Diogo Ávila tem 21 anos, é natural da freguesia de Castelo Branco, no Faial, e é uma das promessas do atletismo açoriano. Desde muito cedo que pratica Atletismo. É nos 3.000 metros obstáculos que se tem vindo a afirmar no panorama nacional.
Nos últimos três anos alcançou quatro pódios nacionais, mas foi em 2025 que deu o salto decisivo na sua carreira, ao bater recordes pessoais em todas as distâncias e alcançando dois pódios nacionais, um deles no campeonato de Portugal.
O maior feito de Diogo na época anterior foi a obtenção da marca de qualificação para o campeonato da Europa Sub-23 e a consequente participação nesta competição internacional, onde representou Portugal.
Este ano Diogo abriu a temporada da melhor forma possível, ao ganhar o Meeting Internacional a Mário Moniz Pereira, onde registou a 4.ª melhor marca de sempre nesta distância e sagrou-se campeão nacional nos 1500m.
Nesta entrevista ao Tribuna das Ilhas, Diogo Ávila fala do percurso feito, das dificuldades enfrentadas, das conquistas alcançadas e dos objetivos futuros, revelando também o lado mais pessoal de um atleta que sonha chegar aos Jogos Olímpicos.
Tribuna das Ilhas (TI) – Que desportos para além do atletismo já praticou?
Diogo Ávila (D.Á.) – Joguei futebol no Futebol Clube Flamengos durante uma longa parte da minha carreira, desde benjamim ao primeiro ano de Júnior. Também pratiquei voleibol no Castelo Branco Sport Clube.
TI – Como começou o Atletismo e em que momento percebeu o seu potencial?
D.Á. – O atletismo está desde sempre na minha vida. Desde que me lembro de existir que o desporto faz parte do meu dia a dia, mas foi graças aos meus irmãos e meus primos que praticavam todos esta modalidade que eu comecei. Com cinco anos lembro-me de querer ir atrás deles para os treinos. Sempre senti que era melhor neste desporto do que nos outros, porque ganhava as corridas, nomeadamente a corrida de Natal que na altura era o auge da modalidade no Faial. Vinham atletas da ilha toda e quando ganhava pensava para mim: “epha yha, sou bom nisto se calhar, melhor do que no futebol e do que nos outros desportos”. Com o passar dos anos e com a evolução natural, as coisas começaram a melhorar.
TI – Quais as maiores dificuldades encontradas e como as ultrapassou?
D.Á. – As maiores dificuldades foram internas, foram em encontrar motivação. Nunca fui focado a 100%, mas nesta época tudo mudou. Consegui ficar louco pelo atletismo e assim maximizar o meu desempenho. Essa falta de motivação devia-se também com a falta de condições que sempre encontrei na ilha. Sempre enfrentei dificuldades quer financeiras, quer de material. Foi graças aos meus pais que cheguei onde hoje estou. Eles acreditaram em mim, e suportaram os custos para poder treinar no continente, num ambiente competitivo favorável. Foi também graças a eles que consegui fazer o estágio altitude que mudou completamente o meu desempenho.
TI – Como foi conciliar um curso superior com a vida desportiva? Em algum momento pensou em desistir?
D.Á. – Algo me dizia que tinha de ir para o Porto estudar, ir para a Maia, pela tradição que este local tem no meio fundo. No entanto fui para fora sobretudo para estudar e não para treinar, portanto o estudo era o foco principal. Tive a sorte de encontrar um bom grupo de treino e um bom treinador. Claro que pensei em desistir. Quando acabei a época passada cheguei ao fim de rastos. Conciliar um estágio com a vida desportiva foi quase impossível e muitas vezes não tinha tempo para treinar. Na última prova do ano, o campeonato nacional acabei em penúltimo lugar, fiquei completamente arrasado psicologicamente e fisicamente. Disse para mim mesmo: “Diogo, ou isto acaba aqui e torna-se mais uma maneira de ser divertido, ou pelo contrário, fica mais a sério. Foi aí que decidi que não queria ser “e um se”, porque muita gente quer no Faial, quer no Porto diziam que eu tinha muito potencial. Eu não queria pensar daqui a uns anos se eu tivesse trabalhado mais será que tinha conseguido! Também como não sou de desistir, fui à luta.
TI – Como é a rotina de um dia típico de treino?
D.Á. – Durante o meu estágio, em Front-Romeu, acordava por volta das 8:30, tomava um pequeno-almoço reforçado. Às 9:30 começava o treino. Este era normalmente o mais importante e terminava pelas 11h. Depois do almoço, dormíamos uma sesta porque ainda havia mais duas sessões de treino no dia. Dormia 1 hora e ia para o ginásio fazer uma sessão de força. Voltava ao alojamento antes de começar a última sessão do dia que terminava pelas 18:30. Jantava e ficava a conviver com o pessoal até às 11 da noite, que era a hora para dormir já que no dia seguinte repetia-se o processo.
