Crise e Moralidade

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 1. Já há anos que muitos especialistas vinham avisando para o iminente colapso das finanças públicas portuguesas. Já há anos muitas vozes vinham alertando que os gastos do Estado central, das Regiões e das Autarquias eram incomportáveis com a nossa realidade económico-financeira. Já há anos que se percebia que a deriva despesista que assaltou governos, autarquias, empresas públicas, institutos públicos, empresas municipais e toda a panóplia de similares que se foram criando por esse País, iria um dia ter um mau fim!

A todos os avisos a maioria dos governantes, gestores públicos e autarcas fez ouvidos moucos, persistiu em manter um rumo inconsciente e suicida, deixou de lado as preocupações da boa gestão e do criterioso investimento e deslumbrou-se, à boa maneira dos imperadores da decadente Roma, com o pão e o circo que foram oferecendo à população. Para muitos deles, um bom governo e uma boa gestão medem-se não pelas medidas de investimento reprodutivo, mas pelos artistas que se contratam nas festas que pululam em tudo o que é sítio, pela duração dos fogos de artifício, pelas comezainas que se oferecem e pelos amigos que se protege e com quem se repartem os dinheiros públicos.

2. Medina Carreira, no programa “Plano Inclinado”, já havia afirmado que o colapso nacional, a manter-se o rumo, era uma questão de tempo. E reconhecia que poucos lhe davam especial atenção. Era preferível ouvir as promessas douradas de José Sócrates e dos seus discípulos do que acreditar no pessimismo duro de quem fala a verdade! E Medina Carreira sabia que muitos portugueses comuns, da chamada classe média, o viam como um exagerado e um catastrofista. Por isso, afirmou que os funcionários públicos (que seriam das primeiras vítimas) só o iam entender quando um Ministro lhes dissesse que não tinha dinheiro para lhes pagar os ordenados no fim do mês.

3.Por responsabilidade exclusiva de sucessivos governos, estamos, portanto, imersos em mais uma profunda e grave crise que se abate sobre todos nós, mas de forma mais especialmente dura e injusta sobre aqueles que menos possibilidades têm. E, particularmente em períodos difíceis, exigem-se lideranças capazes, que se imponham pela justeza das medidas, pela verdade do discurso, pela coerência dos princípios e pelo exemplo que se tem de dar junto de todos aqueles a quem se está a pedir sacrifícios acrescidos.

4.Mas infelizmente são estes mesmos governantes que a todos nós agora exigem sacrifícios, que se constituem em exemplo negativo e pernicioso pela forma como continuam a usar os dinheiros públicos em gastos supérfluos, desnecessários, desmedidos e até, nas circunstâncias actuais, profundamente imorais.

E para exemplificar isto nem precisamos de recorrer aos casos nacionais como o jantar de 150 mil euros da ANACOM, ou o dos 220 mil euros da Direcção Geral de Contribuições e Impostos.

Aqui, bem perto de nós, o Governo Regional é cada vez mais pródigo em exemplos do pouco rigor que se verifica na boa gestão dos dinheiros públicos, especialmente se tivermos em conta as dificuldades do tempo presente.

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e o Governo Regional paga 1,550 milhões de euros pela festa das “maravilhas de Portugal”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e o Governo Regional faz um ajuste directo com a empresa de um ex-deputado seu no valor de 74.900 euros para “promoção das 5 maravilhas dos Açores”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e as Pousadas de Juventude dos Açores (isto é, o governo) faz um ajuste directo com aquela mesma empresa no valor de 16.650 euros para “vídeos de promoção turística e Guia de Boas Práticas Online 2009-2010”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e o IAMA (isto é, o governo) ajusta com a mesma empresa por 19.000 euros a “prestação de serviços para o spot promocional dos Açores na TVNet”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e a Secretaria Regional da Ciência, Tecnologia e Equipamentos faz um ajuste directo ainda com a mesma empresa do ex-deputado no valor de 16.500 euros para a “elaboração do filme de animação em 3D de apresentação do Jardim dos Maroiços, na Madalena”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e a Associação de Turismo dos Açores (isto é, o governo) faz um ajuste directo com uma outra empresa, no valor de 196.000 euros, para esta organizar em Lisboa, durante a BTL “uma disco party” para 750 pessoas, com “welcome drink, coktail, dinattoire e bar aberto”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e a Secretaria Regional da Presidência faz um ajuste directo por 19.242,40 euros para 20 fotografias sobre “as belezas subaquáticas da Região”?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e a Secretaria Regional da Presidência faz um ajuste directo para a apresentação de um espectáculo com a artista Lisa Ekdhal no Teatro Micaelense por 66.508 euros?

Com que moral se exige profundos sacrifícios aos cidadãos e o IAMA (isto é, o governo) faz um ajuste directo em que para flores em 6 eventos se paga a quantia de 17.000 euros?

Estes são só alguns exemplos mais recentes desta imoralidade instituída que obriga os cidadãos a pagar os excessos e o novo-riquismo desfasado de quem nos governa. Até quando?

                                                                                                  11.10.2010