Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial (CALF) – Comemorações dos 75 anos serviram para analisar o momento atual do cooperativismo e do sector leiteiro nos Açores

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A Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial (CALF) celebrou, em sessão solene, o seu 75.º aniversário, na qual foi entregue aos presentes uma medalha da efeméride. A ocasião serviu também para analisar o cooperativismo, o momento que atravessa o sector leiteiro e o seu futuro.

Na passada segunda-feira, dia 29 de outubro, a Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial (CALF) comemorou, em sessão solene, o seu 75.º aniversário, que contou com a presença, para além do Presidente da CALF, do Presidente do Governo Regional dos Açores.
Usando da palavra, o Presidente da CALF, José Agostinho Silveira começou por fazer uma resenha histórica da fundação da Cooperativa, lembrando que a mesma tem alvará de 29 de outubro de 1943.
Segundo ele, inicialmente a recolha que fazia do leite limitava-se à parte norte da ilha e só em 1950 surge nos Flamengos o primeiro posto de leite fora daquela zona. Em 1951, atendendo às características específicas da freguesia dos Cedros, foi aprovada por larga maioria a construção da nova fábrica naquela freguesia em detrimento da cidade da Horta, mas cuja primeira pedra foi lançada apenas em 1956.
A inauguração desta nova fábrica ocorreu em 1960, a qual foi considerada a melhor, a mais moderna e mais bem equipada, quer em relação às suas congéneres dos Açores, quer às existentes no continente. Já depois de se separar a secção de venda da secção de leite e lacticínios com contabilidade própria, durante os anos 80 assiste-se a um aperfeiçoamento dos seus colaboradores mediante a realização de diversos tipos de estágios.
Com o encerramento de uma outra unidade fabril da ilha, a CALF viu-se obrigada a absorver a produção daquela, passando de 11 milhões de litros ao ano para 16 milhões. Em 2004, a CALF transferiu a sua actividade comercial para a LactAçores.
Lembrou depois os prémios que a CALF tem obtido com os seus queijos Ilha Azul e Capelinhos, bem como com a manteiga Ilha Azul. Todavia, o Presidente do Conselho de Administração da CALF chamou a atenção para o facto de se assistir “a um conjunto de situações adversas, sobretudo o fim do regime das quotas leiteiras, que contribuíram rapidamente para que o mercado se tornasse cada vez mais agreste, desregulado, tendo o sector do leite e lacticínios mergulhado numa grande incerteza”.
“No mercado interno tem-se assistido ao peso excessivo dos grandes grupos de distribuição que através de estratégias generalizadas têm vindo a contribuir para uma acentuada degradação dos preços e margens”, salientou José Agostinho nesta sua intervenção.
O Presidente da CALF chamou depois a atenção “para a importação massiva de queijo holandês e alemão a preços muito próximos do dumping comercial”, considerando que por este motivo “é difícil ver a qualidade premiada, pois o preço é que conta”.
Lembrou ainda aos presentes que a marca Ilha Azul tem no património queijeiro uma posição de referência, sendo o queijo e a manteiga Ilha Azul fabricados na ilha do Faial há mais de 60 anos e produtos emblemáticos dos lacticínios dos Açores.
Para José Agostinho em outubro de 2018 é notória “a importância económica e social da CALF no tecido produtivo da ilha do Faial”. “A representatividade da CALF no universo das maiores empresas açorianas, corresponde à 4.ª maior empresa da ilha do Faial no tocante a valores de negócios, enquanto a nível global ocupa a 83.ª posição nas 100 maiores empresas açorianas, e no sector agro-industrial a CALF é a 17.ª empresa”, concluiu o Presidente da CALF.
