Chamava-se Carolina Street Curry da Câmara Cabral O casamento católico na igreja de S. Francisco

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 A FAIALENSE QUE SE TORNOU PRINCESA III

(Continuação)

O casamento de Carolina Street Curry com o príncipe russo Constantin Mershersky teve lugar no dia 15 de Março de 1866, na igreja de S. Francisco, no tempo integrada na freguesia das Angústias. Dado o interesse que a sua descrição certamente despertará nos leitores, designadamente nos leitores faialenses, transcrevemos o texto que dele nos deixou Roxana Dabney, com vista a dele mantermos a máxima originalidade (9):

«Que grande excitação que houve por todo o dia na cidade. Corria toda a espécie de histórias acerca do que ia acontecer da parte do príncipe Mershersky. Os navios americanos estavam todos enfeitados com bandeiras de honra do dia e é claro que, as bandeiras daqui e dos “Ceders” [casa dos Dabney, hoje pertencente à presidência da Assembleia Legislativa dos Açores], estavam desfraldadas».                               «Partiu daqui uma grande procissão, toda a família menos Clara e os pequenitos. Ralph foi, mas Johnnie disse que não gostava de casamentos. Joaquina disse a Ralph que se ele fizesse isso (qualquer coisa de mal que ele estava a fazer) não podia ir ao casamento. “Se eu não for a esse casamento”, disse ele, “pego em todas as roupas e no pão e fujo”. Era tão grande a curiosidade que muitas senhoras foram de capote para espreitar».

Esta é a igreja de S. Francisco onde se realizou o casamento de Carolina Curry, em 15-3-1866, com o príncipe russo Constantin Mershersky

«Os convidados da boda reuniram-se em casa dos Curry. A carruagem dos Medeiros estava à porta. Carlota, D. Ana, Carolina e eu fomos nela. D. Bárbara [Curry, a mãe], numa cadeirinha, todos os restantes a pé (não era longe, a cerimónia teve lugar na igreja de São Francisco). Além da nossa família estavam os António Oliveira, os António Xavier, a família de Roberto Mesquita e o senhor Arriaga (Sebastião) e o filho. Os cavalos estavam enfeitados com umas fitas cor de cereja. A igreja estava apinhada. Tomás da Silva e alguns outros estavam em cima, no púlpito. As mulheres de capote encheram tanto a igreja, que mal havia espaço para os convidados do casamento ficarem de pé. Carolina estava encantadora e parecia tão bem. O príncipe desafivelou a espada e pô-la junto do seu boné. A única diferença é que usava dois anéis, lhes deu a volta três vezes e depois pôs um no dedo da noiva e outro no seu próprio dedo. Carolina ajoelhou diante da mãe por uns segundos depois da cerimónia. Que grande multidão, quando saímos, o chapéu do pai ficou esmagado. As mulheres de capote acenavam com a mão para a noiva quando a carruagem partiu. As criadas estavam todas à espera da noiva e do noivo no alto das escadas. Tanto Carolina como o príncipe as beijaram todas. Fui para casa com eles e ajudei um pouco com a mesa da ceia, o pai apareceu por uns momentos e o resto da família foi da igreja para casa e voltou novamente às nove da noite. Cantámos o hino russo e o hino português [que no tempo devia ser a Maria da Fonte], que tínhamos estado a ensaiar. O segundo, lamento dizê-lo, foi um completo fracasso. Clara veio mas não parecia estar a divertir-se. A mesa da ceia estava realmente bonita e havia cerca de quarenta e duas pessoas sentadas. No seu género, foi a coisa mais bela que eu já vira. O guardanapo de Carolina estava dobrado, com flores de laranjeira entre as dobras, o do príncipe tinha rosas. Sentaram-se à cabeceira, ladeados por D. Bárbara e pelo Sr. Curry, um de cada lado de D. Bárbara mas, como ele não estava, Clara substituiu-o. Dançou-se antes e depois da ceia e cantámos o hino russo pelo segunda vez, saindo perto da uma [hora]».   

O que se sabe é que, em 6 de Maio de 1866, a fragata “Dimitri Donskoy” voltava a ancorar no porto desta cidade. O jornal “O Fayalense” (de 13-5-1866) noticiava que a fragata de guerra russa, “Dimitri Donskoy”, de 3000 ton. e 800 cavalos, equipada com 32 peças, tinha 678 militares, e provinha do Rio de Janeiro.

