Ama como a estrada começa (Mário Cesariny)

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Os camiões carregados de sacos de milho, feijão, sal e latas de óleo alimentar levantavam um rasto de poeira que se via de longe, vinham pesados e apressados correndo contra o tempo e a fome de milhares de almas  amontoadas em tendas e cubatas de pau-a-pique com teto capim num campo cercado de arame farpado. Era um campo de deslocados. Abrindo caminho na frente um “jeep” branco com a bandeira azul do PAM (Programa Alimentar Mundial), por cima dos camiões e sobre a preciosa carga umas dezenas de militares armados com Kalashnikovs serviam de escolta para garantir a segurança não só do transporte ao longo do trajeto mas principalmente para evitar que os famintos tomassem de assalto a comida na chegada ao campo. Não é fácil explicar o que se sente e acontece quando se chega com camiões de comida a campos de deslocados onde milhares na agonia da fome desesperam, frequentemente nem com tiros os militares os conseguiam manter afastados dos camiões de forma a garantir uma distribuição alimentar ordeira e organizada, ao menos alguma aparência de ordem no meio do caos. 

Naquele dia, já nas proximidades do campo, estava um velho quase nu com ar esgazeado sentado no meio do caminho, o que obrigou todo o comboio de veículos a parar provocando o nervosismo dos militares que pensaram tratar-se de algum bruxo e rapidamente manipularam as armas e se preparavam para tirar o homem dali à coronhada não fosse a nossa pronta intervenção. Sai do “jeep” e depois de acalmar os ânimos da escolta armada dirigi-me ao velho que se mantinha serenamente sentado no centro da estrada de terra batida como se fosse ela, a estrada, sua. 

– Cumé mais velho tudo bem? 

Perguntei eu sem obter resposta do velho que mantinha os olhos escuros e amarelados fixados no vazio, talvez no horizonte para lá de nós. A sua nudez revela um corpo marcado, a pele curtida, ossos salientes e o cabelo branco em desalinho formando uma espécie de “dreadlocks” que faziam lembrar aqueles gurus na India ou algum velho rastafari jamaicano.

– Algum problema paizinho? 

Insisti aproximando-me dele e tocando-lhe suavemente no ombro. 

– Temos de passar para levar a comida no campo meu cota. 

Acrescentei em jeito de explicação para a nossa presença ali. O velho finalmente pareceu esboçar uma reação, o seu olhar soltou-se do vazio e fixou-se nos meus olhos. Calmamente diz:

– Espera filho, senta…

Surpreso mas sem questionar obedeci e sentei-me na estrada ao seu lado, ali ele disse-me assim:

– Óh jovem, tinha eu trinta anos nascidos, crescidos e vividos em Caconda, quando o colono fugia desesperado. A estrada para o Lubango era uma pista, Caluquembe era uma referência, Cacula paragem obrigatória. Antes em 74 eles já eram solidários com os tais assimilados, até que os livretes dos Alfa Romeu entregaram nos afilhados no aeroporto. Não sei se no Lobito ou em Luanda também foi assim, até com as lojas ficaram, por isso é que cacondista quer ser branco. Depois de afinal eles darem uma “dieta”, os colonos, sim os brancos, as lojas foram todas sabotadas até tudo aquilo que só o branco dava valor apareceu nos baús dos nacionais. Mas não foi como agora que até…. Aquilo chama-se quê? Os casquilhos, sim os aros das portas e janelas num ombro a “Kalachi” no outro. Eu…Eu  sou deslocado, fugi a guerra, acredito que se fosse para trazer tudo para cá, talvez não chegasse vivo. Mas pelo menos a minha boa porta e janela não passaria!!! A filha do colo, a Cassovinha, ficou…ya!! Ficou numa valeta, estas coisas de enterrar na terra natal nem sempre funcionam. Talvez é o tal comboio da vida, de ficar nas primeiras paragens. Agora comigo são 55 anos, meus amigos muitos já não existem… Sim!! Cada um ficou na sua sorte, até dá medo. Meus cabelos… Vê com os seus próprios olhos, talvez cinco pretos, isso é só na cabeça!!… Mas o futuro começa agora. Vai ali jovem!!! 

Disse-me ele apontando a estrada empoeirada. 

 

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