Alterações Climáticas – É importante adaptarmo-nos e reduzir os impactos negativos

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No seguimento dos Encontros Filosóficos, o Tribuna das Ilhas entrevistou Filipe Duarte dos Santos, especialista de renome internacional na área das alterações climáticas.
Presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), o professor falou-nos dos riscos das emissões de CO2 e das alterações climáticas para o planeta, para a biodiversidade e para o desenvolvimento socioeconómico.

Filipe Duarte Santos participou na passada semana na 25.ª edição dos Encontros Filosóficos onde falou aos alunos sobre as alterações climáticas e os seus riscos para o planeta e para a sociedade.
Neste sentido, o Tribuna das Ilhas esteve à conversa com o Professor da Universidade do Porto que nos falou deste tema.
Filipe Santos começou por explicar que “a concentração de CO2 na atmosfera aumentou cerca de 42% desde o início da Revolução Industrial, meados do século XXVIII, e é atualmente superior a 400 partes por milhão em volume, um valor bastante elevado”, acrescentando ainda que “é preciso recuar até há cerca de 2 milhões de anos atrás para termos a Terra com uma concentração tão elevada de CO2 na atmosfera”.
Segundo o professor, “o problema desta alteração rápida na composição da atmosfera é que o CO2 é um gás com efeito de estufa, ou seja, que absorve a radiação infravermelha, o que tente a intensificar a tendência da temperatura média global da atmosfera à superfície aumentar”.
“Se fizermos a média da temperatura global tendo em conta as sérias de temperaturas de todas as estações meteorológicas do mundo ao longo do ano obtém-se um valor próximo de 15° Celsius e verifica-se que a temperatura está a aumentar e tem aumentado nos últimos anos com impactos sobre as pessoas, sobre a agricultura e sobre a biodiversidade”, revela o especialista em alterações climáticas.
Outra consequência da emissão de CO2 para a atmosfera são os fenómenos extremos como os temporais violentos e os ciclones tropicais que também têm aumentado, como, por exemplo, nos Estados Unidos e no Golfo do México, e as secas e as ondas de calor que são prejudiciais para as pessoas de idade, para aquelas que vivem isoladas ou têm problemas cardiovasculares.
Uma terceira consequência é a subida do nível médio das águas do mar que sobe por três razões. “A primeira razão é porque aquecendo a atmosfera a camada superficial do oceano também aquece o que significa que o volume de todo o oceano dilata e aumenta pelo que o nível do mar sobe. A segunda é o facto de os glaciares estarem a recuar, ou seja, que o gelo está a fundir e essa água acaba por ir parar ao oceano, aumentando assim o volume do mesmo. Uma terceira razão e a mais preocupante a médio longo prazo é que temos grandes campos de gelo na Gronelândia e na Antártica onde também se nota que a massa de gelo está a reduzir”, enumera Filipe Santos.
O professor diz ainda que o CO2 é um gás natural da atmosfera muito importante para a fotossíntese das plantas que extraem o carbono da atmosfera. Contudo, “o facto da sua concentração estar a variar é que causa este problema das alterações climáticas”.
“No entanto, não é só o problema do CO2, há outros gases com efeito de estufa como o metano e o óxido nitroso”, entre outros, avança.
Para Filipe Santos, perante este problema das alterações climáticas temos duas respostas: reduzir as emissões de CO2 que vêm sobretudo da combustão dos combustíveis fósseis como o carvão, o petróleo e o gás natural ou adaptarmo-nos.
“Houve uma altura no fim do século passado, nos anos 90, em que nas negociações das Nações Unidas não se falava praticamente de adaptação pois pensava-se que o problema ia ser mais fácil de resolver e, portanto, as pessoas concentravam-se na mitigação. Contudo, o problema é bastante mais difícil do que inicialmente se pensava e hoje em dia fala-se muito de adaptação”, salienta o especialista.
