A RTP Açores e o futuro da Autonomia

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Não posso deixar de voltar a este assunto, porque me parece que a memória dos mais idosos está a enfraquecer e a dos mais jovens não alberga o quadro político-institucional em que nasceu e cresceu a RTP Açores.

Éramos ainda ilhas isoladas, isolamento que a RTP Açores veio quebrar, com o trabalho notável dos seus pioneiros; o advento da RTP Açores consolidou nos habitantes dos Açores não apenas o conceito de Região e a sua unidade, mostrando os elementos comuns às ilhas mas também veio garantir-lhes a certeza de que estavam num mundo onde tudo se passava rapidamente e não com a lentidão com que jornais, revistas e livros chegavam aos Açores.

O caminho foi espinhoso, mas muito gratificante. De um início quase sem equipamentos mas com grande entusiasmo e uma imensa vontade de fazer bem (e fez-se muito bem!) passou-se à fase da profissionalização, com formação conceituada, equipamento adequado, instalações apropriadas.

Se é certo que a RTP Açores teve uma evolução magnífica nos seus primeiros anos, sob a direcção do Dr. Lopes de Araújo conheceu tempos prodigiosos, ligando os Açores à sua diáspora e estabelecendo pontes em tempo inimaginável até então.

A informação cobriu as nove ilhas dos Açores e os directos mostravam sempre onde estava a notícia e como era o acontecimento, divulgando as nossas especificidades e cumprindo um inestimável serviço público ao longo dos seus 36 anos de existência.

Este crescendo da RTP Açores nos últimos anos foi declinando, apesar do esforço e da dedicação dos seus responsáveis e dos seus trabalhadores.

Agora o declínio transforma-se em asfixia se o Governo da República prosseguir num caminho “de janela”, em que as nossas razões idiossincráticas e geográficas e os nossos direitos de comandar a emissão, que é como quem diz, preservar a nossa autonomia, ficarão, pouco a pouco, subjugados a quem não sente a realidade açoriana e, portanto, não pode prestar o referido serviço público.

Esta luta, que é de todos nós, faz lembrar de algum modo, os fundamentos dos primeiros autonomistas do fim do século XIX. Sem querer afirmar que regredimos tanto, sublinho que nunca, nestes 36 anos, se pensou tão mal a televisão pública e se tratou tão descuidadamente uma construção simbiótica de soberania e autonomia cuja derrocada, se acontecer, irá arrastar muito mais do que é visível neste momento.

A Câmara Municipal da Horta estabeleceu no passado ano de 2010 um protocolo com a RTP, fazendo uma cedência de instalações para a Delegação do Faial da RTP Açores, compromisso que não foi denunciado e, portanto, está em vigor e revela-se mais actual do que nunca, pela urgência das necessidades televisivas e radiofónicas dos nossos dias.

Como se compreende que, neste contexto, a RTP emudeça acerca dos seus compromissos e o Governo esqueça toda a história para configurar uma autonomia restrita e restritiva de quatro horas diárias?

Ainda estamos a tempo de demonstrar a razão que nos assiste, a legalidade que nos cobre e a justeza da inquestionável e indeclinável responsabilidade do Estado manter o centro regional da RTP Açores, com emissão integralmente regional, programação e produção próprias.

O que está em causa é o futuro da Autonomia.

                                                                   alziraserpasilva@gmail.com

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