Casimiro Gonçalves, empresário de sucesso

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Nasceu a 15 de Setembro de 1901 em São Pedro de Óbidos, filho de Bernardo Gonçalves e de Maria de Jesus e em 1921 veio para a ilha do Faial, contratado pelo médico Dr. Alberto Goulart de Medeiros, trabalhar na extensa exploração agrícola e florestal daquele grande proprietário, situada na freguesia de Castelo Branco. Jovem de 20 anos, dotado de “excepcionais qualidades de trabalho e duma viva inteligência, aliadas a uma honestidade indiscutível, breve os seus patrões o distinguiram dando-lhe comissões em venda de produtos e interessando-o noutros negócios” 1. Assim começou amealhando uma pequena fortuna. Com as primeiras economias e com o recurso ao crédito bancário, foi adquirindo parcelas de terras lavradias (quase todas na zona da Carreira) e extensos campos de mato que com o seu trabalho desbravou. Na década de 1940 possuía já centenas de alqueires de terra, tornando-se, talvez, “o maior proprietário agrícola da ilha do Faial e as suas propriedades, das mais cuidadas” atestavam “ o valor do seu esforço, em benefício próprio e da riqueza nacional, pois todas elas não passavam há bem poucos anos de simples matagais improdutivos”. Inteligente e arguto, Casimiro Gonçalves, apesar de não ter “quaisquer bases escolares, constantemente procurava os técnicos competentes, para, avesso a tudo quanto fosse rotina, lhes pedir ensinamentos que lhe valorizassem e aumentassem a produção. Assim, foi o primeiro construtor de silos do distrito” 2 . Casimiro Gonçalves viria a tornar-se um destacado empreendedor e um empenhado cidadão. Dedicou-se, portanto, a várias actividades de elevado valor empresarial, no sector agropecuário, no comércio e na indústria, chegando a exportar gado por conta própria, o que, na época, não era usual. Agricultor, destacou-se na cultura de milho e trigo e também do chá. Em 1944, no concurso distrital para a melhor seara de milho de sequeiro promovido pelo Grémio da Lavoura da Horta, o primeiro prémio, no valor de 7.000$00, foi atribuído a Casimiro Gonçalves que, falando em nome dos premiados, manifestou júbilo por ver coroados de êxito os esforços dos principais lavradores da ilha e “afirmou particularmente que do dinheiro que recebia não desviaria um centavo que não fosse para desbravar mais mato, arrotear mais terra, para que houvesse mais pão”3. Criador de gado, esmerou-se no apuramento de raças, obtendo vários prémios em concursos promovidos pela Junta Nacional de Produtos Pecuários, exportando regularmente dezenas de bovinos para o Continente e abrindo um talho na cidade da Horta para abastecimento público. Industrial, foi sócio-gerente de uma empresa proprietária de duas debulhadoras que desenvolveu grande actividade até à emigração originada pelo Vulcão dos Capelinhos, chegando a empregar, na época alta, cerca de 50 homens. Teve também duas enfardadeiras, dois tractores, tendo instalado também uma moagem que, a par dos moinhos de vento e de palhetas, era indispensável à vida das populações. Em parceria com José Silveira Quadros, fundou a firma Quadros & Gonçalves que, em 1927, adquiriu à Cooperativa Rural de Castelo Branco um estabelecimento de mercearias e fazendas, “bem como o omnibus que diariamente transporta(va) passageiros entre aquela freguesia e a cidade” 4 . Nesse mesmo ano aquela firma abriu também uma nova padaria que laborava no sítio da Carreira 5; em 1931, já membro da sociedade Furtado & Gonçalves, recomeçou “a exploração da indústria de macarrão na antiga fábrica” 6 da freguesia de Castelo Branco. Comerciante, inaugurou a 3 de Fevereiro de 1945 na rua Serpa Pinto n.º41 da cidade da Horta a “Casa Casimiro Gonçalves” com as secções de talho, de salsicharia, de produtos agrícolas, de vinhos e azeites, assinalando esse acontecimento com a distribuição a 60 pobres da cidade (20 por cada freguesia) de um cabaz de carne, pão e batatas. Já então as suas actividades abrangiam toda a ilha e tão grande era o seu poder de iniciativa e de realização que não escapou à chamada para a presidência da Junta de Freguesia de Castelo Branco. Aí, também, o seu dinamismo revelar-se-ia notável, a ele se devendo obras importantes. Mas, melhor do que nós, estão os extractos das suas notas biográficas redigidas pelo Governador Civil Eng.