AMNÉSIA COLETIVA

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1 Portugal é um dos mais antigos países europeus. Ao longo dos seus quase nove séculos de existência como nação independente, a expansão marítima quatrocentista constituiu o nosso grande feito coletivo e dela resultou a nossa primeira feição própria e original no concerto das nações. Ela significou, como muito bem analisou António Sérgio, a vitória definitiva da “política de transporte” (comércio marítimo) sobre a “política de fixação da terra e das gentes” (agricultura) ou, como também explicou Alberto Sampaio, a expansão foi o corolário do rápido desvio, para as grandes viagens, da nossa vocação inicial de povo agrícola e piscatório. Esta inflexão marcará o futuro do “ser” português: um povo de diáspora, repartido pelo mundo, na procura individual de uma missão coletiva. Mas marcará também a futura vivência de Portugal, enquanto Estado: como bem notou António Sérgio, aquelas duas atividades essenciais da economia nacional deveriam ter sido complementares para maior benefício do País, mas o andar das coisas tornou-as antagónicas. A partir daí, a tendência dominante em Portugal foi a de viver da riqueza que a expansão e as colónias lhe foram proporcionando do século XV ao século XX. E essa imensa riqueza que passou por Portugal só muita raramente se traduziu em desenvolvimento interno. Aproveitou-a o Poder na sua ostentação. Aproveitou-a vários grupos sociais no seu enriquecimento, também ele muito feito de aparência. Aproveitou-a Lisboa, capital crescentemente macrocéfala de um país profundamente desigual. Mas investimento reprodutivo, gerador de riqueza, emprego e desenvolvimento interno, foi coisa menor nessa gesta expansionista, em que rapidamente passámos de líderes a últimos. Esses tempos deixaram-nos, como povo que as lideranças representam, o gosto de viver com mais do que aquilo que produzimos, pensando que estaremos, como no passado sempre acabámos por estar, garantidos pelos acasos da História. A independência das colónias ultramarinas, ocorrida nos anos setenta do século passado, na sequência do movimento do 25 de abril de 1974, confrontou Portugal, cinco séculos depois, novamente com a urgência de viver apenas do que produz aquele que foi o seu território inicial. E, convenhamos, o resultado não tem sido muito animador. 2 De tal modo que, de 1974 até aos dias de hoje, já por três vezes tivemos de recorrer, em aflição, à ajuda externa, com a ameaça da bancarrota a bater-nos à porta. Isto é quase uma ameaça de falência de Portugal por cada dez anos! E a causa foi sempre a mesma: as despesas do Estado Português superavam as suas receitas. Mas, apesar disso, não há modo de aprendermos com os erros e nos autocorrigirmos. Lembram-se de 2011? Da crise anunciada e sempre negada? Do que dizia o PS e o seu Primeiro Ministro da altura? A sua inconsciência e irresponsabilidade custaram muitos sacrifícios aos portugueses. A todos, mas principalmente aos mais fragilizados, que esses são sempre os primeiros a ser atingidos! 3 Foi nesse contexto que tivemos eleições regionais, em 2012. E também, em 2013, eleições autárquicas. Nelas, os Partidos reduziram ao mínimo as suas promessas eleitorais porque ninguém estava disponível para acreditar nelas. Lembram-se do que falavam os candidatos nessa altura? De cara séria e contrita anunciavam as suas preocupações sociais. A sua prioridade, em tempos difíceis, diziam eles, era para com os que mais sofriam a crise. Festas, sim, mas com o mínimo de gastos. Por isso, prometiam, que a aposta seria na chamada “prata da casa”. Lembram-se? Fogo de artifício? Não senhor. Suspenda-se. É queimar dinheiro, tão necessário para outros investimentos. Isto não foi há vinte, nem há dez anos. Foi há dois ou três anos! 4 E agora? Vejamos o exemplo das festas de Verão que pululam por esses Açores fora, quase todas vivendo em exclusivo do financiamento público. Onde está a contenção nos gastos? Onde está a apregoada aposta prioritária na “prata da casa”? Onde está a poupança nestes gastos para acudir à “emergência social”? Onde estão os políticos que diziam isso há dois, três e quatro anos? Agora o que fazem? Agora o que dizem? A emergência social terminou? O desemprego deixou de ser um flagelo nos Açores? A situação financeira de Portugal, da Região, das Autarquias, está radicalmente diferente? Estamos desafogados? A crise acabou? Não e não! 5 Mal a emergência afrouxou um pouco, mal a troyka atenuou o seu controlo, voltamos à vida antiga, à “política de transporte” que nos tornou veículos portadores de uma riqueza efémera e falsa, e dos vícios seculares que parece sermos incapazes de vencer. O verbo que, simbólica e significativamente, mais vezes se ouviu da maioria que atualmente governa Portugal foi “reverter”, isto é, voltar ao facilitismo de anteontem. Em vez de aprendermos com os erros, de arrepiar caminho, de mudarmos de vida, de procurarmos viver com o que temos e com o que somos capazes de produzir, queremos voltar à vida que nos levou, como País, ao abismo e à quase falência. Só uma gravíssima amnésia permite que, aos mais diversos níveis da governação, e transversalmente a todos os partidos, haja líderes e responsáveis que julguem que teremos condições para voltar aos excessos incontrolados do passado. Do governo da República aos Regionais. Das Câmaras às Juntas de Freguesia. Os exemplos não faltam! Decididamente não aprendemos nada com a nossa própria História! 08.08.2016

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