1. Na passada semana, a TAP fez o seu último voo para esta cidade. Encerrou-se um ciclo crucial para a ilha do Faial, durante o qual melhorámos significativamente as nossas acessibilidades ao exterior, feitas com qualidade, comodidade e frequência.
Abre-se, agora, um novo ciclo, em que nele desempenhará papel essencial a SATA, uma empresa dos Açores, detida pelo Governo Regional. Também por isso, é justo esperarmos o melhor empenho da SATA em contribuir para que a rota da Horta mantenha os altos padrões de qualidade e satisfação dos seus utentes.
Neste momento de transição é factual reconhecer-se que a SATA, ao reduzir o número de ligações diretas entre o Faial e Lisboa, não começou nada bem!
Por outro lado, é de justiça, também neste momento, dirigir à TAP uma palavra de reconhecimento pela forma como promoveu, incentivou e divulgou a rota da Horta. E desejar que, neste momento de saída, saiba encontrar soluções justas e humanas para os seus funcionários da Horta, que tão bem serviram a empresa e os seus clientes. Neste particular, não haverá outra ocasião para a TAP deixar uma última e decisiva boa impressão no Faial!
2. O novo modelo de transportes aéreos para os Açores, como o demonstrei em crónica anterior, penalizou especialmente a gateway da Horta, de todas a que mais vai perder, neste Verão, por comparação com 2014: serão menos 66 voos!
Mas, também na ilha do Pico se verifica uma forte contestação a este novo modelo. Apesar do número de voos naquela ilha duplicar, as forças vivas e muitos articulistas têm exprimido o seu descontentamento e contestação quer aos novos horários, quer mesmo ao número de voos.
Posso discordar – e discordo! – de alguma argumentação usada, mas respeito a defesa que essas entidades e pessoas diversas assumem da sua ilha e a luta que procuram travar para conseguirem o que acham ser o melhor para as suas gentes.
E respeito-os porque assumem o incómodo da crítica, desafiam o conforto do silêncio, rompem a cobardia da subserviência e da submissão aos poderes instituídos.
E respeito-os na proporção inversa com que deploro aqueles que, aqui no Faial, em vez de manterem o nível de exigência e de reivindicação face aos novos horários da SATA nas ligações com Lisboa, passaram a esse estado lastimoso e inconsequente de se dizerem “expetantes” sobre uma coisa que já sabem que não mudará para melhor!
É de pasmar: a Horta perderá este Verão 66 voos e quase 22.000 lugares e quem tem a primeira obrigação e dever de defender esta terra e as suas gentes, diz-se vigilante e expetante sobre o que irá acontecer!…
3Mas, se respeito aqueles que lutam pela melhor defesa dos interesses do Pico, entendo que há um patamar de verdade a que todos devem estar obrigados. Não posso concordar que na defesa de princípios e de causas (mesmo que justas!) possa valer tudo. E não posso aceitar que quem tem (ou deva ter) responsabilidades acrescidas, manipule e falseie as estatísticas e os números de forma grosseira, afirmando, por exemplo, que as “ligações entre o Pico e Lisboa crescem 17 mil passageiros ao longo dos últimos seis anos”.
Como demonstro no quadro seguinte, tal afirmação não é verdadeira, pois ela assume a totalidade do movimento do Aeroporto do Pico como sendo a sua ligação com Lisboa, esquecendo as ligações inter-ilhas:
Movimento do Aeroporto do Pico (Fonte: Serviço Regional de Estatística dos Açores)
Como se conclui do quadro, o aumento de passageiros da TAP no Pico, em seis anos, foi de 1.402 (um crescimento de 0,8%), enquanto o aumento de passageiros da SATA (inter-ilhas) foi de 15.820 (um crescimento de 7,4%). Ora, somar o aumento do movimento total do Aeroporto do Pico (inter-ilhas e Lisboa, que foi de 17.222 passageiros) e atribuí-lo em exclusivo às ligações com Lisboa é algo que a verdade não autoriza!
4. E, se há quem tem sido capaz de, ao longo destas últimas semanas, defender, com argumentos racionais, a questão da necessidade do reforço de voos para o Pico, outros há, porém, que no entusiasmo do verbo, mais não têm feito do que ressuscitar velhos fantasmas e divisionismos entre ilhas. Quem, de entre estes últimos, defende que os voos para a Horta devem ainda ser mais reduzidos para passarem a realizar-se para o Pico, não compreende que somos todos nós, como conjunto de ilhas, a perder? Ter o Pico mais voos por se retirarem ao Faial, ou vice-versa, não significa ganho nenhum para este conjunto de ilhas que cada vez tardam mais em compreender a importância de se unirem e lutarem, lado a lado, na defesa do lugar que deve caber a esta zona do Arquipélago na definição das políticas regionais! Unidos seremos mais fortes! Divididos, continuaremos sem ir longe, como já se está a ver!
5. As novas obrigações de serviço público relativas aos serviços regulares entre o Continente e os Açores continuam, à medida que vamos sabendo mais sobre o que foi acordado entre os governos da República e dos Açores, a ser uma autêntica caixa de Pandora que, depois de aberta, ainda não somos capazes de avaliar em toda a sua plenitude os seus efeitos e consequências. E, por mais que o Governo Regional queira desvalorizar alguns pormenores, a verdade é que entendo que eles têm significado e, a seu tempo, verificaremos se são ou não importantes. Atentemos, a título de exemplo, no que está escrito no preâmbulo do Decreto-Lei n.º41/2015, de 24 de março (os sublinhados são meus): “Atendendo a que determinadas rotas entre o Continente e a Região Autónoma dos Açores e entre esta e a Região Autónoma da Madeira não se encontram, ainda, em condições para a referida liberalização…o interesse público e a necessidade de suavizar o impacto inicial desta liberalização reclamam a previsão, numa fase inicial e transitória, de auxílio social ao transporte de passageiros residentes e dos passageiros estudantes, que passa pela atribuição de um auxílio social ao transporte de intensidade variável.”
Sou só eu que, ao ler isto (e muito particularmente aquilo que destaquei em sublinhado) fico intranquilo e com dúvidas?











