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“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” – Fernando Pessoa

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Confesso que neste nosso jardim atlântico fazem-me particular falta as livrarias, preciso dos livros e da alienação que eles permitem. Procuro nas oportunidades de viagem e nos contactos pelo mundo ir acumulando os que bastem (e nunca bastam) para alimentar o espírito e enfrentar a bruma do nosso inverno insular. Não sei se isso será coisa de cigarra ou coisa de formiga, nem me interessa. É claro que também me preocupo em alimentar o corpo. Na ilha há quem, por esta altura, se entretenha a matar porcos de forma a guardar provisões para o frio que se avizinha e assegurar o necessário reforço calórico e gorduroso mas eu nunca tive jeito nem gosto para matar porcos. E mesmo apreciando uma boa morcela caseira não deixo de achar que “nem só de pão vive o homem”. 

Na última crónica referi a paixão que tenho por cartas e a importância que dou aos correios. Apesar das novas tecnologias ajudarem a quebrar um pouco este nosso isolamento ilhéu sabe-me sempre muito bem a visita do carteiro, particularmente quando trás alguma surpresa boa e assim aconteceu, há dias, com a chegada de uma encomenda postal enviada pela minha amiga Teresa Tabucchi contendo três livros de um dos meus escritores de culto, António Tabucchi, recentemente falecido. E não é por acaso que a crónica de hoje é lançada com uma frase de Fernando Pessoa pois Tabucchi foi, entre outras coisas, um dos maiores conhecedores, crítico e tradutor italiano de Pessoa. 

Conheci a Teresa, sua filha, há cerca de vinte anos nos tempos de estudantes em Lisboa e foi através dela que um dia tive oportunidade de ver e trocar algumas palavras com esse escritor que tanto admiro e cujo romance “Mulher de Porto Pim” marcou a minha adolescência e de tantos outros faialenses. Já na altura se sonhou uma viagem para que ela tivesse oportunidade de conhecer as nossas ilhas encantadas e, vinte anos depois, finalmente o sonho cumpriu-se e a Teresa veio este verão, agora com a sua filha, passar uns dias cá em casa e conhecer finalmente Porto Pim e o Faial. Falarei talvez dessa visita numa próxima oportunidade até porque, graças ao meu querido amigo Beto Almeida que vivendo na Horta é o “Soba” (chefe tradicional africano) do Lagido, fomos também ao Pico. 

Durante a sua visita Teresa falou-me de um livro de viagens publicado recentemente em português, já após a morte de seu pai, em que ele uma vez mais fala da Horta e dos Açores. Foi um dos livros que generosamente a minha amiga me enviou nesta encomenda postal, chama-se “Viagens e outras viagens” e tem, para além de textos sobre viagens do autor um pouco por todo o mundo, algumas páginas dedicadas ao Faial e ao porto da Horta. Deixo a todos a informação da sua existência nesse livro para aguçar a vossa curiosidade e fazer-vos procurar o livro mas escolhi destacar aqui outro texto que ali encontrei, também sobre os Açores, intitulado “os meus Açores”, por me ter entrado mais fundo na alma e revelar algo mais da tal “Mulher de Porto Pim”. 

Aproveito também a oportunidade, numa altura em que aqui e ali se vão notando na ilha alguns tiques xenófobos e de um certo maniqueísmo, de alguma exclusão na base do “nós e os outros” e do “os de cá e os de fora”, para lembrar que a nossa maior riqueza é a nossa diversidade e a capacidade que temos de ser plurais. Nisso se baseia o mosaico humano  desta ilha. António Tabucchi também é nosso, do Faial e dos Açores. 

E diz assim o que escreveu sobre “Os meus Açores”:

“Um lugar nunca é apenas “aquele” lugar: aquele lugar somos um pouco também nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não é responsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lermos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhermos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. Mas há muitos anos, quando fiz a minha primeira viagem aos Açores, ainda não o sabia. 

“Reconheces-me tu, ar, cheio dos lugares que uma vez foram meus?” É um verso de Rainer Maria Rilke que neste livro é recorrente. Alguém está a regressar a um lugar que conheceu noutros tempos e pede ao ar (o espírito do lugar) que o reconheça, porque ele próprio não reconhece já esses lugares. Não reconhece o que contemplou noutros tempos nem o que nesse tempo sentia ao contemplar: as suas emoções, o seu eu de então. Cada lugar a que chegamos de viagem é uma espécie de radiografia de nós próprios. Muitas vezes, ingenuamente, tiramos fotografias com a ilusão de levarmos alguma coisa connosco. Mas as imagens são apenas a pele, pura aparência: o que esse lugar provoca em nós ao contemplá-lo e vivê-lo não é fotografável. Acontece o mesmo que com os sonhos. Impelidos pelo desejo de comunicar a emoção sentida a alguém e quase com espanto damo-nos conta de que a história daquele sonho era banal, era um sonho como outro qualquer: assim, ao contá-lo, não comunica nenhuma emoção, nem em quem nos escuta nem a nós próprios que o contamos. O que é que tinha então de tão especial para ter provocado tanta emoção? Nada. O importante daquele sonho não era o que acontecia, mas a maneira como o estávamos a viver: o sonho era a nossa própria emoção. Com um lugar é a mesma coisa. Contá-lo não significa descrevê-lo, mas conseguir transmitir, mesmo numa ínfima parte, as emoções que nos suscitou.

“Mulher de Porto Pim” é à sua maneira uma cartografia pessoal, o traçado da geografia íntima do que eu era então.

Que não era um verdadeiro livro de viagem mas antes uma circum-navegação metafórica em volta de mim próprio, a viagem em volta do próprio quarto de quem paradoxalmente tinha feito na realidade aquela viagem aos Açores, procurei dizê-lo nas três paginazinhas do prólogo, e voltou a dizê-lo também, com palavras mais sóbrias, o texto da capa, que foi escrito por Leonardo Sciascia mas que não está assinado. Aludindo a Leopardi, o texto de Sciascia fala daquilo que dentro de nós encontra ressonância, por ser “antigo” e “longínquo”, evocando estas duas dimensões como se fossem dois pontos cardeais da narrativa.

Relendo o livro agora, se tivesse de completar os hipotéticos pontos cardeais da rosa-dos-ventos que então guiaram a escrita, talvez lhe acrescente um terceiro, cheio de imprudência de inocência, e um quarto que me parece sugerido pelo temor, pela apreensão, pela inquietação, quase um alarme. Imprudência porque é pouco ponderado quem escreve um livro feito de palavras roubadas, de fragmentos, de estilhaços, de migalhas. Inocência porque me parece que nos olhos daquele narrador havia assombro, que é talvez o melhor dom do viajante, e que é difícil de manter com o tempo. Alarme porque se fala muito do naufrágio, como se em cada página o temesse.

Talvez aquele viajante temesse aquele canto de sereias que leva o barco contra os recifes. Escrever aquele livro talvez fosse para ele um meio de se atar ao mastro real sem pôr cera nos ouvidos, porque o canto das sereias pode ser fatal mas não o escutar é de medrosos, quando se está verdadeiramente de viagem”.

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