Colégio dos Jesuítas e Igreja Matriz da Horta

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O monumental conjunto arquitectónico que define a zona mais nobre da cidade da Horta, composto pelo Colégio e Igreja dos Jesuítas (actual Matriz), começou a ser construído no século XVII pelos discípulos de Santo Inácio de Loiola, apoiados na iniciativa e larga benemerência de Francisco de Utra de Quadros, então capitão-mor do Faial, e de sua esposa D. Isabel da Silveira.
Em testamento começado em 1644 e concluído a 10 de Junho de 1648 – poucos meses antes do seu falecimento em 25 de Novembro desse ano – Francisco de Utra de Quadros deixou muitos e valiosos bens para a fundação de um colégio da Companhia de Jesus, os quais abrangiam terras na ilha do Faial: nas Angústias (junto da capela de Santa Bárbara), na Feteira e em Castelo Branco num total de 678 alqueires; na ilha do Pico: terrenos na Madalena, Criação Velha, Candelária e São Mateus que, partindo do mar “até fazerem fim na mais alta pedra do Pico” atingiam um total de 2.630 braças, além de 55 alqueires de vinha plantada na freguesia da Madalena1 . A dotação envolvia ainda o solar dos Utra, constituído por “um assento de casas sobradadas, salas e câmaras e ante-câmaras e três câmaras e cozinha e granel, altos e baixos, com seu poço de água e com seu pomar de árvores para trás, com mais terra lavradia, tapada toda à roda, que todo será com o dito assento quinze alqueires pouco mais ou menos, sito tudo nesta dita vila, donde ele dotador vive, livres, sem pensão alguma, da parte do norte rua pública [actual rua Major Ávila] e do sul com terra dele doador [actual rua Melo e Simas ou do Livramento] do leste com rua pública [actual largo Duque de Ávila e Bolama] e do oeste com caminho que vai para a Feteira” 2[actual rua Médico Avelar]. Foi ali, neste vastíssimo solar, que os inacianos ergueram, ao longo dos anos, o imponente conjunto arquitectónico ainda hoje existente.
O capitão Francisco de Utra de Quadros faleceu em 1648 e logo, no ano imediato, dois padres da Companhia de Jesus deslocaram-se de Angra à Horta para tomarem posse dos bens e diligenciarem a fundação do futuro colégio, aproveitando, para isso, as instalações do antigo solar da família Utra, onde improvisaram uma pequena capela para o serviço interno, decorrendo os actos públicos na igreja da Misericórdia. A 21 de Outubro de 1652, deu-se o lançamento da primeira pedra do futuro templo e tiveram início a aulas de latim e de casos de consciência, ficando a residir no Faial os padres Lourenço Rebelo (como superior), Domingos Lousado, António Álvaro e André Mota. Os rápidos progressos feitos no Colégio do Faial, levaram os jesuítas à instituição, em 1653, da irmandade de São Francisco Xavier, ao incremento do ensino e à evangelização dos cristãos das ilhas do Canal, percorrendo todas freguesias e exortando-os à conversão, à penitência e à prática das boas obras.
Entretanto, os trabalhos de levantamento da igreja (inicialmente consagrada, por expressa vontade testamentária do fundador a Nossa Senhora dos Prazeres, cuja imagem ainda hoje lá se encontra por cima do arco triunfal da capela-mor) só começaram em 1680 e, mercê de avultadas doações – que complementaram e aumentaram a dotação de mil cruzados do fundador para a capela-mor – foram avançando, existindo informações de outros importantes contributos, como o de 1686 do padre João Álvares de Medeiros para a capela de São Pedro (aí estão os seus restos mortais e dos seus pais), o de 1697 do capitão António Machado de Lima e sua mulher D. Maria Bettencourt para a capela de Nossa Senhora da Conceição (desta só resta a lápide a assinalar o túmulo) e o de 1703, do padre Francisco Alves de Serpa instituindo a capela de Nossa Senhora da Boa Morte, onde foi igualmente sepultado). As obras da igreja entraram pelo século XVIII não se encontrando concluída quando os jesuítas se viram forçados a sair do Faial por prepotente decisão do Marquês de Pombal. Nesse século e nos dois subsequentes várias e profundas foram as obras de restauro e de consolidação daquele majestoso templo.
O mesmo se diga do edifício do Colégio, cuja edificação se iniciou mais tarde, com o lançamento da primeira pedra em 17 de Abril de 1719. Este amplo edifício, numa dimensão excepcional e admirável para a sua (e nossa) época, apresenta-se dotado com duas extensas alas: a colegial, no lado sul da igreja que hoje alberga o Museu Regional, e a conventual, a norte, onde funciona a Câmara Municipal.
Desde a expulsão dos jesuítas em 1 de Agosto de 1760, a chamada Igreja do Colégio esteve ao abandono só passando a Igreja Matriz do Santíssimo Salvador em 20 de Outubro de 1825 quando se deu a transladação da Matriz velha (localizada no chamado Largo do Relógio) que se encontrava totalmente destruída.
