Início Artigos de opinião Fernando Faria Retalhos da nossa história – CXXII -Governador Guilherme Read Cabral

Retalhos da nossa história – CXXII -Governador Guilherme Read Cabral

0
83

Com a exoneração do Dr. Arriaga Nunes em 10 de Março de 1893, a chefia do distrito da Horta esteve durante alguns meses a cargo do governador substituto, Visconde de Sant’Ana. Este cessou funções a 28 de Setembro quando chegou ao Faial o novo titular, comendador Guilherme Read Cabral, que havia sido nomeado por decreto de 14 desse mês pelo Gabinete presidido pelo regenerador Hintze Ribeiro e onde era peça fundamental o ministro do Reino, João Franco. 

A generalidade da imprensa faialense, ao relatar a chegada de Read Cabral – “empregado das alfândegas, servindo ultimamente de director da alfândega do Funchal” e “distinto escritor e poeta”  – tratava-o com simpatia, dele esperando “uma administração que mais ilustre a reputação do seu nome e satisfaça as necessidades do distrito na crise grave porque está passando” . 

 Essa crise grave, ocasionada pelo violento ciclone de 28 de Agosto de 1893 que arrasou culturas, destruindo as searas de trigo e milho e provocando rupturas no abastecimento das populações, sobretudo das classes mais pobres, acabaria por ser o detonador que iria provocar a demissão do governador três meses depois da posse.  

Na verdade, ele teve não só de providenciar a urgente e constante importação de milhares de sacas de milho – em especial dos Estados Unidos da América – como de lidar com o egoísmo e ganância dos negociantes e com Câmaras e Juntas de Paróquia de maioria progressista que discordavam das suas instruções relativas aos preços de venda e critérios de distribuição do cereal importado. 

Essas frequentes e públicas discordâncias eram potenciadas pelos jornais próximos do partido progressista que, já no mês seguinte à sua chegada, o atacavam de forma sistemática e impiedosa. Mesmo sem considerarmos O Atlântico – jornal daquela facção política – vemos que tanto O Telégrafo como O Açoriano, condenavam a acção de Read Cabral que, apesar de haver constituído uma comissão de “conspícuos cidadãos” que “ao lado do governador possa prestar-lhe o seu valioso e esclarecido auxílio acerca da quantidade de milho que seja necessário importar livre de direitos para minorar a crise alimentícia, sua distribuição e mais efeitos, assim como aconselhar-lhe a mais justa e equitativa aplicação dos donativos já existentes e dos que ainda se esperam obter” , não conseguia acalmar os ânimos exaltados dos que se lhe opunham. E o certo é que se sucediam as polémicas sobre a famigerada questão dos milhos, com notícias e comentários nada abonatórios para o governador civil. Assim, de Outubro a Dezembro, são vários os artigos insertos naqueles dois jornais que verberam a conduta do mais alto magistrado distrital, condenando “o arbítrio do governador”, alvo de “justos clamores, porque diante da fome caem por terra todas as leis e considerações imagináveis”, não tendo ele procedido “como era de esperar da sua elevada competência” . A não ser um artigo de Marcelino Lima e outro subscrito por X , esses comentários não estão assinados e os ataques a ele dirigidos vão num crescendo que atinge o máximo em fins de Dezembro quando, sistematicamente, se exige a sua demissão.

Com a questão do milho sempre em pano de fundo, é claro que em Dezembro – depois de no dia 7 ter sido publicado o decreto da dissolução da Câmara dos Deputados e da parte electiva da Câmara dos Pares e marcado o acto eleitoral para 7 de Março seguinte –  o que estava mais em causa era a preparação das eleições, com os progressistas locais em manifesta vantagem sobre os divididos e enfraquecidos regeneradores, sem liderança capaz e com um governador civil cada dia mais acossado pelos adversários. Este excerto do artigo intitulado Já não pode ser, do jornal O Telégrafo de 20 de Dezembro, dá uma ideia do que se passava: “O sr. governador civil que tão preocupado se mostrava com as subsistências públicas, lá continua no triste fadário de levantar estorvos à distribuição do milho (…) Depois de esgotar a paciência da Câmara [que era de maioria progressista] e dos beneméritos empenhados em debelar a crise alimentícia, acabará por esgotar a paciência dos povos do distrito. Que Deus ilumine o sr. governador e o afaste da maldita praga de adoidados e ambiciosos que lhe tem alheado a simpatia e a amizade dos homens sensatos e bem intencionados”. E, quatro dias volvidos, O Açoriano publicava o artigo de fundo Assombroso de extrema violência contra “o sr. governador civil [que] veio para este distrito numa das épocas mais angustiosas que tem tido as ilhas que o compõem, pelos efeitos do medonho ciclone de 28 de Agosto” e “nesta terra tem parentes e amigos; tudo isto aliado aos preceitos das leis que lhe confiam a manutenção da ordem pública, nunca o chefe do distrito, fosse porque fosse, deveria levar à execução tantos factos difíceis já de enumerar em desrespeito dos cavalheiros, da ordem pública e da lei; tanto mais que a sua idade de velho, não está para conquistas guerreiras com rapazes”. Por isso, “o sr. governador civil tornou-se incompatível pelos seus actos, para continuar a estar à frente do distrito. A autoridade pública que tem procedido como s. ex.ª tem apenas um caminho a seguir: demita-se!” 

