Carta a um amigo que já partiu

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Caro Yuri Pavtchinsky, 

não sei se me consegues ler, mas mesmo assim, tenho que te contar o que aconteceu no último final de semana. 

Como deves saber, o teu filho Vítor Daniel tocou no grande concerto de Páscoa! Para além do teu filho, estiveram em palco o solista Alexander Kuklin (ao piano) e elementos dos Conservatórios de Lisboa, do Porto, de Leiria, professores e antigos alunos do Conservatório Regional da Horta e das filarmónicas do Faial, muito bem dirigidos por Kurt Spanier. A orquestra Horta Camerata tocou obras de Mozart, Handel, Strauss, Verdi e Haydn, com encores (sim, plural) de Strauss, Verdi e da peça de Handel. É sobre essa peça de Handel que te quero falar em especial. 

Lembras-te quando um outro teu filho, o Vladimir, tocou, também no Teatro Faialense, o Concerto para clarinete em Lá de Mozart? Lembras-te do início do segundo andamento? Foi um momento perfeito, não foi?! Aliás, houve outro momento perfeito que me vem agora à memória. Foi em 2007 na Igreja Matriz, naquela “Sinfonia al Santo Sepulcro” de Vivaldi. Não tenho a certeza que tenhas assistido a esse concerto.

Mas estava a falar desses momentos perfeitos porque ontem o teu filho Vítor Daniel foi um dos protagonistas de mais um momento perfeito. Foi de tal forma bonito e harmonioso que o maestro desatou a aplaudir a sua própria orquestra! E fez muito bem porque, de facto… não há muitas palavras que possam descrever aquele minueto da ópera “Berenice” de Handel. Sim, eu sei que esta peça suave e delicada, com aquele envolvimento quase hipnótico do período Barroco, puxa por nós, mas… não explica tudo. Houve ali algo mais.

É certo, também que na ilha do Faial temos saudades de música erudita, o que poderá e isso coloca-nos num estado de espírito particular. De certa forma, é como se já quiséssemos gostar, mesmo antes de ouvir. Seja como for, aquele foi um momento acima disso.

Como eu estava a dizer e em resumo, o teu filho tocou tão bem! Continua “tapado” pelas suas duas professoras, mas esteve à altura delas! Aliás, em termos musicais, é bom que ele esteja lá atrás. Repara que, como ele é tímido, o facto de estar atrás permite-lhe libertar-se mais, sem a pressão correspondente à primeira fila. Quando estiver mais calejado, certamente, atuará no centro do Teatro Faialense. Quem sabe não o ouviremos numa qualquer sala de concertos europeia a tocar as suites para violoncelo de J.S Bach. Eu não me admirava um segundo que fosse!

Penso que nunca te disse, meu caro amigo Yuri, mas temos saudades tuas. Temos saudades do teu sorriso, do teu jeito impetuoso, da tua habilidade para tocar trompete, do teu entusiasmo contagiante e da tua vontade de fazer. Vendo bem, de certa maneira, dada a frescura da tua memória, é quase como se não tivesses partido. Estás connosco. O teu legado está certamente connosco e isso sabe muito bem!

Com respeito e admiração,

 

 

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