º Mascarenhas Gaivão, em 13 de Junho de 1949: “ (…) Presidente há anos da Junta de Freguesia de Castelo Branco onde reside, foi, antes do Estado ter iniciado o grande volume de obras agora em execução, o grande animador da obra de captação e abastecimento de águas da freguesia, para a qual contribuiu com avultadas quantias. Veio em 1945 a Lisboa, juntamente com outros presidentes de Juntas de Freguesia, entregar a Sua Excelência o Presidente do Conselho uma mensagem de saudação do povo do distrito. As conversas que então teve com o senhor Presidente do Conselho e senhor Presidente da República, bem como as fotografias das respectivas audiências, são o seu maior orgulho e constantemente narra umas e exibe outras”. E, referindo-se à acção de Casimiro Gonçalves na construção dos bairros de casas económicas da Carreira e do Calço do Ferreiro, o governador Gaivão escrevia: “Tendo obtido então a promessa de um Bairro para Pobres, com 20 casas, à obra se dedicou com o maior entusiasmo, adiantando todo o dinheiro necessário para o bairro, inaugurado em Novembro de 1948 por sua excelência o Ministro do Interior. Durante a execução dos trabalhos, aos derrotistas que afirmavam serem as casas pequenas respondia: ‘mais pequena era aquela em que meu pai me criou e nós éramos oito irmãos’”. Para o governador Gaivão, que dirigindo ao Ministro do Interior as notas biográficas solicitava para ele um galardão – e que, efectivamente, se traduziu na atribuição em Novembro de 1949 de Oficial da Ordem de Benemerência – Casimiro Gonçalves era também um filantropo, de cuja generosidade poderiam ainda ser testemunhas “os dirigentes de diversas instituições de assistência, em especial a Cozinha Social – a cargo do Albergue Distrital – para onde frequentemente envia rezes inteiras, vitelos e porcos, bem como outros géneros alimentícios para distribuição pelos respectivos associados” 7. Também a filarmónica Euterpe – fundada em Castelo Branco a 12 de Maio de 1912 – mereceu o trabalho, a generosidade e a atenção de Casimiro Gonçalves. Toda a madeira para a construção da Sede (inaugurada em 20 de Agosto de 1972) foi oferecida por ele, estando sempre disponível para ajudar a resolver os problemas que surgiam. Um dos casos por ele solucionados foi, ao que me disseram, o preenchimento do lugar de regente, após a saída de Manuel Dutra da Silva Goulart e da efémera experiência de João Hilário, pelo músico António Pixes, homem sabedor mas que a doença impediu que desse à Euterpe maior contributo. Foi, por conseguinte um dos mais destacados sócios honorários daquela centenária banda musical. O diploma que assim o distinguiu é de Maio de 1978 e, por já se encontrar doente, foi seu filho José Gonçalves quem o recebeu. Também este, à semelhança de seu pai, foi um grande amigo da Euterpe, sempre disponível para colaborar nas mais diversas iniciativas, tendo pertencido à Comissão Pró – Sede e algumas vezes aos corpos directivos, inclusivamente exercendo o cargo de presidente da assembleia-geral em vários mandatos. Casou em Castelo Branco, a 20 de Maio de 1925, com Maria Augusta de Freitas. Foi pai de Maria Amélia Gonçalves Fernandes, José Gonçalves, Eugénia Augusta Gonçalves Bulcão, Conceição de Jesus Gonçalves, José António Vieira Gonçalves e Casimiro José Vieira Gonçalves. Após prolongada doença, Casimiro Gonçalves – o prestante cidadão e o dinâmico empresário que bem conheci – faleceu em 14 de Abril de 1984, na cidade da Horta, contando 83 anos de idade. Numa iniciativa oportuna e meritória a Junta de Freguesia de Castelo Branco, ao assinalar festivamente em 2014 os 500 anos de existência, incluiu nos vários actos do programa das comemorações, a atribuição de nova designação a duas artérias da localidade, sendo “uma a rua da junta de freguesia que passará a chamar-se rua Casimiro Gonçalves” e a outra “no Bairro da Carreira e chamar-se-á Ramiro de Sousa Pereira” 8. Para dar cumprimento a esta deliberação apresentou a indispensável moção à Câmara Municipal da Horta que, respondendo em ofício de 31 de Março de 2015, não lhe deu acolhimento vinculando-se à opinião da Comissão de Toponímia a qual, “na sua reunião de 12 de Março de 2015 emitiu parecer desfavorável à proposta de atribuição dos nomes Casimiro Gonçalves à rua central do Loteamento do Lameiro e Ramiro de Sousa Pereira à rua que confere acesso à escola EBI/JI de Castelo Branco, justificando que não devem ser homenageadas pessoas que desenvolveram ligações com o regime anterior”. Há, na verdade, decisões surpreendentes e inesperadas que, vagas ou falhas de fundamento, merecem melhor explicação ou, então, rápida revogação. (O autor escreve segundo a antiga ortografia) 1 AGCH, caixa de “Assuntos Diversos”, ofício do governador civil Mascarenhas Gaivão, 13.6. 1949 2 Idem, Ibidem 3 Correio da Horta, 1 Julho 1945 4 A Democracia, 3 de Dezembro de 1927, p.2 5 O Telégrafo, 11 Novembro 1927, p. 2 6 Idem, 11 Março 1931, p. 1 7 AGCH, caixa de “Assuntos Diversos”, 1949 8 Incentivo, 27 Junho 2014