De seguida interveio o Prof. Carlos Lobão, que começou por afirmar que a maioria dos habitantes da ilha “desconhece” a CALF. “Quem conhece a história da sua terra pode amá-la com mais consistência”, referiu o professor. Para este o associativismo “é a expressão organizada da sociedade, apelando à responsabilização e intervenção dos cidadãos em várias esferas da vida social, tornando-se um importante meio de exercer a cidadania”, tendo o mesmo se afirmado na ilha do Faial como uma forma de intervenção social e de defesa dos interesses pessoais e coletivos, como uma autêntica rede de solidariedade.
De acordo com Carlos Lobão o cooperativismo surgiu na ilha do Faial e em particular na freguesia dos Cedros nos finais do século 19 e foi-se afirmando gradualmente nas décadas iniciais do século 20. Os valores deste cooperativismo eram o da igualdade, da liberdade, da fraternidade e de prestar serviços aos seus associados.
“75 anos passados esta cooperativa enfrenta enormes desafios, apesar de ser considerada dinâmica como confirmada pelas suas novas instalações, pelo crer dos seus dirigentes, funcionários e associados e pela afirmação pública dos seus produtos atestada pelos inúmeros prémios, concluiu o professor.
Por último discursou o Presidente do Governo Regional Vasco Cordeiro que felicitou a instituição que “tem uma importância decisiva para o desenvolvimento económico da ilha do Faial, sobretudo naquilo que tem a ver com o seu sector agrícola”. São 75 anos que nos “trazem à memória aquele que foi um percurso de luta, de determinação, de empenho e de lutar contra adversidades”.
De acordo com Vasco Cordeiro vivemos hoje um tempo particularmente exigente e desafiante, pois vivemos num mundo globalizado em que também no sector agrícola, no sector leiteiro, tem consequências e tem efeitos muito diretos.
Lembrou o embargo que houve aos lacticínios da União Euro-peia que levou “a que mercados tradicionais de produtos de lacticínios dos Açores fossem inundados por produtos de lacticínios de outros países que se viram impedidos de exportar para a Federação Russa”, o movimento “que contesta os benefícios do leite para a alimentação humana” que origina uma retração no consumo desses produtos, e a extinção do regime de quotas leiteiras que determinou perturbações e turbulências nos mercados de lacticínios açorianos, destacou o Presidente do Governo.
“Os Açores com a quantidade de leite que produzem, mesmo com o peso considerável que têm a nível nacional por via dessa dimensão – 35% do leite do país é produzido na Região e 50% do queijo – há uma perspectiva que é à escala europeia, que seremos no futuro uma das regiões em que o nosso principal vector de afirmação não pode ser a quantidade e deve ser cada vez mais a criação de valor” salientou Vasco Cordeiro.
Para o Presidente do Governo a diferenciação, a qualidade quanto à forma como esses nossos produtos são apresentados, à sua notoriedade e canais de afirmação são elementos fundamentais.
Destacou, ainda, o Presidente o contributo dado pelas entidades públicas para um movimento de poder ultrapassar os desafios que surgem. Desde logo, através da redução de custos de exploração, como a melhoria dos caminhos públicos, do abastecimento de água ou de energia eléctrica. E, depois, ao nível da comercialização, potenciar a forma como podemos chegar mais longe, aquilo que tem a ver com a forma de fomento de organização e de fazer chegar os produtos a outros mercados.
Em relação à CALF e à ilha do Faial, diz Vasco Cordeiro que aquilo que o Governo tem programado desenvolver num futuro próximo podem ser exemplos de uma estratégia que se concretiza ao nível local. Lembrou que em relação ao Plano de investimentos a apresentar ao Parla-mento, o Governo Regional pretende investir 11 milhões de euros na componente de infra-estruturas agrícolas, em caminhos, em rede de água e de luz. 

