Algumas notas sobre património

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No artigo passado referi-me aos elementos da arquitetura de produção tradicional – eiras, cisternas e toldas por exemplo – como elementos passiveis de ser integrados em percursos de interpretação de paisagem. Alguns podem voltar a ser usados mantendo a função original, como é o caso das cisternas, e outros podem ganhar novos usos numa ótica de multifuncionalidade e desenvolvimento sustentável, como é o caso da transformação de eiras em zonas de estadia. Esse artigo suscitou diversas reações, que conduziram a algumas reflexões que gostaria de partilhar.
É claro que nem todos elementos da arquitetura de produção tradicional podem ser considerados elementos de valor patrimonial. Para isso é necessário que preencham determinados critérios: de antiguidade, de singularidade, de raridade, de integridade do bem. Um exemplo deste facto é o da arquitetura e produção relacionada com a água. Existem sistemas de aproveitamento de água especialmente complexos em ilhas como a Graciosa que incluem vastos reservatórios subterrâneos, tanques e lavadouros. Estes sistemas apresentam singularidade no panorama do arquipélago o que conduziu a que alguns fossem inseridos no inventário do património imóvel dos Açores. No entanto, existem outros tanques e cisternas que não foram inseridos nesse inventário por serem mais atuais ou com uma tipologia de construção mais corrente.
Do mesmo modo, no caso da ilha do Faial, existem alguns elementos que são considerados elementos de valor patrimonial cuja classificação é dúbia. Refiro-me, por exemplo, à estereotomia do pavimento em frente à Igreja das Angústias. Este desenho de pavimento foi colocado nas últimas décadas do século passado pelo que não se pode considerar verdadeiramente um elemento de valor patrimonial. Era, no entanto, um curioso documento histórico – uma vez que recriava os brasões dos primeiros povoadores da ilha – e com o qual a população tem uma ligação afetiva. Tendo em conta estes dois últimos aspetos a edilidade camarária e os projetistas que estão a trabalhar no projeto de reformulação deste espaço propuseram uma alteração ao projeto inicial do mesmo. Assim, o desenho do pavimento em frente à Igreja das Angústias foi todo fotografado antes do início dos trabalhos e vai ser reposto no novo espaço, brasões e anjos incluídos. Refira-se também que a intervenção mereceu a aprovação da comissão cultural da Diocese e que o adro continua a ser da Igreja, apesar de passar a ter uma utilização mais facilitada. Em lugar do antigo muro de delimitação vai surgir uma linha de pavimento em lajes de basalto que diferenciará as duas áreas, adro e passeio pedonal. Estando este projeto incluído no âmbito da Frente Mar da cidade da Horta, tal como o da reformulação do Largo do Infante, faz sentido abordar a questão do património também neste largo. No Largo do Infante existem quatro palmeiras (Phoenix canariensis) que foram plantadas ainda no século XIX e estão classificadas como património da cidade. Assim, pode referir-se que todas as palmeiras e metrosíderos (Metrosiderus excelsea) do Largo do infante serão mantidos.
A questão do património natural e cultural e da sua preservação é importante. No entanto não devemos cair em excessos, de se considerar todos os elementos mais antigos como elementos de valor patrimonial. É também necessário dar espaço à mudança, para que as cidades e as sociedades evoluam. Ter uma visão sustentável das questões patrimoniais é também ter a consciência que os recursos para a preservação do património são finitos e que se devem estabelecer prioridades, tendo em conta critérios bem definidos que salvaguardem aquilo que é importante deixar às gerações futuras.

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