Como, porém, ele não se demitia, havia que forçá-lo a isso, nem que fosse à bomba! Foi o que fizeram logo no dia daquela duríssima diatribe, quando, pelas 21 horas e trinta minutos, “estoirou uma bomba de pólvora” no saguão da casa onde morava (à rua do Colégio n.º 7) que causou alguns estragos, “tais como portas fendidas e vidros partidos”. Numa terra pacata como o Faial, tão gravíssimo acto que não tinha precedentes, “causou sensação”. Chamado o administrador do concelho, este logo ordenou, após investigação sumária, a “detenção de alguns indivíduos que, casualmente, se achavam na redacção do Açoriano”. A descrição deste acontecimento, feita nos dias imediatos pelo jornal O Telégrafo, não deixa de ser curiosa e de revelar até que ponto ia o maquiavelismo da elite política faialense. Assim, ao mesmo tempo que noticia as buscas para descobrir “o herói da bomba, que merece todo o rigor da justiça”, e que “imputa o crime aos adversários políticos do sr. Read Cabral”, vai desmontando esta hipótese – até porque o governador “é um homem cansado, está na idade em que o bordão é um auxílio e as contas um recurso… talvez uma bomba o levasse a pedir a sua exoneração” – e insinuando que o partido progressista, por “estar por cima e ter certa a vitória na próxima eleição” não desceria “a acções indignas” e comprometedoras! Afastada, portanto, esta hipótese, o jornal avança outra que, “embora à primeira vista pareça disparatada, reflectindo bem é muito mais aceitável que a primeira”, ou seja, “para nós é, pois, ponto de honra que a bomba foi lançada pela mão dalgum dos próprios correligionários do sr. Read, negra mão que podia ter causado mortes”.  Um dia após a publicação desta perfídia, o mesmo jornal informava placidamente que, “mais cedo do que se esperava” se descobrira “os autores da bomba” que, afinal, “não partiu donde se supunha”, antes fora obra de “três rapazolas sem ideias políticas, incapazes de dirigir o menor insulto seja a quem for” e que apenas tinham por objectivo “fazer uma troça, causar um susto, não tendo qualquer intenção criminosa”, pelo que “devemos ser benignos para com eles” . 

Esta hipocrisia sem limites, fruto de uma perversa ambição pelo poder, estampada num pasquim local no dia 27 de Dezembro, teria como resultado imediato a demissão do governador, precisamente a 4 de Janeiro de 1894! Só depois dela é que a imprensa – que tenazmente o combateu – achou conveniente divulgar uma “Proclamação aos Habitantes do Distrito da Horta” por ele redigida com o objectivo declarado de justificar os actos que tivera de praticar relativamente à questão dos milhos e de denunciar “uma imprensa facciosamente política, por um lado, e, por outro, os emissários espalhados por todas as freguesias do Faial e Pico, fazendo contra [si] uma campanha insidiosa e pérfida”  que acabaria por levá-lo à demissão. Documento extenso, não é possível fazer aqui a sua apreciação, nem sequer estabelecer sobre ele um qualquer juízo de valor. Mas, comparando-o com os ataques que lhe fez a opinião publicada, não ficam dúvidas de que eram grandes as negociatas feitas com a importação e venda de cereais para atenuar as crises alimentícias, delas decorrendo uma encarniçada luta pelo poder que, uma vez obtido, permitia autorizar discricionariamente quem podia importar e a que preço podia vender o produto importado. Esta luta, que era muito mais interesseira do que ideológica, marcou profundamente a década de noventa do século XIX e contribuiu fortemente, a nível distrital, para o descrédito das instituições políticas e esteve na origem de pírricas vitórias eleitorais e de súbitas mudanças partidárias.

O governador Guilherme Read Cabral, que já anteriormente estivera no Faial em serviço na alfândega e que no seu livro Glórias e Primores de Portugal exaltara as nossas maravilhas naturais, em especial as do Capelo – cuja “beleza selvática não se imagina”, pelo que “ir à Horta e não visitar o Capelo, é o mesmo que ir a Lisboa e não ir a Sintra” – devia sentir-se bastante amargurado quando, em meados de Janeiro de 1894, deixou definitivamente a Horta regressando a Ponta Delgada onde reassumiu o cargo de director da Alfândega e onde faleceu a 18 de Junho de 1897. 

Contava 76 anos de idade, pois nascera em 1821 na cidade de Portsmouth, Inglaterra, tendo vindo ainda criança para Ponta Delgada na companhia da mãe Luísa Mitchlel e do pai John Read, irmão do cônsul britânico, William Harding Read, que o educou devido à morte daquele. Tornou-se cidadão português e adoptou o apelido Cabral de seu cunhado, António Bernardo da Costa Cabral, mais tarde famoso presidente do Ministério e Marquês de Tomar. Read Cabral casou, na igreja de São José de Ponta Delgada, a 16 de Janeiro de 1856, com Maria Isabel Leite Pacheco de Bettencourt, foi funcionário público – exerceu o cargo de director das alfândegas do Funchal, da Horta e de Ponta Delgada – foi jornalista e escritor, tendo deixado várias obras, designadamente Glórias e Primores de Portugal, O Contrabandista, Cristóvão Colombo, Um Novo Mundo, No interior da terra e nas profundezas do mar, Uma herança abençoada, Em pleno Atlântico, Ângela de Santa Clara e Compêndio de legislação fiscal. Possuía a comenda da Ordem de Cristo e tinha o hábito de cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada que lhe dava honras militares. 

 

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor coloque o seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!