Aperfeiçoando as suas viagens aéreas da Europa para os Estados Unidos, a Lufthansa prosseguiu com os voos Horta/Nova Iorque/ Horta em Julho de 1938 utilizando três potentes hidroaviões: “Nordmeer”, “Nordmind” e “Nordstern” que seriam catapultados pelo “Schwabenland” no Faial e pelo “Friesenland” em Nova Iorque.
A ligação Lisboa/Horta/Lisboa esteve a cargo do já conhecido bimotor “Zephir” que, em 1936,realizara com sucesso o primeiro voo directo entre a capital faialense e aquela grande metrópole americana. Esta aeronave acabaria por realizar, entre 13 de Agosto e 1 de Outubro de 1938, oito voos naquele percurso.
Para dirigir as operações aeronáuticas, que decorreram de Julho a Outubro, esteve algum tempo na Horta o barão Freiher von Gablenz representante daquela companhia aérea, a qual, para facilitar as manobras dos seus hidroaviões procedeu à iluminação do paredão da doca, torres da igreja das Angústias, montes Queimado e da Guia e ponta da Espalamaca. Os horários eram idênticos aos do ano anterior, com saída do Faial aos domingos e chegada a Nova Iorque às segundas- feiras; partida desta cidade às terças e chegada ao Faial às quartas. Neste dia o “Zephir” saia para Lisboa de onde viera no domingo.
O primeiro voo de 1938 foi realizado pelo “Nordmeer” catapultado da Horta para Nova Iorque em 21 de Julho e de lá regressou no dia 26. Este hidroavião, que se manteve em actividade de Julho a Outubro somou, nos dois sentidos, 10 viagens. No dia 4 de Outubro deixou definitivamente o Faial rumando a Las Palmas a fim de substituir a aeronave da Lufthansa que desaparecera uns dias antes quando ligava aquela cidade das Canárias com a de Pernambuco, no Brasil.
O hidroavião “Nordmind” fez 12 voos na rota Horta/Nova Iorque/Horta. A sua viagem inaugural ocorreu à meia-noite de 24 de Julho e “para a manobra apareceu pela primeira vez toda a iluminação do aeroporto do Faial, feita nos montes da Guia, Queimado e estrada da Espalamaca, produzindo essa iluminação um belíssimo efeito”1 . Sempre comandado pelo capitão Von Engel, o “Nordwind” transportou, na viagem de 2 de Agosto entre Nova Iorque e o Faial, o escritor alemão Hans Bertram, também aviador, que estava quase no termo de uma volta ao mundo que durou 20 dias numa distância de cerca de 40 mil quilómetros. Aquele avião levá-lo-ia a Lisboa no dia 3 de Agosto e, na capital portuguesa, em entrevista ao “Diário de Notícias” – que os jornais faialenses se apressaram a divulgar – considerou a Horta como “a chave dos serviços aéreos regulares” porque “sem o Faial não seria possível ligar a Europa à América”2 . A última ligação transatlântica do “Nordmind” deu-se na madrugada de 20 de Outubro, três dias após a chegada de Nova Iorque, quando, catapultado pelo “Schwabenland”, seguiu directamente para Bremen, Alemanha.
O “Nordstern” efectuou apenas seis voos no percurso Horta/Nova Iorque/Horta, num período bastante curto em comparação com os outros dois hidros da Luthansa. Efectivamente, tendo amarado na baía da Horta a 7 de Setembro, faria a primeira viagem para Nova Iorque no dia 11 e a última daquela cidade para a Horta ocorreria a 19 de Outubro. Mesmo assim, caberia a ele o record do voo mais rápido: apenas 11 horas e 53 minutos. Quando comparamos este tempo com as 22 horas e 7 minutos, que foi o do primeiro voo comercial directo feito pelo “Zephir” em 9 de Setembro de 1936, temos de concluir que, em apenas dois anos, a Lufthansa havia realizado progressos assinaláveis nas suas viagens transatlânticas. Foi a última catapultagem do “Nordstern” realizada pelo vapor “Schwabenland” que os jornais faialenses relataram e que, hoje, à distância de 76 anos, é interessante recordar. Convidados pelo comandante do navio, “por intermédio do nosso amigo Max Corsépius” os repórteres são quase unânimes no relato do que se passou a bordo daquele vapor, pois só dele “se pode admirar o interessantíssimo espectáculo que nos impressiona pela certeza e precisão absolutas com que é realizado. Tudo ali é matemático, não havendo a diferença de segundos nos tempos previamente estabelecidos: vinte minutos antes da partida para verificar se tudo está bem; os aviadores, por meio de um telefone, comunicam com o engenheiro que num quadro verifica a força do vento e a pressão na catapulta, pois quanto menos vento maior deve ser a pressão desta”3 . O “Nordstern” estava sobre o carro que o conduziria até ao fim da catapulta de 40 metros de comprimento, servindo os últimos quatro de travão. Precisamente às vinte e duas horas “o avião percorre este espaço em segundo e meio, partindo do vapor à velocidade de 140Km/hora (…) por entre um barulho ensurdecedor, apavorante, a que não ficaram insensíveis quantos se encontravam a bordo”4 . Como era usual “encontrava-se acesa toda a iluminação que a Lufthansa mandara colocar na doca, montes Queimado e da Guia e na ponta da Espalamaca, dando-nos a impressão que a nossa cidade aumentara, espalhando-se pelos montes sobranceiros à sua esplêndida baía, que já está prestando valiosos serviços à aviação transatlântica e cuja importância aumentará consideravelmente com o início das viagens aéreas regulares, que, possivelmente, serão iniciadas no princípio do próximo ano”5 .
Tudo, na verdade, parecia indicar que muito em breve aquela companhia aérea concluiria a fase experimental passando às viagens regulares de transporte de correio e de passageiros. Assim o prenuncia o capitão Alfred Kottas, comandante do “Schwabenland”, na despedida que publica na imprensa faialense quando diz que tenciona “voltar para esta bela terra na Primavera e espera que possa fazer já o serviço de condução de mala (…)”6 . Não foi, porém, a Lufthansa a concretizar esse projecto, mas sim a Pan American Airways que, desde a viagem de Lindbergh (1933) e da amaragem na baía da Horta do “Clipper III (1937), paulatinamente vinha preparando esse feito que tornou realidade nos primeiros meses de 1939.
1Correio da Horta, 25 Julho 1938
2Idem, 4 Agosto 1938
3O Telegrafo, 17 Outubro 1938
4Correio da Horta, 18 Outubro 1938
5O Telégrafo, 17 Outubro 1938
6 Correio da Horta, 21 Outubro 1938












