera da do Presidente do República, é de tudo isso bem o exemplo.
3. Marcelo Rebelo de Sousa fez uma comunicação ao País, em nome dos Portugueses, especialmente dirigida a António Costa e ao Governo. Exigiu que este, face à calamidade dos incêndios e dos mortos “tire todas, mas mesmo todas as consequências”. Aconselhou ao Governo a humildade cívica como sendo “a melhor forma se não a única forma de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de junho e de outubro – e de facto é justificável que se peça desculpa (…). Quem não entendeu isto, não entendeu nada do que se passou.”
E o Presidente da República disse isto “com um enorme peso na consciência” e na defesa da urgência em mudar a inação em nome dos “mais de 100 portugueses que tanto esperavam da vida no início do verão de 2017 e não chegaram ao dia de hoje”.
4. Só este discurso frontal, esta “bofetada” na consciência, fez António Costa alterar o seu registo e as prioridades. Num repente, mudou o que havia dito na véspera e deu “férias” à Ministra que não as tinha tido e se lamentava disso perante os mortos nos incêndios. Agora, o Governo terá de provar, “com atos e não só com palavras” que a floresta é uma prioridade e que, em consequência, o Orçamento de Estado a transformará nessa prioridade e não acolha apenas, como parecia, as questões dos funcionários públicos e do défice.
5. Passivos, a tentar passar entre os pingos da chuva, fazendo declarações cautelosas, defensivas, cordatas, mansas até mais não, andam o PCP e o BE, parceiros da coligação e suportes do Governo. É um espanto ver ao que chegaram aqueles que se apresentavam há um par de anos como os campeões da moral pública e das ruturas com as velhas políticas. Onde andam aqueles que, sobranceiramente, denunciavam, em 2015, que “a incompetência do Governo não pode encontrar justificação na meteorologia”?
Basta estarem do lado do poder, que o discurso muda!
Não há Política que resista a estes políticos… 

23.10.2017

 

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