Assim, no dia 8 desse mês, os Curry ofereceram um grandioso jantar, para o qual foram convidados os oficiais russos e as mais altas individualidades amigas faialenses. A banda convidada — que ou era de bordo ou a Artista Faialense — executou trechos de “O Trovador”, “Fausto”, “Bravo”, “Barbeiro da Sevilha”, pelos quais se verifica o elevado nível de qualidade musical do seu repertório (10).

Na quinta-feira 10 de Maio, Roxana e Mary Curry, bem como outros convidados da alta sociedade faialense dirigiram-se à fragata, onde foram levadas ao camarote do capitão Maidell e a banda tocou enquanto elas entravam. Era o dia da realização do casamento russo (Ortodoxo) dos nubentes, pelo que, para maior originalidade, se respiga o texto que Roxana escreveu (11): «O camarote que foi dado a Carolina era delicioso. Fanny e eu ajudámo-la a aprontar-se [para as cerimónias]. Desta vez usava rosas em vez de flores de laranjeira. Assim que saímos do camarote, o barão Maidell ofereceu-me o braço, entrámos e ficámos de pé em cima de um tapete turco. Um dos oficiais entregou-me um pequeno quadrado de bronze preso a uma fita branca que se assemelhava a um bombom de chocolate. Pensei que talvez fosse para guardar como recordação, mas observei que tinha a imagem de Cristo. Porém, não me foi dito o que devia fazer com ele. O barão Maidell tinha um outro maior (dourado) e tinha as mãos postas. O par nupcial entrou e ajoelhou-se em frente de nós, que devíamos fazer o sinal da cruz mas eu, como não me tinham dito nada, limitei-me a segurar a imagem por cima das cabeças deles quando ajoelharam, um de cada vez. Depois foi a vez de Mary e do Dr. Toda a gente foi então para a capela, com o grupo nupcial e fechar o cortejo. O barão Maidell entrou com a Carolina e comigo. Havia uma plataforma alta, no centro da qual estava o altar, e o grupo nupcial ficou de pé em cima dela, com os amigos do noivo de pé em baixo de um lado e do outro, porque não poderiam ter ficado em cima (o príncipe era mais baixo do que eles). Que calor! A cerimónia foi longa. Os cânticos [ortodoxos na fragata russa] no momento em que entrávamos na capela eram lindos. Primeiro que tudo, o padre deu duas velas acesas para segurar, com orações e cantos durante todo o tempo; depois veio a cerimónia com os dois anéis, trocando-os e fazendo três vezes o sinal da cruz em cada troca. Em seguida foram trazidas coroas de aspecto estranho feitas de lata com um pouco de veludo de algodão carmesim e quase cobertas de tamarisco e de flores vermelhas e cor-de-rosa. O padre deu a beijar ao príncipe uma imagem de Cristo antes de a coroa ser posta na cabeça dele. A coroa enterrou-se tanto que o efeito foi engraçado e eu não sabia para onde havia de olhar. George disse que John Morrisom ‘explodiu’ para dentro do seu chapéu e os oficiais tiveram dificuldade em manter-se sérios. A coroa da noiva era idêntica, mas tinha a imagem da Virgem e do Menino, que ela beijou.

                                                                                                          (Continua)

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            Bibl: Roxana Dabney, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Volume 3, (2006), co-edição do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta; Lima, Marcelino, “Famílias Faialenses”, (1922), pp. 241-245, Minerva Insdulana; Leite, José Guilherme Reis, “Enciclopédia Açoriana”, Internet, Centro de Conhecimentos dos Açores, ed. da Universidade Católica Portuguesa e do Governo Regional dos Açores; Forjaz, Jorge, e Mendes, António Ornelas, “Genealogias das Quatro Ilhas: Faial, Pico, Flores e Corvo”, (2009), Vol. 1.º, p. 725, e Vol. 4.º, p. 2659, ed. Dislivro Histórica.

 

(9). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006), pp. 262 e 263, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.   

(10). Dabney, Roxana, 1806-1871, “Anais da Família Dabney no Faial”, Vol. 3, (2006),  pp. 266 e 267, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.   

(11). Dabney, Roxana, 1806-1871, Anais da Família Dabney no Faial, Volume 3, (2006), pp. 269 e 270, ed. do IAC-Instituto Açoriano de Cultura e do Núcleo Cultural da Horta.