A visita do Alex

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Alex, o ciclone, sempre bem informado como convém a qualquer ciclone que se preze, tanto elogio ouviu nos últimos tempos relativamente às ilhas açorianas que, fez malas e resolveu dar uma espreitadela. Não sem antes fazer um aviso à comunicação social: “Falem de mim, falem muito.” E obedeceram-lhe. Em segundo plano ficaram a política, a crise, todas as mesquinhices habituais e deram prioridade a ele.
E, assim sendo, Alex, não como qualquer turista vulgar que se enfia num avião e parte anonimamente à descoberta dum mundo seu desconhecido, abala veloz atrás do que lhe convêm. Não é uma questão de sensatez, mas de imodéstia, protagonismo e principalmente muita vontade de chatear. Ele vinha com ideia de chatear e massacrar o nosso mundo de voyeurs. A sua intenção estava para além de olhar. Ele queria ser. Ser diferente neste pequeno mundo de ilhas formadas num arquipélago de insanidades muitas.
E nós ficamos expectativos. A chegada dum Alex é obra. Roça a epopeia. Ele prometeu chegar para ter recepção condigna. Mas entendeu que nem todos lhe dariam trela e então resolveu virar furacão. Para se aguentar quem pudesse!
Os açorianos entenderam que ele estava exigindo muito respeitinho. Açoriano é respeitador mas não se subjuga facilmente. Preparou-lhe a recepção como povo hospitaleiro que é. Teve tanto ou mais trabalho como se duma consoada se tratasse. U, nunca mais acabar. Sobraram as dores de cabeça, de coluna, cansaço infinito e as culpas, sobretudo as culpas.
Como a consoada tem dia e hora marcada, Alex fez o mesmo. Atrasou um pouco, mas faz parte, dá um certo tom, um glamour. E nós esperando, não receando a comida esfriar mas os neurónios arderem. Atenção, repito, Alex só tem um olho, está desculpado.
E foi à conta da falta desse olho que ele ao aterrar na ilha maior, a de cima, deixou rastos, muito estardalhaço, foi um ver se te avias. Sabem porquê? Porque ele, curioso, curvou-se mais do que manda a lei para olhar as furnas e daí o estrago que deixou na fuga para não se queimar. Não antes de se ter empanturrado com o cozido, o bolo do caco e o frei gigante. Depois foi percorrendo as outras ilhas mais cuidadoso, pensando seriamente que tinha feito uma asneira brutal.
Nos açorianos de baixo, ficamos felizes por saber que ele tinha passado silencioso, sem chatear. Tivemos sorte porque ele era sexo masculino. Caso fosse um furação feminino outro galo cantaria. Ainda hoje andaria por ai destruindo tudo, fazendo fofoca, pondo tudo à bulha, barafustando, inventando mil e uma coisa a fim de deixar um caos atrás de si. Porque furacão feminino é sempre muito ruim.
Alex, furacão estupido! Você nem soube escolher a estação do ano para viajar. Não gostei. Os açorianos não se deixam derrubar por um Alex qualquer. Rajadas de cento e oitenta e ondas de oitenta são pera doce! Canja! Olha só, o barco do Pico fez o percurso normal. Os marinheiros deram risada e fizeram anedota para você!
Um conselho. Vai viajar para outro lado. Os açorianos, caso não saibas, são portugueses. Descendentes daqueles Cabrais, Colombos e Albuquerques, Gamas e outros tais que enfrentaram furações à séria, combateram piratas, dobraram cabos, riram para Adamastores, suportaram fomes, doenças, frios e calores, mas chegaram lá, onde queriam!
Procura sítios mais suaves para mostrar as tuas habilidades. Aqui não há pachorra. Já mandamos outros mais valentes às urtigas! E lembra, enfrentar açorianos é um tormento. Eles já leram a cartilha que tu ainda não abriste! A Tragédia quente ficou out. resta-nos a tragédia fria que não emociona mais!

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