Brexit?Um novo desafio para a Europa

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O aumento do euroceticismo reside na dúvida suscitada quanto às eventuais vantagens e desvantagens dos nacionalismos face às economias partilhadas e à livre circulação de pessoas, bens e serviços. Contudo, creio que ninguém discordará que esta não será uma mera questão factual, mas que também se encontra intimamente relacionada com questões de perceção, as quais, por sua vez, são condicionadas por fenómenos de distorção da realidade, dos quais destaco a europeização dos problemas e a nacionalização das virtudes de pertença a este espaço partilhado, evocando Durão Barroso. Esta tendência generalizada tem como efeito a potenciação do desconhecimento geral dos cidadãos europeus dos proveitos mais diretos da pertença à União (que convém não descurarmos numa sociedade cada vez mais fundada no acesso imediatista à informação), estando já muito distante a perceção do papel pacificador que presidiu à constituição da União e que urge continuar não apenas a evocar como a nutrir.
Mas o sentido crítico dos cidadãos vai muito além do mero conflito entre os nacionalismos e os europeísmos. Reside num descontentamento generalizado. Tem fundamento na dificuldade recente, que é simultaneamente da responsabilidade da União Europeia e dos seus Estados-Membros, de acrescentarem valor e riqueza às suas economias e aos seus cidadãos. Temos, de forma genérica, assumido uma postura mais recativa do que proactiva na resolução dos problemas, quer à escala Europeia, quer nacional. Se à escala Europeia não temos vindo a ser capazes de prever crises, de que constituem exemplo a crise financeira de 2008, a crise agrícola desde finais de 2014 (com especial enfoque nos sectores do leite e da carne de suíno) e a recente crise migratória, a nível nacional são, igualmente, comuns fenómenos de dependência europeia que não só constituem um obstáculo ao desenvolvimento, como acicatam discussões em torno dos contribuintes e dos recetores líquidos, o que, por sua vez, contribui para o aumento da dissensão Europeia.
Com a devida ressalva de que escrevo esta crónica a poucas horas do referendo sobre um possível BREXIT, considero que estamos perante uma verdadeira trapalhada. Seja qual for a decisão dos cidadãos do Reino Unido, que é soberana, o cenário é de crise. Se o Reino Unido abandonar a UE, enfrentará, certamente, uma acentuada crise económica (basta atentarmos aos inúmeros planos de deslocalização de empresas que operam no Reino Unido), que afetará também a Europa (ainda que em menor grau) e comprometerá, uma vez mais, a confiança dos Europeus. Se a decisão dos Britânicos for a da permanência, estaremos perante uma crise de valores fundada num acentuar da desarmonia europeia. A cedência do Conselho que permite a não concessão de benefícios e apoios sociais aos imigrantes europeus põe em causa os mais fundamentais princípios da União. Neste cenário, instalar-se-á uma maior crise de valores e não tenho dúvida de que outros Estados-Membros ambicionarão um estatuto semelhante, o que poderá conduzir-nos à replicação de fenómenos de desagregação.
Seja qual for o cenário, teremos de ser capazes de sarar as profundas feridas que permanecerão. Com mais Europa. Uma Europa com maior justiça social e que realmente se traduza numa mais-valia para os seus cidadãos, com retorno simultaneamente a nível social e económico. A quebra deste ciclo requer uma efetiva (não apenas processual) aposta no crescimento, que não subsiste nas suas múltiplas dimensões sem um efetivo reforço da coesão social, nem sem a defesa de investimentos sustentados e reprodutivos.

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