CORVINO QUE SE DISTINGUIU – ANTÃO VAZ (14??-15??) O primeiro povoador do Corvo

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Não obstante pouco se saber sobre a vida de Antão Vaz, também conhecido por Antão Vaz Teixeira, que foi considerado o primeiro grande impulsionador do povoamento da ilha do Corvo, o trabalho por ele ali desenvolvido justifica que se apresente o seu nome às gerações vindouras, designadamente, às corvinas. Acontece que, como ele não viveu sempre na ilha do Corvo e terá talvez falecido fora dela, não se enquadra perfeitamente no espírito que presidiu à selecção dos corvinos que ocupam esta última parte do livro. Mas, como primeiro povoador, interessado no povoamento da ilha, julgámos ser justo inseri-lo neste trabalho, ainda que limitados aos elementos que dele conseguimos obter de vários historiadores. 

Frei Diogo das Chagas (1584-1661?) começa o capítulo do seu livro “Espelho Cristalino” dedicado à ilha do Corvo, donde respigámos e “bebemos” o essencial desta síntese biográfica, escrevendo que “O Primeiro descobridor e povoador deste ilheo do Corvo foi como já deixamos ditto Antão Vaz…”. Povoador sim, mas descobridor não, dizemos nós, já que ambas as ilhas do Grupo Ocidental haviam sido descobertas, simultaneamente, em 1451 ou 1452 por Diogo de Teive, antes de Antão Vaz ali ter chegado em 1504. 

Francisco António Gomes, também historiador florentino, mo sua obra “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade” escreve que el-Rei D. Manuel [I] fez mercê a Antão Vaz da ilha do Corvo (sic), não como capitania, mas em data [ou entrega] livre para ele e seus herdeiros, sem mais obrigações do que lhe pagarem dízimos. 

Tudo leva a crer que, embora de origem espanhola, Antão Vaz teria vindo do Reino – Continente Português – estabelecer-se na Praia, Ilha Terceira, onde já possuía residência. Sabe-se que chegou em 1504 à ilha das Flores com o irmão Lopo Vaz e um grupo de colonos ou povoadores destinados às ilhas do grupo ocidental, Flores e Corvo, chefiados por João da Fonseca, provenientes de Viana do Alentejo e de outras localidades, informa Chagas. 

João da Fonseca tinha acabado de receber do Rei D. Manuel I (1495-1521), por Carta Régia de 1 de Março de 1504, a capitania das ilhas das Flores e do Corvo e ia levar-lhes os primeiros colonos. A paragem do grupo de povoadores na Praia, talvez mesmo em casa de Antão Vaz, fora tão demorada que alguns ali casaram, certamente para seguirem com suas mulheres. Antão Vaz fazia parte desse grupo, como referimos, bem como Gomes Dias Rodovalho, isto é, os irmãos Vaz, e outros colonos ou povoadores, que terão sido os primeiros povoadores permanentes das Flores. Já lá havia estado Guilherme da Silveira, que depois a deixou e foi para o Topo, da ilha de S. Jorge, onde veio a falecer, tendo passado também pelas Quatro Ribeiras da Terceira.

Chegados às Flores, e certamente depois de feita a primeira verificação da ilha, de distribuídas as primeiras terras e de transmitidas as adequadas orientações, João da Fonseca regressou a Lisboa no mesmo navio. Deixou nas Flores, em seu lugar, como capitão-mor, ouvidor e sesmeiro [distribuidor de terras], Gomes Dias Rodovalho, que se teria estabelecido onde hoje existe a vila de Santa Cruz. Este viria a deixar larga e importante descendência, designadamente os bisnetos: Frei Diogo das Chagas, historiador; Padre Inácio Coelho (1575-1643), edificador da primeira igreja do Corvo e fundador do Convento das Flores; e Frei Mateus da Conceição (1585-1653), missionário e teólogo de elevado mérito.  

Antão Vaz rumou à ilha do Corvo, tendo os restantes se fixado na ilha das Flores. O irmão, Lopo Vaz, fixou-se na fajã, junto das Lajes, que ainda hoje ostenta o seu nome; a sua irmã, Maria Vaz, que terá vindo mais tarde, ter-se-à estabelecido no Norte da ilha das Flores, nas proximidades de Ponta Delgada, onde ainda existe hoje um ou mais ilhéus com o seu nome, como esclarece anos depois o Padre Camões. Segundo nos informou o corvino Dr. João Saramago, no Corvo, ao lado esquerdo do Boqueirão, também há uma ponta que se chama “Maria Vaz”. 

Chegado à ilha do Corvo, onde terá permanecido vários anos, Antão Vaz logo tentou promover o seu povoamento. Nela terá fundado ou erigido uma ermida dedicada a Nossa Senhora do Rosário. O seu primeiro capelão, D. Agostinho Ribeiro, terá sido por ele trazido de Lisboa. Mais tarde foi o primeiro Bispo dos Açores, como escreveu o Padre António Cordeiro (1640-1722), na sua “História Insulana”. Frei Agostinho de Montalverne (1629-1726), confirma esta informação, como consta do Capítulo I da sua “Crónica da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores”, terá trazido para o Corvo “para seu capelão Agostinho Ribeiro que administrava os sacramentos”. Este padre, mais tarde, depois de passar pela Diocese de Angra, foi nomeado Reitor da Universidade de Coimbra. 

