Alojamento Local | “Somos uma ilha com hotelaria tradicional” afirma Rosa Dart

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São cada vez mais os Alojamentos Locais nos Açores e a ilha Azul não foge à tendência. No total são 224 estabelecimentos no Faial. Rosa Dart é proprietária de um deles. Recentemente esteve presente no 2.º Encontro do Alojamento Local dos Açores. Devido a ser uma das integrantes do painel “Realidade do AL nos Açores”, o Tribuna das Ilhas conversou com a empresária para conhecer um pouco sobre este negócio.

Tribuna das Ilhas (TI) – Fez parte do painel onde foi debatida a “Realidade do AL nos Açores” durante o 2.º Encontro do Alojamento Local dos Açores. O que pode contar sobre esse momento? Que pontos foram tocados? A que conclusões chegaram?

Rosa Dart (RD) – Foi um gosto ter sido convidada pelo João Pinheiro e poder partilhar um pouco da minha experiência no Faial.
Exaltámos diferenças, da especificidade dos alojamentos em cada ilha e da importância que o AL tem efetivamente no mapa regional do turismo. Estamos a falar dum peso total regional de 60% das camas.
Relativamente ao Faial, e como somos uma ilha com hotelaria tradicional (o que faz toda a diferença na estatística), o AL representa apenas cerca de 39% do turismo na ilha, contudo com uma estadia média de 2.9 de dormida superior à da hotelaria tradicional 2.3, fixamos por mais tempo.
De facto, a evolução que temos assistido nesta área tem sido interessante. Passámos da crítica e diabolização aos grandes hotéis a um turismo de pequenas unidades, à proximidade que caracteriza o forte dos açorianos – o receber bem. Creio que o caminho é este, de complemento à hotelaria tradicional – igualmente necessária, mas agora com opção.
Conclusões podemos tirar muitas, mas é na diferença dos nossos alojamentos e tipologias, que percebemos que o que nos une – a riqueza da hospitalidade açoriana, vai muito além da estatística do turismo. É uma experiência endógena, um enriquecimento para a região, para cada ilha.
O AL cria riqueza em todas as áreas. Distribui para as atividades maritímo-turísticas, para o comércio local, restauração e inúmeros serviços. A hotelaria tradicional per si não aguenta negócios locais todo o ano, apenas sazonalmente. Creio honestamente que o AL contribui para que haja menos desemprego e mais vida económica local ao longo do ano.
Naturalmente ainda há muito a fazer por cá. Continuamos com falta de uma restauração estável e bem preparada, de mão de obra qualificada e com algum relaxamento em sermos excelentes no que fazemos. .

TI – Quando e por que tomou a decisão de entrar no mercado do AL?

RD – Por várias razões. Gosto de pessoas, gosto de mudanças e gosto de novas experiências.
Em 2015 começámos, eu e o meu marido, a magicar o investimento. Fizemos um projeto, preparámo-nos muitíssimo bem e avançámos. Abrimos portas em 2017 e estamos muito satisfeitos com o nosso percurso.

TI – Como tem sido a sua experiência neste ramo?

RD – Tem sido excelente. Acho que é desnecessário dizer que ou nos preparamos para as coisas ou não vale a pena estarmos a perder tempo e dinheiro por caprichos.
Este ramo não é propriamente uma novidade para mim. Sempre trabalhei com pessoas e turismo. Tenho alguma formação em gestão e o que não sabia aprendi. O resto, com trabalho e boa disposição aparece.

TI – Tendo em conta que já está há algum tempo envolvida nesta área, que perceção tem sobre o funcionamento do AL na ilha do Faial?

RD – A perceção é de que há margem para crescermos em quantidade e qualidade. Contudo, a minha opinião é de que temos que nos preparar melhor. Fazer mais pontes uns com os outros, trocar mais informação. Preparar a época duma forma mais profissional. Criar mais atividades que prendam os turistas e nos visitem em época baixa. Desviá-los de julho e agosto.

TI – Quais são os maiores desafios que os proprietários dos Alojamentos Locais enfrentam nos dias de hoje no Faial?

RD – A falta de mão de obra, de oferta formativa e de competências dos trabalhadores da área. Saber receber e limpar, ter tudo perfeito é uma arte. Small little things fazem toda a diferença.
E os ilegais. É uma chatice estar legalizado a pagar impostos e a cumprir com o contrato social e ver outros que não se importam minimamente com isso.

TI – O que podem fazer os proprietários para melhorar os Alojamentos Locais nos Açores de modo que se tornem ainda mais atrativos para os turistas?

RD – Apostar na qualidade. Não é importante ter as casas cheias o ano todo. Nós dificilmente teremos o ano todo turismo, mas se tivermos boa qualidade, as pessoas escolhem-nos e voltam. É a qualidade que nos permite mexer nos preços e acrescentar valor.

TI – Acha que o AL “rouba” habitação permanente e contribui para dificultar o acesso à habitação na nossa ilha?

