DDT

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São cada vez mais numerosos e visíveis os sinais da incapacidade de os detentores do poder nos Açores controlarem o polvo tentacular que criaram.
O aparelho gerado pelo partido que está ininterruptamente no governo há 22 anos parece ter já vontade própria e usa a administração e os cargos que nela detém como propriedade sua.
O último exemplo é o da questão das evacuações médicas.
Para o resumir, sobretudo para aqueles que não sabem bem o que aconteceu, ficam apenas estes tópicos dos factos mais relevantes: 1) chegaram à Proteção Civil quase em simultâneo dois pedidos de evacuação médica: um da Graciosa (uma bebé em paragem respiratória com 40 graus de febre) e outro de S. Jorge (uma jovem de 20 anos, parente da Presidente do Hospital de Angra, com um trauma crânio-encefálico, que foi dando sinais de agravamento com confusão mental e vómitos); 2) a médica reguladora da Proteção Civil decidiu uma evacuação dupla na mesma viagem; 3) a médica da Unidade da Evacuação não aceitou essa decisão porque disse ter ordens diferentes da Presidente do Hospital de Angra, no sentido de a evacuação ser só a de S. Jorge; 4) choveram, entretanto, os telefonemas a pressionar as decisões de evacuação num ou noutro sentido: da Presidente do Hospital de Angra a pressionar para ser dada prioridade à evacuação de S. Jorge; da Presidente do Centro de Saúde da Graciosa a pressionar a médica daquele Centro a insistir no pedido de evacuação para aquela ilha; do Presidente da Proteção Civil a transmitir à médica reguladora do seu serviço que o Secretário Regional da Saúde lhe tinha dito que o caso de S. Jorge era mais grave; 5) fez-se a evacuação da doente de S. Jorge para S. Miguel; 6) a evacuação da criança da Graciosa veio a concretizar-se na madrugada seguinte; 7) tudo isto aconteceu na noite de 2 para 3 de fevereiro de 2017; 8) a 27 de fevereiro de 2017 a médica reguladora enviou ao Presidente da Proteção Civil uma carta denunciando o caso das interferências/pressões na sua decisão; 9) a 10 de março a Proteção Civil remeteu o assunto para a Secretaria Regional da Saúde para parecer jurídico e propondo a realização de um inquérito; 10) a Direção Regional de Saúde entendeu não ser necessário um inquérito porque as situações clínicas foram resolvidas em tempo; 11) o Secretário Regional da Saúde, que tem no seu Gabinete um familiar da Presidente do Hospital de Angra, decidiu não avançar com o inquérito; 12) em Agosto de 2018, o jornal Diário dos Açores denunciou toda esta situação, desde as interferências na decisão das evacuações à recusa do secretário em avançar com o inquérito e às relações familiares entre vários dos envolvidos; 13) na sequência dessa denúncia, o Presidente do Governo mandou realizar um inquérito, que foi agora tornado público, e que comprova todos os factos apresentados pelo jornal Diário dos Açores.
Num lugar normal, mal se confirmasse que a denúncia era verdadeira, nenhum dos implicados permaneceria no seu posto. Aqui, nos Açores, não é assim. Ninguem é responsável e ninguém se demitiu nem foi demitido por causa destes factos.
O próprio despacho de Vasco Cordeiro sobre o inquérito que mandou realizar um ano depois, e a reboque das denúncias do jornal, é eloquente: ninguém é responsável por nada; tudo aconteceu e foi assim porque a cadeia de comando não era clara e há aspetos organizativos a melhorar!!!
Como escreveu o insuspeito Osvaldo Cabral “este caso é revelador da podridão que se vive em muitos organismos públicos da nossa governação, onde imperam as influências, as famílias, os amigos, deixando os cidadãos anónimos à sua sorte”; e remata: “ o clima de protecionismo e de sensação de impunidade que se vive nalguns organismos públicos (…) revolta qualquer cidadão.”
Este polvo tentacular que se apossou da Administração Pública açoriana pensa e permite-se agir como se fosse dono dos Açores.
Estes boys e girls, submissos ao poder, vivendo sempre na sua sombra, alimentando-se dele e alimentando-o, intolerantes à crítica e avessos à denúncia, julgam-se os DDT: os Donos Disto Tudo!
E sabem, como se tem verificado, que estão sempre protegidos pelo poder que servem.
Enquanto o Povo assim quiser… 

15.10.2018

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