Caberá ao “advogado” Graça a introdução da tipografia no Faial?

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 Retalhos da nossa história – CVI

Ninguém pode negar que tenha sido João José da Graça Júnior o introdutor da imprensa no Faial. A publicação de O Incentivo, o primeiro jornal que se editou na Horta em 10 de Janeiro de 1857 e que era impresso na “Tipografia de J.J. da Graça Jr”, situada na rua do Colégio n.º 2, é um facto incontestável.

O que já nos parece discutível, à luz da documentação que se vai encontrando, é a afirmação de Silveira Macedo quando, na sua celebrada História das Quatro Ilhas, escreve que o “ano de 1857 marcou uma página importante nos fastos faialenses com o estabelecimento das duas primeiras tipografias na cidade da Horta, começando uma a funcionar no princípio de Janeiro coma publicação de um periódico semanal – O Incentivo – e a outra em Abril com a publicação de um outro também semanal intitulado – O Fayalense – de que era redactor o dr. Miguel Street de Arriaga, o qual ainda continua”[1]. Discute-se apenas a expressão “duas primeiras tipografias”, porque um texto, que recentemente encontrámos, nos sugere que a primeira tipografia existiu no Faial desde 1854, isto é, três anos da de João José da Graça. Diz o seguinte:

ANÚNCIO: Tendo chegado uma tipografia para serviço do Governo Civil e mais Repartições do Estado, e tornando-se preciso haver um compositor e impressor. Convida-se a quem esteja habilitado, que sendo do País será preferido, se apresente no Governo Civil até ao fim do corrente [mês] de Março, onde lhe serão presentes as condições de contrato. Outrossim se faz público que na mesma tipografia se receberão quaisquer encomendas e os preços serão anunciados, sendo o seu rendimento, pagas as despesas da tipografia, aplicado aos emolumentos dos empregados do Governo Civil e empregados tipográficos como é prática em todos os Governos Civis.

Não se recebe, porém, a impressão de jornal político, seja qual for a forma porque se possa apresentar, e mesmo porque a tipografia não se acha habilitada para satisfazer a semelhantes trabalhos. / Secretaria do Governo Civil da Horta, 15 de Março de 1854. / O Secretário-Geral, Miguel Street de Arriaga.[2]

Se era o secretário-geral quem subscrevia este curioso Anúncio, importa lembrar que o fazia em obediência às ordens do governador Luís Teixeira de Sampaio Júnior. Este magistrado, que esteve à frente dos destinos do distrito da Horta de 1852 a 1857 era filho primogénito de Luís Teixeira de Sampaio, 1.º visconde do Cartaxo, rico proprietário e capitalista e de Emília Le Couvreur Ferreira de Campos, também pertencente a uma abastada estirpe de negociantes. Quando assumiu o Governo Civil da Horta, Sampaio Júnior tinha 37 anos e, como escreve Roxana Dabney, provinha de “uma família bem conhecida na sociedade lisboeta” era “um homem capaz, mas desprovido de princípios”, que “tinha uma grande mania de escrever e exprimia-se invulgarmente bem”[3]. Antes de se instalar na Horta, publicara já vários artigos em jornais de Lisboa e, apesar de sua confessada e familiar amizade pelos Dabney, não hesitou em inserir, em começos de 1853, no Açoriano Oriental, de Ponta Delgada, uma série de artigos onde, de forma extremamente violenta e contundente, acusava Charles William Dabney de “Monopolista” e “Usurário”, obrigando este a responder-lhe no mesmo semanário, para rebater as calúnias de que se considerava injustamente acusado. Seja como for, o governador Sampaio, a viver num distrito onde ainda não havia imprensa, tinha não só absoluta necessidade de escrever, mas também de comunicar com os seus administrados. Pelos documentos que compulsámos – livros do Governo Civil, de Vereações e de Registos da Câmara Municipal – são frequentes os “Anúncios”, as “Notícias” e as “Proclamações aos habitantes do Distrito” que redigia e mandava afixar nos lugares de estilo! Esses documentos revelam ainda uma personalidade interventiva, certamente competente mas, sem dúvida, exagerada e prepotente. Terá sido essa necessidade de escrever e de divulgar as suas ideias e realizações que pode estar na origem da aquisição da tipografia pelo Governo Civil e, consequentemente, do ANÚNCIO com o fim de contratar um compositor e impressor para com ela trabalhar. É, no entanto, bastante plausível que a dita tipografia não haja produzido grande coisa, até porque o ministro e secretário de Estado dos Negócios do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães, comunicava ao governador Sampaio Júnior, em ofício de 23 de Agosto de 1854, que “não cabe nas faculdades do Governo Civil dispor tipografia sem ordem do Governo”[4]. Não sabemos se foi pedida autorização e, no caso de o ter sido, se foi concedida; desconhecemos também qual o destino dessa tipografia que, mesmo sem ordem do Governo, já estava no Faial. Pode ser que no vasto acervo do Governo Civil da Horta se possa encontrar a resposta para esta questão.

Entretanto, não será de colocar como mera hipótese que a tipografia de “J.J. da Graça Jr”, que em 10 de Janeiro de 1857 editou o primeiro número do Incentivo, seja a que o governador Sampaio instalara no Governo Civil?

É que se os historiadores contemporâneos de Graça Jr. são unânimes na afirmação de que ele foi aos Estados Unidos em Maio de 1856 a fim de adquirir um prelo e que este chegando ao Faial não pôde ser utilizado, já são menos precisos quanto ao material tipográfico que efectivamente utilizou na feitura do seu primeiro jornal. Assim, enquanto Ernesto Rebelo (1842-1890) diz que ele conseguiu arranjar “um segundo prelo não sabemos de que fábrica”[5], Marcelino Lima (1868-1961) adianta que Graça Jr. “tratou de arranjar um segundo prelo” que “veio também da América (de Boston) mas desta vez em melhor comandita, porque auxiliado pelo governador civil do distrito, Luís Teixeira de Sampaio”[6]. Uma vez que Ernesto Rebelo – que foi aluno de João José da Graça – desconhece a proveniência do segundo prelo e que Marcelino Lima não cita a fonte em que baseia a sua informação, não será insensato pensar que a ajuda do governador Sampaio Jr. poderá ter sido a cedência da tipografia que desde Março de 1854 ainda deveria existir no Governo Civil. Mais ainda: em 1 de Abril de 1857 – portanto três meses após a aparição de O Incentivo – surge O Fayalense de que era proprietário e director o dr. Miguel Street de Arriaga, secretário-geral do Governo Civil da Horta de que era titular Luís Teixeira de Sampaio Jr, sendo aquele semanário também impresso na mesma tipografia de “J.J. da Graça Jr.”

Não terá sido o governador Sampaio Jr. o verdadeiro mecenas e protector do “advogado” Graça?


[1] Macedo, A.L. Silveira – História das Quatro Ilhas, vol. II, p. 235

[2] AGCH, Livro n.º 65, fl. 34-v. Actualizei a grafia deste documento

[3] Dabney, Roxana – Os Anais da Família Dabney no Faial, vol. II, pp. 195 e 217

[4] Araújo, Valente – O resgatar de uma memória, p. 207

[5] Rebelo, Ernesto – Arquivo dos Açores, vol. IX, p. 20

[6] Lima, Marcelino – Anais do Município da Horta, p. 536

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