 

Colóquio “Cooperativismo e fortalecimento do sector leiteiro”

Por ocasião da celebração dos seus 75 anos, a CALF levou a cabo um colóquio, aberto à população, para se discutir o cooperativismo, o sector leiteiro e a sua evolução, bem como os mercados internacionais, contando com a presença de diversos palestrantes.
Começou por intervir José Élio Ventura, Diretor Regional da Agricultura, que apresentou o tema “Cooperativismo e o fortalecimento do sector leiteiro nos Açores”, a dinâmica do cooperativismo nos Açores e a sua integração com a evolução do sector dos lacticínios na Região Autónoma dos Açores.
Lembrou que o cooperativismo se iniciou em Inglaterra em 1844 com a primeira cooperativa, em que um grupo de trabalhadores decidiu montar um armazém por conta própria para exercício da atividade através de um formato corporativo. Depois, assistiu-se à criação da Aliança Cooperativa Internacional em 1895 na Europa, que possui atualmente quatro sedes (na Europa, na América, na Ásia e em África).
“Em Portugal, o cooperativismo começou em 1860, através da Real Associação Central da Agricultura Portuguesa fundada por proprietários agrícolas e que tinha como objetivo unir esforços destes proprietários e introduzir novas técnicas culturais e ferramentas agrícolas para o desenvolvimento da sua atividade”, referiu o Diretor Regional.
Segundo Élio Ventura em Portugal existiam em 1929 cerca de 365 cooperativas, das quais apenas 12 eram cooperativas agrícolas; em 1974 passaram a ser 401 e representavam cerca de 50% das cooperativas que existiam no país. Após o 25 de abril assistiu-se a uma proliferação de cooperativas de vários tipos, de habitação, agrícolas, de serviços e na área das pescas, existindo hoje cerca de 2.000 cooperativas, representando o ramo agrícola 1/3 das mesmas.
“Concretamente na área agrícola, estas cooperativas apresentam-se em sectores estratégicos como o leite, o vinho o azeite, as hortícolas, bem como na área da prestação de serviços”, salientou o palestrante.
Para este, nos Açores existiam 6 cooperativas agrícolas em 1929, depois em 2009 passaram a existir 43, sendo que a primeira a nascer foi a Cooperativa Agrícola da Beira e depois a das Manadas, surgindo a Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial (CALF) em 1943.
De acordo com o Diretor Regional da Agricultura, no ranking das 100 maiores empresas dos Açores encontramos 7 empresas ligadas aos produtos lácteos, das quais 4 são cooperativas.
Nos últimos 20 anos, a produção de leite aumentou na Região cerca de 65%, passando para 610 milhões de litros e o número de produtores reduziu 24%, o que significou que o leite aumentou tanto quanto diminuiu o número de produtores, os quais passaram a ser 2.430, o que significa, nas palavras de Ventura “uma restruturação do sector”.
“A produção de leite não se distribui de forma igual por todas as ilhas, produzindo as ilhas de São Miguel e Terceira cerca de 90% do leite produzido nos Açores, a ilha de São Jorge produz 5% do total e as restantes ilhas dos Açores os restantes 5%”, concluiu o Diretor Regional na sua intervenção.
De seguida interveio Pedro Pimentel que sob um tema sugestivo “do prato ao prado”, tema esse mais relacionado com o consumo do que com a produção. Para este o sector lácteo tem “um futuro promissor”, pois “o consumo vai crescer sempre muito mais rapidamente do que aquilo que a produção será capaz de responder”.
Para este palestrante existem diversos inimigos do sector e que “passam pela concorrência de novos produtos, pela comunicação adversa que existe hoje em relação aos produtos lácteos e pelos estilos de vida alternativos cada vez mais frequentes, pois existe um número crescente de pessoas cujo consumo se afasta dos produtos animais e dos produtos lácteos por natureza”.
Refere Pedro Pimentel que após o período de crise 2010-2014, com uma redução no consumo, pois havia menos dinheiro, começou a assistir-se a uma recuperação do consumo em muitas categorias de produtos, a qual não foi, todavia, correspondida nos produtos lácteos (leite e iogurtes). E que a partir daqui se começou a aperceber que tal facto não tem a ver com a crise, mas com o próprio produto.
De acordo com este economista mais de 90% do leite produzido é consumido nos locais de origem, sendo os Açores uma exceção a esta regra. Quanto ao queijo, entende que é um produto democrático “pois consome-se em todas as latitudes, idades e em todas as religiões”, mas que existem queijos massificados que se consomem em qualquer parte do globo, queijos produzidos para nichos, pois o consumo é muito distinto de zona para zona do globo.
No que respeita aos Açores, o que distingue o produto desta Região em relação a outras partes do mundo é “claramente a sua ligação à natureza”. Mas a natureza, a qualidade e ambiente estão intimamente associada a uma outra questão que é o valor, salientou o palestrante, pago pelo consumidor.
A concluir, considera Pedro Pimentel, que “os produtos lácteos dos açores não basta ser excelentes, eles têm que ser percebidos como excelentes para quem está no mercado”.
A encerrar o colóquio João Cunha apresentou o tema “Mercados Internacionais”, que começou por levantar a questão de saber como se combate a desinformação, as notícias falsas que influenciam o nosso consumo.
Lembrou que o consumo do leite UHT está a diminuir e “nós temos de saber o que fazer”, referiu. Para este “nós temos de nos reinventar, acrescentar valor aos nossos produtos e direccionar o nosso leite que é de elevada qualidade para produtos que tenham uma valorização”.
De acordo com João Cunha cada vez se está a produzir mais leite na União Europeia, mas o foco dessa produção está direccionado para o queijo, para o leite em pó, mercado em crescendo, e também para a manteiga.
Assiste-se, por outro lado, a uma redução do consumo do leite UHT, pois a população está a consumir cada vez menos leite e a produzir-se cada vez mais, ou seja, a oferta está muito acima da procura que existe. Mas, em contraponto, o queijo está a subir e a ser mais valorizado. Daí que, considera João Cunha, “temos de nos focar em produzir produtos de valor acrescentado e canalizá-los para queijo, diminuindo a nossa produção de leite UHT”.
Por fim, apresentou o exemplo italiano que direciona o leite UHT que recolhe para produtos de valor acrescentado e que, portanto, há que olhar para esse país neste aspeto.
Seguiu-se um período de perguntas por parte do público aos palestrantes onde foram levantadas diversas questões relacionadas com a agricultura e os produtos lácteos. 

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