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Alguns fotógrafos faialenses

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Em 1839 foi anunciado oficialmente a invenção do daguerreótipo, a máquina capaz de captar imagens crida pelo francês Louis Daguerre.
Aceitam os especialistas – não sem muita controvérsia – ser aquele o ano da invenção da fotografia.
Alguns anos depois ela acabaria por chegar às ilhas açorianas, através dos estrangeiros, (visitantes ou mesmo residentes de que são exemplo os membros da Família Dabney) ou das experiências realizadas por alguns naturais que, movidos por compreensível curiosidade, foram pioneiros naquela arte.
O faialense Dr. António Ferreira Borralho terá sido, porventura, o primeiro fotógrafo açoriano. Nasceu ele na Matriz da Horta a 21 de Junho de 1793, filho de Bruno Nicolau Ferreira e de Tomásia Joaquina Teles Berlinque, frequentou a Universidade de Coimbra, aí concluindo o curso de medicina em 1823.
Regressou à terra natal e nela se manteve até 1827, integrando nesse ano o júri das famosas teses literárias e filosóficas organizadas pelo Dr. António José de Ávila (futuro Duque de Ávila e Bolama) e leccionando Aritmética e Geometria à mocidade faialense. É ainda em 1827 que vai para Ponta Delgada exercer a sua profissão de médico, a qual, em períodos diversos, alternou com a vida política, sendo por duas vezes eleito deputado às Cortes (1834 e 1836) e membro da Junta Governativa da Horta, juntamente com Dr. António Terra Pinheiro (Ouvidor), António Garcia da Rosa (Barão da Areia Larga), João Maria Ferreira e Dr. Manuel Severino de Avelar (1847).
Afora a medicina e a política, o Dr. Ferreira Borralho dedicou-se ainda ao jornalismo e à fotografia, um e outra ainda em estado incipiente. Esteve ligado à fundação, em 1835, do “Açoreano Oriental” cujo primeiro número foi impresso em material tipográfico que trouxera de Coimbra. Supomos que o seu entusiasmo pela fotografia terá sido impulsionado quando, em 1847, foi a Hamburgo “para trazer para casa a filha Lili [Luísa Soares Borralho] que frequentara lá a escola durante vários anos”1 . Terá sido na Horta que começou com as suas experiências fotográficas pois aqui continuou a viver até 20 de Abril de 1853, data em que a edilidade faialense deferiu um requerimento “em que o facultativo do partido da Câmara, o Dr. António Ferreira Borralho” pedia “licença para sair da ilha cessando durante a sua ausência o vencimento que percebe pelo cofre do Município”2 . Se, efectivamente, as causas da sua morte se deveram “ao descuido de dormir no quarto em que laborava com drogas muito venenosas” 3 que usava na revelação das fotografias, então o Dr. Ferreira Borralho desenvolveu essa técnica na Horta e não em Ponta Delgada, como habitualmente se tem divulgado. Ele terá sido, portanto, nos anos 50 do século XIX, um dos primeiros açorianos a dedicar-se à fotografia, como amador.
Dessa época são vários os fotógrafos estrangeiros que, temporariamente, estiveram nas ilhas oferecendo os seus serviços e promovendo a nova arte.
Nas décadas de 60 e 70 surgem nas três cidades açorianas os primeiros ateliers fotográficos. Consultando a imprensa da época, encontramos, em começos de 1874, o fotógrafo António de Avelar Ribeiro anunciando a sua “Photographia Hortense” que tira “fotografias em diversos tamanhos, com o maior esmero e perfeição”, a preços variados, tendo o “seu gabinete, situado na Ladeira da Conceição n.º 25, aberto das 10 horas da manhã até às 4 da tarde”4 .
Nesse mesmo ano veio à Horta o fotógrafo terceirense Carlos Severino de Avelar para “tirar retratos por todos os sistemas conhecidos” desde o esmalte em relevo até às fotografias simples, trabalhando, na rua de S. Francisco n.º 14, “todos os dias, do meio- dia em diante, não havendo vento” 5 .
Em 1875, o continental radicado na Horta desde 1863, Domingos Mendes de Faria (1842-1900) dirigia a “Photographia Nacional”, situada na Alameda da Glória n.º 35-A, numa casa de madeira construída para o efeito, onde tirava “retratos por vários sistemas” e ensinava “qualquer pessoa o sistema de cromo a cores por 24$000 reis”. Mendes de Faria, que havia chegado à Horta a 24 de Setembro de 1874 integrado na Companhia Dramática Lisbonense, optou por ficar na capital faialense, onde viveu até à morte, tendo desempenhado diversos cargos e exercido vários ofícios: ele foi, com efeito, além de actor e autor teatral, poeta, jornalista, proprietário do periódico “Gazeta Judicial”, advogado de provisão, escrivão de direito, administrador de concelho e um dos 11 fundadores do Grémio Literário Faialense (1874).