TI – Tem alguma rotina pré competitiva? Como lida com a pressão?
D.Á. – Antes das provas apenas tento deitar-me mais cedo e reforçar o número de hidratos. Não sou nada supersticioso e regra geral não fico nervoso antes das provas. Só quando já estou a acabar o aquecimento e a entrar na pista é que sinto um nervosismo, mas quando se dá o tiro desaparece tudo. Considero que sou um atleta que lida muito bem com a pressão.
TI – Porquê os 3000 metros obstáculos?
D.Á. – Aconselharam-me. Eu sou alto e corro muito em força o que me faz beneficiar desta prova. Na altura em que comecei, também a obtenção de medalha nesta competição era mais acessível, agora o nível tem vindo a subir.
TI – Qual a grande diferença entre uma prova internacional e uma nacional?
D.Á. – É tudo! Lembro-me de correr no Europeu e depois os Campeonatos de Portugal e é tudo diferente. A organização, as regras, entrava e não podia usar telemóvel, não podia estar com auscultadores. É tudo muito certinho, havia duas câmaras de chamada. Nota-se toda a diferença desde o aquecimento até arrumar os bicos. A pressão de estar a representar um País, comparativamente à de representar um clube é a principal diferença.
TI – Qual é a sensação de pisar num grande palco internacional?
D.Á. – Como disse na minha entrevista para a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) a seguir à prova, é incrível. Estás a correr no maior palco de Sub-23, contra os melhores da atualidade, é incrível. Fico sem palavras para descrever o que senti.
TI – Tem algum ídolo?
D.Á. – Usain Bolt. Por tudo aquilo que ele representa para este desporto. E Cristiano Ronaldo por ser o monstro da motivação.
TI – Uma frase que carrega para a vida?
D.Á. – Simplicidade. Essa é a palavra que rege a minha vida. Nos maus momentos da vida temos de ser simples, no nosso auge também temos de privilegiar a simplicidade.
TI – Como ocupa os seus tempos livres?
D.Á. – Gosto muito de estar com os meus amigos, conviver e socializar. Às vezes também gosto de beber umas cervejas, que é um dos meus pontos fracos. Gosto de festejar. De resto também ajudo o meu pai a trabalhar na pecuária. Devo-lhe muito por isso também gosto de ajudá-lo
TI – Quais os maiores sacrifícios que precisa fazer para alcançar este nível?
D.Á. – Quando estamos na fase importante de treino, temos de prescindir de muitas coisas, das tais socializações e convivências com amigos. Não posso tocar em álcool. E a nível psicológico é muito duro. O maior sacrifício que posso enumerar é estar longe de casa, da minha família, amigos e das pessoas que eu mais amo. No Faial não tenho nem as condições nem a motivação necessária para estar a este nível. Além disso, tenho mais distrações. No continente estou para treinar e é para treinar.
TI – Quais os objetivos futuros e qual o seu maior sonho?
D.Á. – Estou a treinar e a viver no Centro de Alto Rendimento do Jamor, com o plano de Alto da Rendimento da FPA. Com estas condições claro que ambiciono mais e tenho altas expectativas. Com um grande treinador e grupo de treino estou a respirar 100% atletismo e a viver o meu maior sonho. Os sonhos mudam, se o meu maior sonho há um ano era representar Portugal, nesta época espero fazer o Mínimo de Esperança Olímpica e fazer mais pódios nacionais. A longo prazo, como qualquer atleta o sonho é alcançar os Jogos Olímpicos.
TI – Sente, que os Jogos Olímpicos são uma possibilidade?
D.Á. – Algo dentro de mim diz que sim. Depois desta época em que era impossível ter sido melhor, aquele bichinho que como disse atrás, está inerente a qualquer atleta e vive dentro de mim.
TI – Tem algo a acrescentar?
D.Á. – Desde sempre tinha e meti na minha cabeça que ia estar presente no Europeu, era agora ou nunca. Foi mais mental do que físico. Todas as minhas forças foram colocadas neste objetivo. Quando todos duvidaram, incluindo eu mesmo, tive de ser resiliente. Só consegui chegar aqui com o apoio dos meus pais, família, amigos mais próximos, treinador e colegas de treino. Foi mesmo especial como todos viveram isso à minha volta. Quando tudo começou a tornar-se real a energia que eles transmitiram e colocaram em mim foi fantástica. A minha família foi toda ao nacional em que me apurei para o Europeu, com camisas de apoio, e inclusive a Federação até fez um vídeo deste episódio. Um agradecimento especial aos meus pais, sem eles nada disto seria possível. Quando eu fui ao estágio que foi fundamental para a ida ao Europeu, liguei ao meu pai e ele, mesmo não estando muito por dentro do assunto, disponibilizou-se para arcar com as despesas do estágio. O esforço e as palavras, que apesar de simples, a tal simplicidade de que falei, significaram tudo e até hoje me lembro delas.
