Filipe Santos sublinhou que podemos procurar ter uma agricultura que seja mais adaptada a esta mudança climática e podemos enquanto indivíduos adaptar-nos também a um clima mais quente em termos das questões relativas à saúde humana no sentido de reduzir os impactos negativos deste problema.
Em relação à produção alimentar, o entendido sobre o tema defende que isso “é realmente um problema. Há certas regiões do mundo que no passado não eram muito produtivas do ponto de vista agrícola e que agora vão ser como é o caso das regiões de latitudes elevadas. Há uma tendência para os ecossistemas e para os biomas de se deslocarem para latitudes mais elevadas e também para zonas mais altas porque em altitude a temperatura é mais baixa, como o norte da Europa, o norte da Ásia, o norte da Rússia e o norte do Canadá”.
O aumento da temperatura média global da atmosfera foi de 1° Celsius. No Acordo de Paris, celebrado entre 195 países, “o objetivo é que não se aumente a temperatura em mais 2° Celsius e desses dois graus já “gastamos um”, alerta.
Desta forma, apesar de haver maior produtividade agrícola em certas regiões, no resto do mundo os impactos sobre a agricultura tendem a não ser favoráveis à produção, especialmente as regiões tropicais e algumas regiões subtropicais onde há secas cada vez mais frequentes.
Sobre o desenvolvimento socioeconómico sustentável, Filipe Santos diz ser um grande desafio pois os países estão em diferentes estados de desenvolvimento. “Temos países com economias avançadas como o conjunto da União Europeia e da Europa, os Estados Unidos, o Japão, a Austrália, o Canadá, a nova Zelândia. Mas depois temos países que têm economias emergentes e que estão a ficar com economias mais avançadas. Um dos exemplos mais importantes é a China que é um gigante em termos de população e de economia”, explica.
“Depois, para além dos países com economias emergentes, temos aqueles países que estão noutra fase do seu desenvolvimento, sobretudo em África onde há países que ainda têm problemas em que a qualidade de vida não se compara à nossa, em que existem problemas de pobreza muito acentuados que afetam uma percentagem muito significativa da população. Esses países têm expectativas de desenvolvimento socioeconómico como nós temos, mas estão num estado menos desenvolvido”, continua.
Para o professor “o problema é compatibilizar todas estas expectativas de países que estão em diferentes fases com recursos naturais finitos. Nós usamos cada vez mais água, usamos cada vez mais ferro e mais cobre, mas acontece que no passado havia muitas minas de ferro e de cobre e era relativamente barato extraí-los. Hoje em dia, apesar de ainda haver muitas minas, a sua extração já não é tão barata porque o teor, isto é, a quantidade de cobre e de ferro num minério é mais baixa e por isso é preciso gastar mais dinheiro para a sua extração”.
“Por isso, é que se fala muito de uma economia circular onde se procura ser mais eficiente no consumo dos recursos naturais, ou seja, para a mesma função, para o mesmo objetivo consumir menos, e por outro lado procura-se acabar com o conceito de lixo reutilizando. Assim essa reutilização diminui o consumo de matérias-primas que são necessárias para fazer funcionar a economia”, esclarece.
Portanto, no que respeita as alterações climáticas e este conceito de desenvolvimento sustentável o Conselho Europeu propõe que se faça uma transição energética de modo a que se diminua as emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera.
Quando questionado sobre a viabilidade do planeta, Filipe Santos afirma que este “é viável. É importante termos presentes que os indicadores de desenvolvimento humano na Terra em média nunca foram tão bons como agora. Quer dizer, a esperança média de vida no planeta aumentou muito, a mortalidade infantil diminuiu, a qualidade dos cuidados de saúde aumentou em média, a medicina fez progressos extraordinários, a pobreza também tem diminuído significativamente, apesar de existem ainda muitas pessoas em situação de pobreza extrema, a fome também tem diminuído”.
Pelo que “houve em todos estes indicadores um progresso o que significa que o planeta é viável, é habitável e pode-se ter uma vida com prosperidade e com qualidade de vida”, frisa.