Na Exposição Distrital da Horta, idealizada pelo governador civil Visconde de Castilho em 1877 e efectuada em Maio de 1878 foram apresentadas quatro fotografias: uma, de Domingos Mendes de Faria e três de Samuel Dabney, já, ao tempo, o terceiro e último líder daquela Família americana que, indelevelmente, marcou o quotidiano dos faialenses durante quase todo o século XIX (1806-1892)
Em 1876, João Augusto Laranja, então um jovem de 19 anos (1857-1932), já exercia a actividade de fotógrafo, produzindo retratos esmaltados ou sem esmalte, em lâmina de aço, bem como reproduções de grupo e paisagens. Republicano histórico, terá partilhado a loja do seu atelier com a tipografia que imprimia O Democrata, fundado em 1885 e que passa por ser o primeiro periódico faialense que abertamente se opunha ao regime monárquico. O “Atelier Photographico” de João Augusto Laranjo, situado na rua de S. João n.º 45, ainda deve ter durado até 1902, ano em que, definitivamente, desapareceu da imprensa local o anúncio que publicitava os “retratos em grande variedade de processos, sendo trabalho garantido” e a “grande redução nos preços de todos os retratos” bem como a informação que se encontrava “aberto todos os dias desde as 9 da manhã às 4 da tarde”6.
Em Setembro de 1881 continuava estabelecido na “rua do Cais n.º 1, ao lado do castelo de Santa Cruz” um “Retratista” que trabalhava “por módico preço, com a melhor perfeição e pelos processos mais modernos”. Era ele, conforme se lê, em anúncio de 1882, Laureano P. S. Correia, que tirava “retratos em lâmina e cartão pelos processos mais modernos e com a maior rapidez possível”, estando o atelier “aberto todos os dias, mesmo os santificados, das 9 horas da manhã até às 4 da tarde, mantendo-se ali toda a decência e respeito” e praticando-se “preços sem competência” . Este atelier seria a “Photographia Americana”, conforme indica o “Arquivo de Imagem dos Açores” e teria sido fundado em 1880.
Em 6 de Julho de 1900 o flamenguense José Goulart Cardoso (1870-1955) abriu um estúdio de fotografia na casa n.º 3 da rua de São Paulo, na cidade da Horta. Começara a fotografar ainda muito jovem por influência de seu irmão Manuel que, emigrado em New Bedford, se tornara já um artista de mérito e foi, após uma aprendizagem naquela cidade norte-americana de cerca de cinco anos, que José Goulart abriu aquele estúdio que se viria a consagrar sob a designação de “Foto Goulart”, localizada desde 1903 na rua Ernesto Rebelo n.º 9 até ao seu encerramento definitivo em 1971. O valioso acervo daquela casa fotográfica está na posse dos seus descendentes e é composto por inúmeros trabalhos de real valor tanto em estúdio como no exterior. José Goulart, que foi um dos pioneiros da fotografia a cores em Portugal, consagrou-se como “um fotógrafo distinto”, um “artista que descobriu a nossa paisagem e com ela impressionou o celuloide em magníficos e soberbos quadros” de uma beleza invulgar “que é o traço que distingue o artista da multidão dos colecionadores de imagens”8 .
Em 1908, Tiago Romão de Sousa (1884-1946) fundou, na rua da Conceição n.º 29, a “Fotografia Popular” que, mesmo após a sua morte, continuou em funcionamento até á década 60 do século passado sob a direcção de sua afilhada Elvira dos Anjos Silva. Uma parte significativa do seu espólio, após desnecessárias intermediações, é felizmente património regional à guarda do Museu da Horta.
Fundada em 1940 – e ainda hoje em plena actividade – a “Foto Jovial” deve a sua criação ao dinamismo e competência de Júlio Vitorino da Silveira. Foram numerosas as reportagens que ele realizou sobre a paisagem, acontecimentos e figuras que marcaram a vida cultural, social, religiosa e política do Faial até 1952, altura em que emigrou para os Estados Unidos alienando aquele estúdio, que ainda hoje mantém uma vitalidade apreciável, sendo possuidor de um espólio magnífico, muito dele reproduzido em formato digital. São quatro os actuais proprietários: Henrique Silva, Líbia Silva Gregório, José Machado e Rui Machado.

1 Dabney, Roxana –“Anais da Família Dabney”, vol.2, p.106
2 Livro n.º 27 de Vereações da C.M.Horta, fl. 178-v.
3 Supico, Francisco Maria – “Escavações”, vol.2, p. 813
4 O Fayalense, 11 Janeiro 1874
5 Idem, 31 Maio 1874
6 O Telégrafo, 26 Abril 1901
7 O Fayalense, 29 Janeiro 1882
8 Peixoto, José da Silva, “Correio da Horta”, 5 Maio 1955

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