Dr. Humberto dos Santos Freitas, destacado médico-cirurgião

0
25

Nascido a 2 de Fevereiro de 1905 na freguesia da Piedade, concelho das Lajes do Pico, o Dr. Humberto dos Santos Freitas realizou-se profissionalmente na ilha do Faial, pelo que, à semelhança de tantos outros filhos destas duas ilhas irmãs, deve ser considerado um verdadeiro cidadão do Canal.
Frequentou o Liceu da Horta de 1921 a 1926, tendo-se depois matriculado na Faculdade de Medicina de Coimbra onde concluiu o curso naquela Universidade em 1932. Veio logo para o Faial exercer a sua profissão, no que foi bastante apoiado pelo já famoso e abalizado colega Dr. Manuel Francisco Neves Júnior. Este anúncio de 1933 – que aqui reproduzimos e que foi publicado variadíssimas vezes no jornal “Correio da Horta” – dá-nos uma ideia do que era a vida naqueles tempos, incluindo a prática da medicina: “Dr. Humberto Santos Freitas/ Médico-Cirurgião/ Clínica Geral/Análises bacteriológicas/ Consultas todos os dias das 9 às 14 no consultório do Exmo. Sr. Dr. Neves Jr. em Sant’Ana/ Chamadas a qualquer hora/Residência, Rua Advogado João José da Graça,26 1.
Ainda naquele ano foi nomeado facultativo municipal e professor do Liceu da Horta (aí leccionou Higiene, Educação Física, Francês, Geografia e Física), e desenvolveu intensa actividade clínica, regularmente noticiada pela imprensa local, sobretudo pelo mencionado “Correio da Horta”, que tinha como director seu cunhado, professor Constantino Magno do Amaral Jr., adepto fervoroso e incondicional do Dr. Neves.
Os anos 30 do século XX, em que a Ditadura instaurada em 1926 deu lugar em 1933 ao Estado Novo, ficaram marcados, no distrito da Horta, por intensas rivalidades entre dois grupos políticos que, embora se proclamassem fervorosos adeptos da União Nacional e do Dr. Oliveira Salazar, seu consagrado líder, se digladiavam com uma intensidade deveras assombrosa. Esses dois grupos alternavam-se no poder, chegando inclusive a partilhá-lo, mas sem jamais abdicarem de um constante extremar de posições que mereciam apoios alternados dos sucessivos governadores civis do distrito e dos ministros do Interior. Ora, quando o Dr. Santos começou a sua vida profissional, era o Dr. Neves o principal líder político distrital que, de imediato, aliciou o Dr. Santos para integrar aquela organização política, já então a única legalmente permitida. É assim que, em Maio de 1933, o governador civil Dr. José Malheiro Cardoso conferiu posse à comissão distrital da União Nacional, assim composta: Dr. Neves, presidente; Dr. Raposo de Oliveira, vice-presidente; vogais: Humberto da Cunha Correia, Dr. Humberto dos Santos Freitas, José Rodrigues do Amaral, Osório Goulart e tenente Alfredo Sampaio. Sempre presente, ao longo dos anos, nos órgãos directivos da União Nacional e da sucessora Acção Nacional Popular, de que foi presidente por largo tempo, o Dr. Santos ter-se-á mantido nestes cargos políticos “mais para satisfazer velhas amizades” do que por ambição própria, até porque “jamais se propôs para qualquer representação distrital, que a tinha garantida se o quisesse” 2.
Voltemos, porém, a 1933 e à actividade profissional em que o Dr. Santos inteiramente se empenhava. Em Abril foi nomeado médico municipal interino, passando à efectividade de funções em 12 de Julho do mesmo ano. Por dever desse cargo e amor à sua nobre profissão, depressa e com regular frequência, percorria a ilha inteira, contando-se em algumas centenas por mês as consultas dadas aos doentes pobres do Faial, observados por ele nas sacristias das igrejas, nos impérios ou, em circunstâncias mais graves, nas próprias casas.
Facultativo municipal e médico no Hospital da Santa Casa da Misericórdia, o Dr. Santos logo se revelou apreciado cirurgião. São frequentemente noticiadas as operações cirúrgicas por ele realizadas, quer no “consultório de Sant’Ana”, quer no Hospital, normalmente tendo o Dr. Neves e também o Dr. António Terra como “auxiliares” ou como anestesistas (ao “clorofórmio”, como então se escrevia). A outra equipa cirúrgica era, normalmente, composta pelos Drs. Campos de Medeiros, Freitas Pimentel e José Estêvão da Silva Azevedo. Tal como nas notícias respeitantes às duas facções existentes na União Nacional da Horta, as cirurgias da equipa a que pertencia o Dr. Santos mereciam constante relevo no jornal “Correio da Horta”, ao passo que as da equipa do Dr. Campos e Dr. Freitas Pimentel recebiam privilegiado acolhimento em “O Telégrafo”.
Coube ao Dr. Santos o mérito de fazer a primeira transfusão de sangue no Faial. Ocorreu esse facto no dia 6 de Junho de 1934, tendo ele utilizado o “aparelho há pouco adquirido pelo Hospital da Santa Casa da Misericórdia da Horta”, sendo paciente uma senhora da freguesia dos Flamengos e dadores os “srs. dr. António Terra e enfermeiro Serpa” . Foi também ele “o primeiro, e, na altura, o único cirurgião faialense a operar o estômago” 4.
Médico de clínica geral e cirurgião de reconhecidos méritos, o Dr. Santos exerceu, cumulativa ou sucessivamente, as funções de facultativo municipal, director clínico do Hospital Walter Bensaúde, Delegado de Saúde e, finalmente, a partir de 1967 após a aposentação do Dr. Campos, Inspector de Saúde do Distrito da Horta.
Apesar de uma vida intensa de trabalho e dedicação aos outros, o Dr. Santos não se furtou com o concurso do seu entusiasmo a colaborar nas actividades cívicas para que foi solicitado, fossem elas políticas, humanitárias, económicas ou desportivas. Assim, e em vários anos, encontramo-lo, quer como dirigente da União Nacional e Acção Nacional Popular, quer como presidente da Direcção da Associação Faialense dos Bombeiros Voluntários, da Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial, da Sociedade Açoreana de Transportes Marítimos, do Sporting Club da Horta e Delegado da Direcção Geral dos Desportos no Distrito. Dedicou-se também à criação de gado “recuperando os matos que haviam sido do Dr. Neves e muito contribuindo para essa explosão da agro-pecuária verificada no Faial”5 .
Muito considerado pela sua competência médica e pelo muito que deu em prol do seu semelhante, o Dr. Santos era – assim o define em extenso e reconhecido testemunho um seu paciente – “um santo homem”6.
Vitimado por um ataque cardíaco, faleceu a 4 de Dezembro de 1975.
Por proposta da Assembleia de Freguesia da Matriz, a Câmara Municipal deliberou, em reunião ordinária de 22 de Janeiro de 2004, atribuir o nome de “Rua Doutor Humberto dos Santos Freitas” a uma artéria da cidade da Horta, perpetuando assim a figura e a obra daquele distinto médico-cirurgião.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1Correio da Horta,24 Fevereiro 1933
2Júlio Andrade, Correio da Horta, 26 Dezembro 1975
3Correio da Horta, 7 Junho 1934
4Armando Amaral, in O Telégrafo 3 Maio 1987
5Idem, Ibidem
6 Vd. A. Terra Garcia, O Telégrafo 14 Junho 1987

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO