Um segredo cabeludo…

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O Daniel não era um aluno qualquer. O pai ao matriculá-lo, pediu que eu tivesse paciência com ele, visto ser um menino pouco acessível e muito teimoso. Não fazia amigos  e não obedecia a ninguém. Claro que não dei muita importância à questão, até ao dia em que ele entrou à porta da escola. Sou o  Daniel- disse ele, olhando-me fixamente, com ar de quem tenta estudar a pessoa que está na sua frente. 
O Daniel tinha um ar severo, que chamava a atenção. Era enorme. Catorze anos. Vários anos repetidos. Tentava mostrar uma alegria diferente dos outros. Não sei porquê, naquele momento constatei que, ali, na minha frente, estava o aluno problema. E, eu, do alto dos meus vinte e poucos anos, julgando-me o máximo, jurei a mim mesma não dar ocasião a que ele me pusesse os nervos em franja.
E os dias passando, eu verifiquei que aquele aluno possuía um q.i. elevado, embora tivesse um interesse nulo pelo estudo. É certo que levou as primeiras semanas frequentando as aulas assiduamente. Era vê-lo lá, sentado, olhando o mesmo ponto, abstrato, sem falar nem ouvir. Não podia adivinhar-lhe os sonhos, pois soube sempre que ele era feito só de sonhos. O silêncio dele não era silêncio, apenas falava outra língua, usava um código que me cabia desvendar e que estava sendo difícil. 
Nos recreios, parava a um canto, olhando o horizonte, incapaz de entender nada. E eu pensando que as coisas com ele eram complicadas.
Um dia chamei-o, perguntando se ele queria falar comigo. Ele, afastando um mecha de cabelo da frente do rosto, unhas lascadas, aproximou-se de mim, respondendo por monossílabos às perguntas que lhe fazia, na tentativa de desvendar o mistério que ali havia. Em vão. Ele respondia rosnando, enquanto eu ficava pensando na nulidade do nosso entendimento, uma vez que sabia não ser possível haver espaços abertos, quando se tem um coração trancado. E, olhando-o, imaginava o coração dele uma caverna povoada de morcegos.
Comecei a ficar ansiosa. Não sabia como ajudá-lo. As minhas colegas aconselhavam a esquecer. Foi então que certo dia lhe falei sobre Barrancos, donde ele viera e onde o pai era carabineiro na fronteira de Espanha. Por momentos pensei ter ele observado alguma cena emocionante que o aterrorizasse. Muitos carabineiros na época, naquela fronteira, matavam friamente quem se atrevesse a pular as barreiras para Espanha. Outros, eram mortos pelos contrabandistas para atingirem os seus fins. Mas não. O Daniel sobre isso, estava vacinado. Respondeu: “E depois? Morrem porque são valentes”. 
E começou a isolar-se mais. Cada vez mais. Algo parecia marcá-lo com uma invisível tarja de  tristeza. Sumia dias e dias, engolido por algo estranho. Contatando os pais, ficava zerada. Eles não sabiam nada. Era hábito dele!
Quando regressava à escola, desculpava-se e se a mentira falhava ele dispensava outra. Ficava em silêncio de gatos.
Um domingo, casualmente, encontrei-o junto ao castelo de Mértola, um cachorrinho no colo. Senti um pesar imenso. Quando ele me viu, agarrou o cachorro com força, perguntando com arrogância : – Minha senhora anda-me vigiando? 
Sentei-me ao lado dele e talvez com a ajuda de Deus, consegui a sua atenção. Deu-me o cachorrinho para “ guardar com cuidado” e ficou ouvindo o meu interrogatório feito com a máxima diplomacia até que, agarrando a minha mão disse: – Minha senhora, tenho um segredo cabeludo. E tinha. Meu Deus, como tinha! Contou tudo. Sem interrução. Acho que naquela tarde as nossas lágrimas inundaram o castelo de Mértola.
E, assim comecei a olhar o Daniel com outros olhos. Entendi como se pode escamotear a dor, o desgosto, tudo o que a vida nos oferece sem que tenhamos culpas. Aquele garoto desajeitado, acabara de virar uma criança desamparada, num corpo grandalhão de adulto.
Claro que não desvendei o segredo, nem desvendarei. Era dele. Confiou em mim. Mas que era cabeludo era. Ficámos cúmplices e a pouco e pouco o Daniel foi ultrapassando tudo. Passou os anos. Ajudei-o na admissão aos pupilos do exército. E para lá foi. Não mais soube dele, até que um dia, já eu então também grande, seguia de comboio, quando um desconhecido se aproximou de mim e disse: – Minha senhora, obrigado. Acho que tivémos o mesmo pensamento, porque ele disse “Deixei-o lá no rio, o estupor”.
E, num abraço, falámos do passado. Foi bom! Felicidades! Foste um super- homem. Porque só um super- homem tem força de vencer um segredo tão cabeludo!
 
 

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