RD – Não. As casas abandonadas ou em mau estado existem e já existiam há muito tempo e ninguém as arranjou nem as iria arranjar. Por imensas razões, ou porque são de vários herdeiros ou porque a pessoa não tem capital para investir, ou porque não encontra empreiteiro, etc.
Depois veio a inflação e a guerra, o panorama só piorou.
Dizer que o AL “rouba” habitação é uma redundância para reforçar uma posição fútil e sem argumentação. Acho ridículo que pessoas em posições de responsabilidade reproduzam disparates desses para capitalizar simpatias, mas também assim, espero, serão avaliadas por demonstrar um completo desconhecimento económico.
O AL é um catalisador do desenvolvimento regional. Cria empreendedores, emprego e auto-emprego, democratiza a riqueza dividindo-a por pequenas unidades locais cujo valor fica na terra, cria, portanto, sustentabilidade económica, interfere positivamente na reabilitação do parque urbano e acima de tudo, cria mais investimento. Dá vida às localidades.
A curto prazo, a percentagem de habitação que se transformou em AL é mínima, mas os AL’s que se transformaram em habitação são imensos. Há muita exigência e encargos para se ter e manter um AL que as pessoas desconhecem, mas a própria procura acaba por selecionar a oferta. Estamos numa fase de aposta em maior qualidade turística e como em tudo, uns ficam pelo caminho e acabam por se converter em arrendamento de longa duração. É o mercado a trabalhar.
Por outro lado, creio que quer a procura turística quer a procura por habitação teve um efeito positivo, que foi pôr os municípios a trabalhar finalmente nos PU’s e PDM’s que não eram tristemente mexidos há 20 anos. A falta de habitação aliada á falta de visão ao longo dos anos foi completamente inevitável.

TI – O que sente quando vê o seu esforço reconhecido em revistas nacionais, como por exemplo na IN Corporate Maganize, na Mais Magazine e na Visão?

RD – Na altura fiquei felicíssima quando nos vi na Volta ao Mundo e na Visão, por convite já duas vezes. Ainda fico. É uma satisfação. Nas outras duas foi estratégia de marketing. Paguei para lá estar pois entendi que dava dimensão e projeção por virem em grandes jornais.

TI – Em 2017, o Porto Pim Bay é um dos 10 refúgios que conquistaram o Evasões do Jornal de Notícias. De que forma pensa que o seu AL se diferencia dos muitos que existem?

RD – Cada um tem as suas mais valias, não somos mais nem melhores. Somos uma equação feliz.
Criados de raiz com o objetivo de estarmos integrados numa antiga zona baleeira, usámos muita madeira no interior, o que climatiza bastante. Apostámos em várias tipologias, no conforto e dimensão dos apartamentos. São muito simples, sem decoração excessiva. E à beira duma praia tudo é mais bonito…

TI – Qual a importância de o seu AL estar certificado com a Marca Açores?

RD – Não me perco em acessórios ou com programas que não vejo retorno, mas a Marca Açores devolveu valor. Ter o selo dá confiança ao turista, principalmente ao português e há muita promoção junto do mercado da saudade e americano em geral. É um bom programa que deve primar pela exigência e apostar não só em géneros alimentares, mas mais nos alojamentos certificados.

TI – Pelo segundo ano consecutivo recebeu o selo da SCORING.LDA por pertencer ao TOP 5% das melhores PME em Portugal. Qual é a sensação?

RD – Estar neste Top 5% é a certificação decorrente duma avaliação económico-financeira que determina quais as empresas que se enquadram no restrito grupo dos melhores 5% em termos de desempenho e solidez financeira. Resulta do IES, (Informação Empresarial Simplificada), portanto, avaliada por igual para todos. A sensação? Segurança e orgulho.
Indicador importante também para os nossos parceiros saberem que podem confiar em nós.

TI – O que recomenda a quem pretende ter um AL?

RD – Primeiro que tire as suas dúvidas todas e estude um bocadinho o assunto. Um AL pode ser muita coisa. Desde um hostel, uma hospedagem, etc. Pode ser uma conversão duma moradia ou podem ser apartamentos. Pode ser projeto de raiz ou pode ser uma adaptação de património já existente. Podem ser duas camas ou 20.
Que se faça sócio da Associação de Alojamento Local. Nós temos um lobby muito interessante a nível Açores e temos crescido imenso, colaborado em planos do governo regional e travado batalhas muito complicadas vindas da república e que a maior parte das pessoas com AL’s não faz ideia, como a CEAL. Na ALA temos imensas parcerias com empresas de serviços de reservas, têxteis, amenities e apoio jurídico.
Apelo aos faialenses com alojamento local que se queiram fazer sócios que nos contatem, ao núcleo da ALA no Faial: eu, o Hugo Goulart da Horta Garden ou à Joana Soares do H18 através do email [email protected].

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