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Retalhos da nossa história – 283 – Recordando o Duque de Ávila, estadista insigne e faialense distinto

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Falecido em Lisboa a 3 de Maio de 1881 – fez ontem precisamente 137 anos – o duque de Ávila e de Bolama, faialense de nascimento e estadista de mérito, é um dos nomes que mais ilustra esta nossa terra.
António José de Ávila, “o plebeu que um dia chegou a duque”, foi, segundo um dos seus contemporâneos, “uma lição para os filhos do povo”, um “exemplo vivo de que as portas do templo da fama lhes estão abertas logo que se aplicarem ao estudo, perseverarem no trabalho e se dedicarem com honradez a servir a pátria”.

Há já mais de 200 anos nascia na então vila Horta – precisamente no dia 8 de Março de 1807 – António José de Ávila, que viria a ser presidente de câmara, governador civil, deputado, par do reino, conselheiro de Estado, ministro e, por três vezes, presidente do Conselho. Personagem de grande vulto na história de Portugal do século XIX, António José de Ávila era filho de Manuel José de Ávila, modesto negociante faialense e administrador dos dízimos locais, e de sua mulher, D. Prudenciana Joaquina Cândida da Costa.
Feitos os primeiros estudos, foi ele para Coimbra, tendo ingressado na respectiva Universidade em 1822 e recebido o grau de bacharel em filosofia em 1826. Regressou à Horta, foi professor e iniciou-se em cargos políticos em 1831 quando assumiu a presidência da Câmara Municipal.
É nessas funções que se relaciona com a regência liberal de D. Pedro IV, de quem virá a obter, na cidade do Porto, o decreto de 4 de Julho de 1833 que determina a elevação da vila da Horta a cidade. Eleito deputado, pela primeira vez, em 1834, Ávila iria participar de forma activa e ininterrupta durante 47 anos – até à sua morte em 1881 – na vida política portuguesa, quer como parlamentar, quer como governante, quer ainda como membro da Câmara dos Pares, de que seria presidente desde Outubro de 1872 até Maio de 1881. Foi, na opinião de José Miguel Sardica, o seu biógrafo mais competente, “um dos mais distintos parlamentares da história do constitucionalismo português”. Na verdade, nas onze legislaturas em que participou – durante 27 anos, ou seja, entre 1834 e 1861 – “desempenhou funções em mais de 30 comissões parlamentares na Câmara dos Deputados”1 e em cerca de 40 comissões na Câmara dos Pares, nos 20 anos em que dela fez parte, isto de 1861 a 1881. Num cômputo geral, terá produzido mais de duas mil e duzentas intervenções! Representou no Parlamento as populações dos mais diversos círculos eleitorais, especialmente as de Horta, Évora, Beja, Estremadura, Beira Alta, Chaves, Vila Real e Oliveira de Azeméis que, sucessivamente o sufragaram para esse efeito.
Orador excelente, trabalhador infatigável e político astuto e esclarecido, por variadíssimas ocasiões o deputado António José de Ávila foi chamado ao desempenho de funções governativas. A sua estreia deu-se em 1841, no cargo de Ministro da Fazenda do Gabinete de Joaquim António de Aguiar. Contava na altura apenas 34 anos de idade. A partir daí, a sua carreira dividir-se-ia pelos órgãos legislativo e executivo, tendo exercido também importantes funções diplomáticas (de que o mais brilhante exemplo é a maneira satisfatória como fez valer os direitos de Portugal à ilha de Bolama) e de administrador de empresas e de bancos (Companhia das Lezírias, Companhia do Crédito Predial, Banco Hipotecário e Banco de Portugal). Depois da sua estreia no Governo, veio a ser ministro, por diversas vezes, das seguintes pastas: da Fazenda, da Justiça, dos Negócios Estrangeiros, do Reino, e das Obras Públicas. Em 10 governos diferentes, entre 1841 e 1878, sobraçou 19 pastas ministeriais. Acima disso, foi em três ocasiões Primeiro-Ministro de Portugal: 1868, 1870 e 1877.
É, obviamente, impossível o registo dos múltiplos e destacados cargos políticos, diplomáticos, científicos e de gestão desempenhados por António José de Ávila, no decurso de uma longa e rica carreira, feita sobretudo de trabalho, estudo e dedicação. Ao longo de toda a sua vida nunca renegou as suas origens plebeias – tão injustamente ridicularizadas por Antero de Quental como reacção à proibição decretada por Ávila das Conferências do Casino, em 1871 – nem se esqueceu da sua terra e dos seus amigos e patrícios. Constata-se isso, lendo as muitas cartas que de cá lhe enviavam, solicitando os seus empenhos para a resolução de pretensões pessoais e colectivas, ou percorrendo as actas de organismos de administração local (v.g. Câmara Municipal da Horta) ou de solidariedade social (v.g. Santa Casa da Misericórdia da Horta).
E o modo satisfatório como respondia aos pedidos que lhe faziam encontra-se testemunhado nos agradecimentos que constam dos seus arquivos pessoais (que hoje se encontram na Torre do Tombo e no Arquivo da Horta) e na toponímia da nossa cidade, que à semelhança de muitos centros urbanos do País – de que é maior exemplo a Avenida Duque de Ávila existente, desde 1902, em Lisboa – preserva publicamente a sua gratidão, quer seja na estátua que se ergue ali no antigo largo da Matriz, quer seja na rua “Ministro Ávila” ou ainda no “Largo Duque de Ávila e Bolama” e na “Escola Básica Integrada António José de Ávila”.
Ele foi, a par do Presidente Manuel de Arriaga, um dilecto filho do Faial, o “plebeu que um dia chegou a duque” e que, na perspicaz visão de J. M. Sardica, “tendo vindo de tão baixo, desprovido de apelido, fortuna ou especial favor régio, soube tornar-se uma personagem única do constitucionalismo monárquico português”, pois, “pelas suas mãos passou boa parte da história do Portugal do Oitocentos”2.

 

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

 

1José Miguel Sardica, biografia de“Ávila, António José de (1807-1881, 1.º conde de Ávila e 1.º marquês e 1.º duque de Ávila e Bolama”, in “Dicionário Biográfico Parlamentar”, coordenação de Maria Filomena Mónica, Lisboa, 2004, vol. I, p. 236
2José Miguel Sardica, “Perfil político do duque de Ávila e Bolama”, Análise Social, Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, volume XXXVI, número 160, 2001, p. 684

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