Em tempo de recolhimento

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Sei que se pudesse ou viesse, eventualmente, a escrever sobre a nossa realidade comum, não acrescentaria nada ao que já se sabe. Ao que, na generalidade, as pessoas sabem. Humildemente, reconheço que me falta a profundidade de uma visão de futuro; do que ainda não é e do que virá ou poderá vir a ser a nossa existência partilhada. Uma coisa eu sei: a retórica que conhecemos é insuficiente para traduzir os desafios que teremos de enfrentar- individual e coletivamente. Para além destas generalidades, a evidência de que na nossa ilha estamos todos bem. Felizmente. As decisões políticas tomadas pelo Governo Regional foram corretas; só temos de cumprir as orientações das autoridades de saúde e esperar pelo tempo novo, para que possamos novamente beber um copo de vinho com os nossos amigos, saudar a vida e abraçar-nos.

 

O medo circula na sombra, tem nome
dissemina-se no ar, no rosto, nas mãos,
no côncavo da boca, finca as mandíbulas
na carne vulnerável e assombrada.

O planeta é agora em absoluto recolhimento
convertido às paisagens interiores, cercado
de sombras, ecos de sombras que atravessam
as paredes das casas.

E, no entanto, há a urgência primaveril
da floração das urzes, das giestas, das cerejeiras
a urgência dos frutos por colher, dos solos
à espera das sementes, das aves pelo amanhecer.

Há uma urgência em sair à rua e abraçar
sussurrar palavras novas, inventadas,
inusitadas, palavras amigas, palavras de amor
passá-las de mão a mão, de boca a boca.

Por essa razão, a humanidade canta à janela
e na varanda das casas acendem velas às estrelas
nos telhados, violinos e pianos enchem de música
o dia luzente e vão onde as palavras não chegam.

E arco-íris tem a imprevisível ressonância
de um abraço universal.

Maria do Céu Brito

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