Ela é o elemento mais importante e essencial de todo aquele complexo, com uma “fachada de quatro pisos, divididos verticalmente em três partes separadas por pilastras lisas: uma central, correspondente à nave, e duas laterais, formadas pelas torres sineiras, correspondendo à profundidade das capelas laterais e dos braços do falso transepto” destacando-se, “a dividir o terceiro do quarto piso, uma cornija de grandes dimensões”, enquanto os restantes pisos são separados por cornijas de diferentes formas e dimensões. Igreja de planta rectangular e uma das mais amplas dos Açores, é de uma só nave, “com três capelas intercomunicantes de cada lado e falso transepto, sendo as correspondentes coberturas – bem como a da capela-mor – em abóbada de canhão, sendo lisa a primeira e as restantes de caixotões formados por nervuras em cantaria” 3.
A capela-mor apresenta um imponente altar de talha dourada, estando as paredes laterais revestidas por dois importantes e belos painéis de azulejos setecentistas, representando cenas da vida de Santo Inácio de Loiola e de São Francisco de Borja. Também as capelas laterais apresentam motivos decorativos, sendo mais notáveis os retábulos de talha dourada da capela de Nossa Senhora da Assunção ou da Boa Morte e as duas bonitas telas representando a morte e a ascensão da Virgem Maria. Tanto na capela-mor, como nas capelas laterais e outras dependências (como na recentemente instituída “Sala do Tesouro”), podem apreciar-se variadas peças escultóricas, bem como alfaias e outras preciosidades de culto litúrgico, desde ricas custódias até à bonita estante giratória com embutidos de marfim representando cenas do Evangelho, passando pelo extraordinário arcaz de jacarandá da sacristia.
Completam este grandioso templo o coro-alto, as galerias e as tribunas com janelas de sacada, bem como dois púlpitos ricamente decorados e a capela do Santíssimo Sacramento inaugurada em 1871 e devidamente restaurada em 1991-92. Acrescente-se ainda um valioso e secular Arquivo que, recentemente, serviu de suporte bibliográfico para uma tese de doutoramento.
Ao longo da sua existência a igreja e o colégio sofreram transformações várias, umas derivadas da incúria dos homens e outras resultantes das cíclicas crises sísmicas que assolam os Açores. O destruidor terramoto de 1926 abalou bastante aquele majestoso imóvel, obrigando a demoradas e profundas obras com reforço da abóbada da nave e reconstrução do interior dos corpos anexos para melhor instalação dos vários serviços administrativos então lá existentes.
A igreja, restaurada em 1930, resistiu a outros abalos – lembramos os ocorridos em 1957-58, 1964, 1973 e 1980 – mas a sua solidez foi diminuindo de tal modo que tornou imperiosas as profundas obras de consolidação e restauro que decorreram nos anos 1991-1992 e que tiveram total apoio do Governo Regional e da Comunidade Europeia, através do programa PNIC-Açores.
Esteve encerrada durante 20 meses, período em que serviu de paroquial e de Matriz da ilha a igreja de São Francisco, tendo sido reaberta em solene eucaristia e dedicação do altar no domingo 13 de Setembro de 1992 sob a presidência do Bispo de Angra, D. Aurélio Granada Escudeiro. As obras realizadas, que ascenderam à vultuosa quantia de meio milhão de contos – assinalava então o semanário da Ouvidoria da Horta – “não se limitaram a reparar as mazelas de há muito notadas no edifício. Envolveram também a reposição ao serviço de sectores que assim voltaram à funcionalidade inicialmente prevista; envolveram o alargamento da capacidade de acção do conjunto paroquial com novas salas para reuniões e encontros, bem como um espaço destinado à exposição de peças de arte propriedade da Matriz” Elas possibilitaram ainda “cuidada adaptação e louvável actualização litúrgica, já na colocação do altar, que assumiu com dignidade acrescida a função central que lhe cumpre exercer nas celebrações, já na guarda do Santíssimo Sacramento em lugar sumamente reverente e calculadamente recuperado, já na aplicação ao ministério penitencial dum espaço para isso aptamente enquadrado”. Essas obras de reparação e reconstrução “eram tidas por necessárias há dezenas de anos e chegaram a assumir categoria urgente, a prevenir possível catástrofe de efeitos incalculáveis” 4, o que se veio a constatar seis anos depois pela forma segura como resistiu ao violento e destruidor sismo de 1998.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1 Vd. Carita, Rui – O Colégio Jesuíta de São Francisco Xavier no Faial, in “O Faial e a Periferia Açoriana nos Sécs. XV a XX, Horta, 1998, p. 129
2 Lima, Marcelino – Anais do Município da Horta, 1943, p. 211
3 Inventário do Património Imóvel dos Açores, Ficha n.º 162, Horta Faial – Angra 2003, p. 261
4 Vigília, 19 Setembro 1992

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