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Corpo Gramatical | 1.º Sem Mãos A Medir

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Uma célula cancerígena traiçoeira invadiu-lhe os pulmões, metastizou e roubou-o à vida. O Sérgio era um ser que vivia para as artes. Uma euforia criativa dominava o seu dia a dia ao ponto de achar que as horas de sono eram uma perda de tempo. Acordava com mil e uma ideias que o obrigavam a tomar notas, antes de fazer qualquer outra coisa.

O Sérgio licenciou-se num curso técnico porque “as artes não garantiam futuro”, diziam-lhe os pais. Mas só se sentiria realizado quando descobriu que era na música e na pintura que o seu espírito sossegava e a sua inquietação intelectual finalmente encontrava equilíbrio e aconchego. Mais tarde, depois de gavetas e gavetas cheias de textos decidiu reunir e publicar alguns poemas e criar personagens que com um humor severamente sarcástico se encarregaram de transmitir a sua ideologia política através de peças de Teatro e de Revistas populares.

Todas as vezes que eu resolvia finalmente espreitar um dos dossiers que ele deixara, encontrava verdadeiras pérolas das várias recolhas que ele fez ao longo da vida. Com sensibilidade e perspicácia raras coleccionou alcunhas, ditos populares e principalmente palavras ou frases susceptíveis de lhes driblar o significado, apenas por vezes trocando só uma letra – os trocadilhos que fervilhavam na sua mente e que utilizava para fazer crítica social.

O “Corpo Gramatical” é um dos muitos trabalhos que me deixou e que decidi agora partilhar com os leitores do Tribuna das Ilhas.

Lúcia de Mello Serpa

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