Bolsa a estudantes faialenses no ramo da cozinha – Uma dor convertida em altruísmo

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Dizem que não há maior dor que pais perderem um filho. Em 2014 Maria Marks sentiu na pele isso mesmo. Inesperadamente, Brian Rebello, um cozinheiro com avós faialenses,
deixou para trás um legado de generosidade, carinho e bom trato.
A família decidiu que a melhor forma de honrar a sua memória
era atribuir uma bolsa a estudantes faialenses no ramo da cozinha.
Este ano a bolsa foi atribuída pela primeira vez. Entre uma amálgama de emoções fortes faz-se jus a alguém muito amado e ajuda-se o futuro de outro alguém.

Desde a descoberta e manuseamento do fogo, há um milhão de anos, que os homens procuraram as mais diversas formas de aplicar o elemento para seu proveito. É difícil imaginar o quão complexo foi evoluir, aprender a condimentar e utilizar diversas técnicas de cozinha, isto aliado a desenvolvimento cognitivo, melhorias de organização social, transição de coletores para sedentários.
As evidências da culinária e da gastronomia serem fatores de agregação social datam de 2000 a.C, na Mesopotâmia. De lá para cá pouco haverá de semelhante, a não ser o prazer de comer, comer bem, e o estarmos reunidos com os nosso pares.
Nos dias que correm há quem considere cozinhar uma arte. Não as fotografias que se tiram aos pratos, sim o saber misturar sabores, texturas e cheiros. Brian Rebello era um dos dotados desse talento.
Foi em Fairhaven, Massa-chusetts, que nasceu Brian Rebello, neto de avós maternos faialenses e paternos continentais. A vida de Brian e a cozinha cruzaram-se após terminar o ensino secundário. Ainda frequentou o ensino superior mas há coisas que não estão destinadas. O mundo dos sabores chamou mais alto e começou a trabalhar, a aprender e aprimorar uma aptidão natural. O jeito para a cozinha é de família, a tia e a mãe confirmam isso mesmo. Como bons portugueses, celebrando ou não festividades, havia sempre espaço para pernas de borrego, rosbife e pratos típicos.
A cozinha tornou-se o seu habitat natural assim que descoberta a vocação. Passou pelo Amigos Del Norte,em Burlington; The Blue Room, em Cambridge, onde trabalhou com Steve Johnson; no Back Eddy, em Westport, junto do conceituado Chris Schlesinger; e no Chez Henri, também em Cambridge, com o chef Paul O’Connel. No entanto o Faial chamava por si. Enquanto criança e adolescente passava o verão na ilha com os avós. Quando herdou a casa deles começou a passar mais tempo no meio do Atlântico.
A sua mãe recorda que em 2012 e 2013 “veio dois meses de cada vez, trabalhou na casa e começou a investigar as possibilidades de abrir aqui um restaurante”. À época a oferta era parca e as facilidades para construção do restaurante limitadas, dada a exiguidade do edifício primeiramente pensado. Antes de voltar aos Estados Unidos da América (EUA), Rebello “tinha visto uma casa na cidade, bem maior, e queria começar algo. Voltou aos EUA pensando demitir-se e voltar cá para levar a coisa a sério. Infelizmente não aconteceu assim”, relata Maria Celeste Marks.
De forma completamente inesperada o chef faleceu aos 40 anos, corria o ano de 2014. Por aí se ficou um sonho. A mãe recorda que atrás do fogão cozinhava de tudo, mas o Chef B tinha queda especial para “as suas carnes”, como os Ribba Steaks, as sandes Cubanas e os molhos.
Através dos esforços desenvolvidos pela tia e madrinha de Brian, Alda Petitti, a família contactou a Fundação Faialense (FF) para criar uma bolsa para estudantes de culinária nascidos no Faial. Foi a forma que encontraram para homenagear a pessoa, a memória e a paixão de alguém “generoso e gentil”.
O processo de instituição do apoio “levou algum tempo”, conta Petitti, “cerca de três anos a concluir o processo, que teve de ser votado na Fundação” e devidamente enquadrado. A FF atribui todos os anos bolsas de estudo (ver caixa) mas não havia histórico de se atribuir a uma área específica. Este ano, a bolsa em nome de Brian Rebello foi instituída e Cátia Abrantes tornou-se a primeira faialense beneficiária.
A concretização desta bolsa foi para Maria Marks um sentimento “agridoce” já que “trouxe tudo à memória”. Ainda assim é hoje uma mulher feliz por poder ajudar alguém “a fazer do sonho realidade, para um jovem é fantástico e recompensador”. Ele iria adorar esta ideia, a mãe não duvida e até sabe o que diria: “Ma’, I’m all over this”.
“Com sorte algum jovem pode ouvir falar desta bolsa, não ter pensado no caminho da cozinha e agora ficar com a curiosidade de enveredar por aqui”, espera a mãe de Brian certa do ser um ramo que se tornou “enorme” em todo o mundo.

