Escrevo a crónica de hoje a sul do equador depois de uma noite inteira a voar num pássaro metálico de zumbido sónico e asas prateadas. A ave mecânica largou-me aqui e cá estou prestes a embarcar numa viagem de mais de mil quilómetros, agora por terra, que me levará ainda mais a sul até ao lugar onde preciso ir e que é, em África, o meu lugar. Ou talvez o mais correto será dizer que eu é que sou desse lugar pois com o passar dos anos me vou apercebendo que na verdade os lugares nunca são nossos, nós é que somos deles. E podemos ser de vários lugares conforme eles se apoderem de nós e se entranhem na nossa alma que, na sua singularidade, é coisa plural e sem geografia pré-definida. A alma não se resume nem pode ser reduzida ao lugar onde se nasceu, curiosamente estou agora em “trânsito” numa grande metrópole africana, aquela onde por sinal nasci mas que, paradoxalmente, já não sei se é minha ou mesmo se serei eu dela. O que vejo faz-me sentir estranho, quase estrangeiro, aqui e ali encontro pedaços dispersos de mim, das memórias que aqui deixei, mas não me revejo nesta Luanda, estou de passagem e a minha alma já não mora aqui. Mais a Sul, sempre mais a Sul, é lá que esta alma montou residência no continente berço da humanidade, em montanhas e maciços rochosos nas franjas do mais antigo deserto do mundo. Não sei explicar porquê, quem pode perceber os caprichos da alma e os seus insondáveis mistérios. Só sei que é assim. Penso naqueles pássaros de verdade, orgânicos e migrantes, que também voam milhares de quilómetros em viagens transcontinentais. Será que é a alma que os guia? Serão eles do ponto de partida ou do lugar onde chegam? E como definir um e outro quando a chegada de hoje é o ponto de partida amanhã? Quem sabe esses pássaros, como eu, têm a alma espalhada por latitudes diversas. Na fragilidade das suas penas e cartilagens atravessam o mundo e mesmo cansados não deixam de voar sempre em direção ao seu destino, também com bilhete de ida e volta.
Sinto a cabeça a aquecer, tomo mais um banho de água fria para atenuar os efeitos dos mosquitos e desta humidade que com o calor dos trópicos me deixa o corpo melado em constante transpiração e a pele com uma tonalidade avermelhada que não sei bem se é febre ou da poeira ocre que se cola a mim nas ruas de terra batida, sou do povo da terra vermelha, nesta Babilónia de cimento e chapas de zinco onde não se percebem árvores ou horizontes. Se há outra Luanda daqui não se vê. Felizmente tenho um tanque com um pouco de água mas o bairro está sem luz e em geral envolto numa escuridão densa só quebrada pelas luzes num ou noutro quintal a custo de uma cacofonia ensurdecedora de sons mecânicos, são motores, máquinas, geradores para substituir a eletricidade da rede pública que teima em não dar sinal de si. Olho para a rua, a terra batida, a poeira, o lixo, a criança que passa descalça e suja carregando um balde de água, a mulher de panos velhos e gastos transportando na cabeça uma bacia com bananas para vender, o homem embriagado caído na esquina esquecido de si, imagino as casas mas não as vejo por detrás dos altos muros encimados por rolos de arame farpado. Os moradores desta Luanda parecem-me prisioneiros dentro das suas próprias casas, literalmente rodeados de muros, grades e correntes. O ambiente lá fora, no espaço público, é hostil e não se recomenda dizem-me. Resigno-me a esta provisória prisão domiciliária, de madrugada ao nascer do sol faço-me à estrada, para fora, para sul. Até lá espero em silêncio na penumbra e lembro-me da ilha no meio do Atlântico, dos muros que ali não tenho e da porta de casa que sempre fica aberta, sem trancas ou ferrolhos, aproveito ter rede telefónica para comunicar com a família em casa lá longe no Faial, tranquiliza-me sabê-los ali. Alegro-me com a voz dos meus filhos, da minha companheira, lá tudo está bem, normal. E por ai? Perguntam eles. “Normal também”, respondo eu sem deixar entender que o normal aqui é esta anormalidade. Não é sequer uma realidade nova para mim, simplesmente permanece imutável ou talvez se tenha mesmo afirmado um pouco mais na miséria humana, o que é novo será então a outra normalidade que se vive nas ilhas. Percebi as diferenças e talvez por isso o contraste se desenha bruto na consciência como uma pintura rupestre. Apaziguado com o telefonema tento descansar um pouco, procuro refugio no sofá coberto por um lençol, e dou por mim a pensar se estas pulsões da alma que nos levam à viagem não servirão simplesmente para isso, para viajar. Para perceber os contrastes, as diferentes realidades, não apenas entre o ponto de partida e o ponto de chegada, mas principalmente o percurso em si. O que mais importa não será tanto para onde vamos mas a estrada que nos leva lá, o que vivemos e aprendemos no caminho. Se bem me lembro depois de atravessar a ponte sobre o rio Longa já se respira outro ar…