Segundo o conhecedor do desenvolvimento sustentável o problema é que os indicadores relacionados com o ambiente já não são tão favoráveis, como é o caso da perda de biodiversidade sobre a qual as economias avançadas colocam a sua atenção.
No entanto, não é assim em todos os países do mundo. “Há certos países em que há um número considerável de espécies ameaçadas e que se não tivermos atenção a isso vão desaparecer”, lamenta.
O professor enumera ainda outros indicadores não favoráveis como a qualidade do ar que tem melhorado, mas ainda há muitas regiões no mundo, sobretudo nas grandes cidades onde a qualidade do ar não é muito boa, a poluição, dando o exemplo dos plásticos oceânicos que também é um problema que não está a melhorar.
“O problema continua a ser viável, mas a tendência que temos a não dar grande importância ao ambiente, dando mais importância ao desenvolvimento socioeconómico, leva a que realmente haja o perigo de que as questões ambientais, que não estão a ser resolvidas, comecem a interferir no desenvolvimento socioeconómico”, salienta.
De acordo com o Presidente do CNADS o mundo identificou os problemas estes e prova disso é a Agenda para 2030, aprovada pelas Nações Unidas que consiste em 17 objetivos e metas quantificadas para o desenvolvimento sustentável.
“O objetivo número 13 sobre as alterações climática baseia-se na necessidade de fazermos uma transição energética e impedir que este problema das alterações climáticas não se agrave”, revela.
“Esta transição energética significa que teríamos que consumir menos combustíveis fósseis, menos carvão, petróleo e gás natural, ou seja, cerca de 80% das fontes primárias de energia a nível mundial”, clarifica o presidente.
Filipe Santos afirma que é possível fazer esta transição sobretudo para energia renováveis, solar e eólica, “mas implica um investimento muito grande e dado que este paradigma energético baseado nos combustíveis fósseis é uma indústria muito poderosa e está muito bem enraizada na nossa cultura é uma transição difícil”.
Um outro aspeto a considerar sobre a emissão de CO2 é a desflorestação que ocorre sobretudo nas regiões tropicais que é um problema cada vez mais frequente.
No que ao Acordo de Paris diz respeito, o entendido avança que após os Estados Unidos da América terem anunciado a sua saída em junho de 2017 “os outros países têm de fazer um esforço maior para compensar o esforço menor que os Estado Unidos estão a fazer”, mas uma notícia boa foi nenhum outro país ter saído.
“Mas também há países que ainda não retificaram o Acordo de Paris, quer dizer, eles assinaram o Acordo, mas depois para que esse acordo entre em vigor em cada país é preciso que os seus parlamentos ou as suas instituições governamentais retifiquem o Acordo”, revela.
Sobre a nossa responsabilidade individual como cidadãos face ao Direito ao Futuro das Gerações vindouras, Filipe Santos salienta que se trata de “justiça intergeracional”. “Nós temos dificuldade em por em prática a justiça intrageracional, ou seja, a justiça na nossa geração social. Agora o conceito de justiça entre a geração atual e as gerações vindouras ainda é um conceito ainda mais difícil”, frisa.
Segundo o professor, “preocupamo-nos com o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos, mas tudo o que seja para lá de 50 a 100 anos é algo que não nos preocupa”, no entanto acredita que “há cada vez mais pessoas que são sensíveis a esta problemática do futuro”.
Na sua opinião, nos países com economias avançadas como o nosso os cidadãos podem “fazer um esforço na medida das suas possibilidades no sentido de utilizar energias renováveis como painéis solares”, ter atenção à eficiência energética dos equipamentos elétricos, ter uma mobilidade mais sustentável como usar os transportes públicos, bicicletas ou até mesmo andar a pé, ter alimentação que não dependa tanto da carne “porque é algo que tem associado um consumo muito grande de água e emissões de metano para a atmosfera por parte dos ruminantes como vacas, ovelhas e cabras”.
“Podem parecer pequenas coisas, mas multiplicado pela população de um país e de vários países já é muito significativo”, conclui Filipe Santos.

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