Cátia Abrantes: “é muito gratificante ver que há pessoas que valorizam o nosso trabalho”

É na Escola de Hotelaria do Estoril que Cátia Abrantes se encontra a estudar cozinha. Aos 20, acabada de terminar o primeiro ano de curso, está agora pelo Pico a estagiar no Fonte Tavern.
Fica para a história da família e da FF como a primeira beneficiária deste apoio. “Foi uma grande ajuda e acima de tudo uma grande honra poder ter conhecido a história de Brian e ter direito a esta ajuda para seguir os meus sonhos, como ele fez até ao seu último dia”, diz a faialense grata por ver a atenção dada a uma profissão que crê ser “um pouco desvalorizada”. “É muito gratificante ver que há pessoas que valorizam o nosso trabalho”, remata.
Apesar de desde sempre lhe ter sido dada liberdade de ajudar a mãe na cozinha estava “longe de pensar” que um dia caminharia para chef. A ideia era ser veterinária, mas no fim do Secundário, entre médias, ficar um ano em melhorias ou não, seguir enfermagem ou a vida militar, nada a estava a “satisfazer, nem estava a sentir que era o que gostaria de fazer o resto da minha vida”.
Foi nas redes socias que viu abertas inscrições para o curso de cozinha no Estoril e começar a pensar seriamente e investigar. A influência “de alguém muito especial” também do ramo e faialense foi construindo na mente de Cátia a “certeza de que queria mesmo arriscar e seguir esta profissão”.
“Arrisquei e candidatei-me. Fui para o Estoril começar uma nova etapa na minha vida e a realidade é que me apaixonei pelo curso e por esta profissão”, conta a jovem confiante da sua escolha acertada.
Este verão está a completar um estágio curricular junto do chef Olavo Pereira, e a satisfação é evidente. “É um grande chef dos novos tempos, com ideias inovadoras e muita vontade de levar os produtos regionais, no-meadamente os do Pico, mais além”, constata Cátia que já sonha com viagens pela Índia e pela América Central após terminar o curso.
A cultura e a cozinha dos outros pontos do mundo podem servir de inspiração para “um dia quando tiver possibilidades económicas e bastante conhecimento, re-gressar às minhas origens e investir nas nossas ilhas que tem muitíssimo potencial a nível gastronómico”.
Num mundo tendencialmente dominado pelo sexo masculino, Abrantes confia que o seu trabalho e amor pela cozinha serão suficientes para combater qualquer discriminação ou preconceito que possam surgir.
Àqueles que anseiam seguir uma vida dedicada à culinária e à cozinha diz “basta querer”, mas devem “ter noção que temos de investir muito do nosso tempo”.
Das coisas que mais lhe agradam é sentir ser “uma profissão em que só se estagna se o permitirem” pois “incrível é uma constante aprendizagem é incrível perceber que com pouco podes coisas incríveis”.
A receita que deixa é simples: gosto, imaginação, vontade e amor pela comida e confeção da mesma.

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