Casa de Infância de Santo António – Fátima Porto recorda os nove anos em que frequentou a instituição

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Maria de Fátima Machado Soares Porto, tem 64 anos e é médica de Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde da Ilha do Faial.
Durante nove anos frequentou a Casa de Infância de Santo António (CISA). Ao Tribuna das Ilhas a profissional de saúde falou das memórias que tem desse tempo.

O Tribuna das Ilhas iniciou no passado mês de fevereiro, em colaboração com a CISA, um conjunto de entrevistas, a publicar no decorrer deste ano, a pessoas que durante os últimos 160 anos passaram pela instituição.
Depois de Tomás Rocha, um dos presidentes que mais anos esteve à frente do Colégio de Santo António e da professora Zoraida Nascimento, este mês trazemos à estampa as recordações que Fátima Porto tem dos nove anos que passou na instituição enquanto aluna.
A este semanário a médica revelou que frequentou a CISA pelo facto de os seus pais considerarem “que era importante (pelo que ouvia comentar) que frequentasse um estabelecimento de ensino que fizesse formação do 1º ano ao antigo 5º (atual 9º)”.
Por outro lado, o então Colégio dispunha de algumas atividades extra-curriculares, “tais como lavores, piano, entre outras e de Sala de Estudo pós horário escolar onde podíamos fazer os deveres, lanchar, jantar e depois regressar a casa”. Para além disso, a CISA era também o estabelecimento de ensino frequentado pela sua irmã, Noémia.
Das memórias pessoais que reserva dos anos em que frequentou esta instituição centenária, Fátima Porto recorda as brincadeiras no recreio, os jogos de basket, os teatros, as missas cantadas e as irmãs que eram professoras.
“Recordo os recreios, a correria para ver quem chegava mais cedo ao baloiço e escorrega, que ainda está lá, mas na altura era uma novidade. Os jogos de basket com as nossas saias azuis então pelo joelho, e T-shirt branca, os teatros, feitos em dias de festa, organizados pela Irmã Maria Geraldina, que enchiam o ginásio, então chamado “ginásio novo”, também os retiros e o Movimento Oásis nos quais fazíamos preparação espiritual e também preparação para ajudar famílias carenciadas”, salientou.
As brincadeiras junto aos degraus da capela, onde jogava às pedras ou aos jecks, as missas cantadas com a Irmã Lucília ao piano, os convívios, “que sendo com vários grupos etários”, considerava “muito enriquecedores”, também fazem parte das recordações que tem daquele tempo.
Na sua memória está também bem presente “um armário que existia ao fundo da escada onde hoje está localizada a Escola Básica”, que na altura em que frequentava a instituição eram as salas do 5º ano e o Laboratório de Físico Química. Segundo a ex-aluna “esse armário era a nossa papelaria, havia de tudo: cadernos, borrachas, apara lápis, entre algumas revistas como a Cruzada”.
No que às memórias pedagógicas diz respeito, Fátima Porto destaca as professoras, na sua maioria freiras. “Recordo a Irmã Lúcia que nos acompanhou da 1ª à 4ª classe e que também nos acompanhava na Sala de Estudo, atual ATL, caso tivéssemos alguma dúvida”. Os lavores com a Irmã Patrícia “onde, entre o ponto de cruz, matiz e lençóis para os berços das famílias carenciadas, umas mais prendadas que outras, aprendemos alguma costura”.
A médica lembra ainda das aulas de piano com a Irmã Lucília. “Sempre muito atenta, com os seus olhos vivos e com a sua batuta lá ia tentando que nos entusiasmássemos pelo solfejo, ensinando também as músicas que depois tocaríamos, a duas ou quatro mãos, nos nossos teatros e audições”, salienta, acrescentando que “a ‘Pour Elise’ era a mais disputada”.
“A Irmã Benilde, a Irmã Clara, a Irmã Inês, mais tarde quando regressei fui sua médica assistente, Irmã Margarida, todas elas foram professoras que se preocupavam com a parte curricular, mas também em estimular os alunos para a Excelência, o que por vezes nessa idade não compreendíamos”, frisou.
Das pessoas que marcaram a sua infância no Colégio de Santo António, Fátima Porto destaca ainda “a Dr.ª Fernanda Pimentel que sempre que não correspondíamos à nota que ela esperava chamava-nos à parte para dar os seus conselhos” e o Tenente Horácio de quem muitas vezes se lembrava também nos seus tempos de faculdade quando fazia testes com consulta de livros. “Ele deixava-nos levar os livros para os testes e dizia: Se estudaram, não precisam do livro ou encontram facilmente, se não estudaram, vão ficar o teste todo à procura”, recorda.
Para a profissional de saúde “foi uma boa formação, pois como disse atrás, todas e todos foram professores que se preocuparam não só com a parte curricular, mas também em estimular os alunos de forma personalizada para a Excelência”, sustentou.
No que se refere aos constrangimentos sentidos pela sua geração, Fátima Porto aponta a divisão da sociedade em classes sociais e o facto das “colegas da Terceira, São Jorge, Pico, Flores, Corvo e das freguesias mais distantes da Horta, terem de sair de casa muito cedo, pós primária, com cerca de 9, 10 anos e ficarem em regime de pensionistas. Por vezes as alunas das outras ilhas só regressavam a casa nas férias grandes, de verão”, contou.
De acordo com a ex-aluna, o Colégio deu-lhe “formação para a vida pessoal, orientação de escolha profissional, cultural, e desportiva e teve um papel de família alargada, pois desde muito cedo convivíamos com colegas de outras ilhas”, salientou.
Já em relação aos valores adquiridos no seu percurso na CISA e que ainda hoje preserva, Fátima Porto entende que foi “o sentido de amizade, solidariedade, partilha, espírito de grupo, espiritualidade”.
Para a médica falar da CISA, é sinónimo de “formação para a vida e alegria”, conclui.

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