Talvez por motivos de saúde, anos depois voltou para a sua casa da Praia e, desgostoso, por não encontrar gente interessada no povoamento da ilha, como estava a acontecer com as Flores, levou para ela o referido Padre Agostinho Ribeiro, e dois ou três rendeiros, os irmãos Barcelos, da Terceira. Estes também se desinteressaram e acabaram por regressar à Terceira. A seguir, Antão Vaz voltou ao Corvo e terá feito venda barata da ilha a Gonçalo de Sousa, que passou a usar então o título de Capitão da Ilha das Flores e Senhor do Ilhéu do Corvo, enquanto que Antão Vaz regressava à sua casa na ilha Terceira, segundo afirma Chagas. 

A ermida, mandada construir certamente por Antão Vaz, foi substituída pela “Igreja mui fermosa, que de novo fez, e rectificou o Padre Inácio Coelho que nella tinha sido Vigário”, aí por volta de 1610, no dizer de Chagas. Seria já próxima do Porto da Casa. O Padre Inácio Coelho (1575-1643), que era irmão de Chagas e nascera em Santa Cruz das Flores, foi vigário do Corvo desde 1608, tendo sido depois transferido para a vila de Santa Cruz das Flores, em data que não pudemos precisar, onde foi vigário, ouvidor eclesiástico (também do Corvo) e fundador do Convento Franciscano dessa Vila, vindo a falecer em 1643. 

Assim, estranhamos que o nome de Antão Vaz não conste dos capítulos da ilha do Corvo elaborados por outros historiadores, designadamente por Gaspar Frutuoso (1522-1591) no seu livro “Saudades da Terra”. Aliás, o historiado Padre António Cordeiro, escreve no seu livro “História Insulana”, Livro IX, (1917), Capítulo IV, dedicado às famílias das Flores, refere que “ainda hoje há tradição que um dos primeiros povoadores [das Flores] foram dois castelhanos, chamados Antão Vaz e Lopo Vaz, que de Castela vieram a esta ilha” e que o apelido Vaz é o de Vasco ou Basco, como dizem os castelhanos. É mesmo provável que Antão Vaz tenha permanecido algum tempo na ilha das Flores antes de passara para o Corvo, em virtude da família que nela possuía. Também António Lourenço Silveira Macedo, na sua “História das Quatro Ilhas”, confirma a sua origem, esclarecendo que o Padre António Cordeiro diz que Antão Vaz era padre, que teria sido Vigário na ilha das Flores e que, com o irmão Lopo Vaz, chegou a obter a capitania daquelas ilhas das Flores e do Corvo. A sua actividade de padre não a conseguimos confirmar, mas sabe-se que terá chegado a obter a qualidade de capitão-mor do Corvo. 

Seja como for, desconhecemos a data e o local onde Antão Vaz veio a falecer e estranhamos que Frutuoso não o tenha evidenciado como primeiro povoador da ilha do Corvo. Todavia, julgamos que Chagas, como florentino, bisneto de Gomes Dias Rodovalho (povoador das Flores) e irmão do Padre Inácio Coelho, estaria muito melhor informado sobre o povoamento do Corvo.

 

 Bibl: Frutuoso, Doutor Gaspar (1585-1589), “Saudades da Terra”, Livro VI, Capítulo 48.º, pp 133-136,  de 1998, edição do Instituto Cultural de Ponta Delgada; Chagas, Frei Diogo, (1646-1654), “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, 1989, pp. 561-569, ed. da Direcção Regional dos Assuntos Culturais e Universidade dos Açores, com direcção e prefácio de Artur Teodoro de Matos;  Monte Alverne, Frei Agostinho de, (1695), “Crónica da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores”, Livro III, Capítulo Quarto, pp. 203-204, Edição do Instituto Cultural de P. Delgada; Cordeiro, Padre António Cordeiro, (1717),  “História Insulana”, 1981, pp 481-494, edição da Secretaria Regional da Educação e Cultura; Gomes, Francisco António Nunes Pimentel, (2003), “A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade”,pp. 12, 17 a 21 e 41 e 50 a 55, 2.ª Edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Serrão, Joaquim Veríssimo, (1415-1495) “História de Portugal”, Volume II, p. 146, 8.ª Edição da Editorial Verbo. A mera suposição de que todos os irmãos Vaz seriam naturais do Reino – embora possam ser de origem castelhana – está subjacente à prontidão com que Antão Vaz terá recebido em sua casa, na  ilha Terceira,  o grupo de colonos destinados às ilhas do grupo ocidental e ao facto do Padre José António Camões escrever, muitos anos depois, que a irmã, Maria Vaz, quando chegou mais tarde às Flores, “trazia os seus cabelos grandes como era uso no Reino e daqueles tempos,  [e que], as pobres rústicas aldeãs da ilha, que usavam os cabelos curtos, começaram a apelidá-la com o nome de  ‘Maria Gadelha’” , in Camões, Padre José António, (1815-1822),  “OBRAS” , 2008, p. 68, edição da Câmara Municipal de Lajes das Flores; Macedo, António Lourenço da Silveira, (1871), “História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito de Horta”, Reimpressão fac-similada da edição de 1871, I Volume, p. 21, 1981, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, escreve que “Diz o padre Cordeiro na sua história insulana que este Antão Vaz era padre…”; Do livro“475 ANOS DA DIOCESE DE ANGRA - Bispos: Retratos dos Bispos de Angra”, D. Agostinho Ribeiro, 1.º bispo de Angra, 17 - Outubro-2009 , 31 - Janeiro - 2010 , Museu de Angra do Heroísmo ., Sala do Capítulo.
 

 

 

 

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