1. Já bastas vezes tenho escrito e defendido que a construção da unidade político-administrativa dos Açores tem de se fazer com base na solidariedade partilhada no crescimento e nas dificuldades. Assegurar o desenvolvimento económico e social dos Açores, a concretização do crescimento integral e harmonioso de todas as ilhas, respeitar os seus ritmos próprios, assumir como objetivo da prática política a justiça e a equidade no direito ao desenvolvimento e ao progresso, tudo isto, mais do que reivindicações do tempo presente, são questões fulcrais para a sobrevivência da Autonomia regional.
E não tenho dúvidas de que esta Autonomia só terá futuro enquanto nela todas as ilhas se sentirem tratadas com justiça e equidade. Por isso, governar os Açores também é respeitar essa realidade única e inultrapassável de que a nossa riqueza reside na nossa diversidade, que cada ilha é um mundo de igual dignidade e que a harmonia se faz de investimento repartido, complementar e solidário.
Infelizmente, hoje, os erros, as omissões e as opções políticas, cada vez mais determinadas por interesses eleitoralistas, corroeram a confiança dos cidadãos e ameaçam a unidade regional. A prática governativa dos últimos anos aprofundou as divergências de crescimento e de oportunidade de desenvolvimento entre as várias ilhas, acentuou clivagens e não resolveu nem atenuou (antes aprofundou) o esvaziamento populacional da maioria das ilhas.
2. Este falhanço histórico e indiscutível tem um responsável: o Partido Socialista que, nestes últimos 20 anos, dispôs de sucessivas maiorias absolutas para governar os Açores.
Embora seja verdade que a maioria dos eleitores das ilhas mais fustigadas pelo abandono e pelo atraso no desenvolvimento, Faial incluído, têm, repetida e incompreensivelmente, em sucessivos atos eleitorais, renovado o seu apoio a quem os tem deixado para trás, não é menos verdade que aqueles que se têm afastado deste caminho (através do voto ou da abstenção) são uma maioria que deve ter voz. Em seu nome e pela mais elementar justiça desta causa nunca me silenciei, nem me silenciarei!
3. Quem também tomou posição, no passado dia 23 de maio, foi a Câmara de Comércio e Indústria da Horta. O conteúdo do comunicado, difundido em conferência de imprensa, é bem ilustrativo e revelador do que atrás dissemos.
Diz a CCIH que se “os dados do Instituto Nacional de Estatística sobre o Turismo referentes ao 1º trimestre de 2016” apontam para “o crescimento de 60% nas dormidas nos Açores”, a verdade é que este valor não “é real e verdadeiro para a generalidade dos Açores”, pois se a ilha de S. Miguel cresce 59,9% e a Terceira cresce 141,9%, a ilha das Flores cai 33,8%, o Corvo cai 11,4%, o Faial cai 9,4%, o Pico cai 8,9% e S. Jorge diminui 5,6%.
A conclusão é a Câmara de Comércio que a tira: estes “são números muito preocupantes, que a restante Região procura branquear e fazer esquecer face à euforia que alguns vivem, e que atestam claramente que o novo paradigma da liberalização dos Transportes Aéreos na Região Autónoma dos Açores ainda não chegou a todas as ilhas.” E acrescenta: “Também temos camas, carros e mesas para ocupar, e que continuam à espera de um futuro com melhores dias. Até quando?”
Dizem os nossos empresários que “não podemos aceitar, e não aceitamos esta realidade.
Os empresários destas cinco ilhas, continuam a não fazer parte das prioridades de atuação do Governo Regional, da Secretaria Regional do Turismo e Transportes, e da SATA.
Os empresários destas cinco ilhas não podem continuar a gerir a sua atividade sem lucro, já que os dividendos do Verão são para tapar o buraco do Inverno.
Os empresários destas cinco ilhas reclamam a mesma atenção que o Governo Regional tem vindo, e bem, a implementar nas outras quatro ilhas da Região mais a Oriente, por forma a crescerem ao mesmo ritmo!
As cinco ilhas mais a Ocidente merecem melhores acessibilidades, não só por forma a quebrar o seu maior isolamento, como a beneficiarem também desta nova realidade de Serviço Público, com preços mais baixos, ligações mais frequentes, diversificação de rotas e com taxas de crescimento mais atrativas.”
4. Perante a força e o desassombro desta denúncia e perante as propostas concretas avançadas pelo organismo representativo dos empresários, o que respondeu o governo regional? Nada! Não se comprometeu com nada do que foi proposto!
Não se comprometeu com o “Reforço dos voos diretos a Lisboa, das gateways da Horta e Pico”; não se comprometeu com a criação de uma “nova rota para a Horta, designadamente à cidade do Porto no Verão”; não se comprometeu com a “consolidação da operação da TUI para a Ilha do Pico, aproximando-se dos 100% de ocupação”; não se comprometeu com o “lançamento para o aeroporto da Horta – à semelhança da gateway do Pico – de Operação Charter e consequente manutenção dessa operação, nos meses de inverno, nos aeroportos do Pico e do Faial, reforçando desta forma o Destino Triângulo”; não se comprometeu com “mais ligações regionais para satisfazer os reencaminhamentos por Ponta Delgada e Terceira para estas cinco ilhas e vice-versa”; não se comprometeu com a “Redução do Tarifário incomportável para quem nos visita (não residentes), que de Lisboa, facilmente atinge os 400 euros, enquanto para Ponta Delgada e Terceira existem alternativas abaixo dos 100 euros”; não se comprometeu com “Maior capacidade de carga para exportação de frescos”; não se comprometeu com a “Majoração das taxas de apoio nos incentivos aos investimentos turísticos nestas 5 ilhas, por forma a equilibrar as taxas de retorno, equivalentes às outras 4 ilhas da Região”.
Cada vez tenho mais a certeza de que no dia em que não formos capazes de conciliar o crescimento rápido de uns com o direito ao crescimento dos outros, nesse dia, que está, infelizmente e como se constata, cada vez mais perto, estaremos a rifar esta nossa Autonomia! 30.05.2016











