D. Eduina Alice da Rosa – a “minha” professora

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Filha de Manuel José da Rosa, lavrador, e de Emília Laura da Silva, doméstica, a professora Eduina Alice da Rosa nasceu a 14 de Dezembro de 1909 na freguesia de Castelo Branco, ilha do Faial.
Após a escola primária, matriculou-se no Liceu da Horta em 1923. Em plena e já decadente Primeira República, foram 26 os alunos que nesse ano se inscreveram no ensino secundário, sendo apenas quatro raparigas: Eduina Alice da Rosa, Hortense Alice Lecoq, Isaura Arminda Gomes de Vasconcelos e Valentina Olga Ramalho Coucelos. Dos rapazes, alguns viriam a destacar-se na idade adulta: Manuel Correia Gaudêncio, na música; Simão Cordeiro Machado Maciel da Silveira, na poesia; Tomás Alberto de Azevedo e Manuel Guerra do Amaral na vida empresarial e Luís Nunes Greaves no desporto e como quadro superior da companhia telegráfica “Comercial Cable Company”.
Concluídos os estudos liceais, e porque a Escola Normal da Horta havia sido extinta com a instauração da Ditadura de 28 de Maio de 1926, quem quisesse obter o curso de professor do ensino primário só tinha uma solução: frequentar a Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada que, como as suas congéneres de Lisboa, Porto, Coimbra e Braga, fora instituída em 1930 (decreto n.º 18.646, de 19 de Julho). Decidida e, naturalmente, enfrentando as dificuldades que à época se apresentavam às mulheres, a jovem Eduina Alice da Rosa rumou a Ponta Delgada e matriculou-se na Escola do Magistério lá existente. Na falta de documentos oficiais (que provavelmente foram destruídos) não é fácil estabelecer com rigor o percurso escolar que realizou até obter o diploma de professora oficial de instrução primária. Mesmo assim, e recorrendo às pequenas notícias dos jornais faialenses daquele tempo, apuramos que concluiu o curso em 1933. Assim, “O Telégrafo” de 4 de Janeiro noticiava que “a fim de fazerem exame final para o magistério primário na Escola Superior de Ponta Delgada, cujo curso ali frequentaram, seguiram no ‘Carvalho Araújo’ para aquela cidade, os estudantes srs. D. Eduina Alice da Rosa e Henrique Barreiros, naturais desta ilha”. E o “Correio da Horta”, de 21 de Fevereiro, informava que “com a honrosa classificação de 18 valores concluiu o seu curso na escola do Magistério Primário de Ponta Delgada a senhora D. Eduina Alice da Rosa, nossa patrícia”, e felicitava “ a estudiosa senhora, que vê assim, bem como seus pais e o seu extremoso irmão, nosso amigo sr. José da Rosa, coroados de tão bom êxito todos os seus esforços”.
Por deferência da filha Maria de Fátima e do genro António Braia, que zelosamente preservaram vários certificados e outras provas da vida profissional dos seus maiores, consultámos o diploma, assinado pelo Director Geral do Ministério da Instrução Pública sob um selo de 250 escudos (importância elevadíssima para a época), do Exame de Estado que Eduina Alice da Rosa concluiu em Ponta Delgada a 24 de Janeiro de 1933, tendo sido “classificada na sessão final do júri com 18 (dezoito) valores”, que confirma a veracidade das notícias da imprensa faialense.
A destruição do arquivo do ex-Distrito Escolar da Horta – onde, obviamente, estaria o processo da professora Eduina Alice da Rosa – não permite que se estabeleça com a plena certeza a sua carreira profissional. Mas, também aqui, esta falta é parcialmente (e felizmente) colmatada pelos documentos guardados por aqueles seus familiares. Um dos mais importantes é o Registo Biográfico começado em 16 de Fevereiro de 1938 e interrompido em 1949. Por ele, pelos elementos que colhemos e pelo que recordamos, temos como certo que só terá exercido a profissão em Castelo Branco, excepto seis meses em que, no ano lectivo 1938-39 esteve colocada na freguesia de São João, concelho de Lages do Pico. De resto foi professora agregada da escola feminina de Castelo Branco de 1938 a 1942, passando nesse ano ao quadro geral e sendo nomeada por portaria de 19 de Abril de 1944 professora da escola masculina da Lombega, aí se mantendo até à aposentação.
Certamente porque não quis concorrer a escolas de ilhas que não pertencessem ao distrito da Horta terá estado algum tempo sem exercer o magistério oficial, podendo residir aí a razão para só haver sido provida no quadro de professores agregados do Distrito Escolar da Horta em 28 de Janeiro de 1938, por portaria desse dia publicada no Diário do Governo.
Poucos meses depois da sua formatura, encontramo-la a participar, em 16 de Abril de 1933, na inauguração da União Recreio e Desporto (Castelo Branco Sport Club) proferindo um oportuno discurso em que focou as necessidades da educação infantil e do ensino primário. Refira-se o facto de ser a única mulher convidada a usar da palavra, pois os outros oradores foram o engenheiro agrónomo Burguette “que advogou a necessidade do desenvolvimento da agricultura e a acção combinada da teoria e da prática”; o engenheiro civil António Belisário da Fonseca Vieira que “mostrou as vantagens do desporto, seus fins e influência no aperfeiçoamento moral e social dos povos” e o professor Constantino Magno do Amaral Júnior que “versou sobre o valor das associações educativas como continuidade da acção da escola primária” ..
Decorridos dois anos, precisamente em 18 de Novembro de 1935, contraiu matrimónio, na igreja Matriz da Horta com João Miguel da Silva, tendo servido de padrinhos da noiva o médico Dr. Humberto dos Santos Freitas e esposa, professora Escolástica Isabel Nunes e do noivo o empregado comercial João de Vargas da Rosa e esposa Maria Irene da Rosa. Após a cerimónia religiosa, “na residência dos pais da noiva em Castelo Branco foi oferecido a todos os convidados um profuso copo de água” .
Desse casamento nasceriam três filhos: Maria Eduina da Silva, a 9.2.1937, Jorge Alberto da Silva, a 30.1.1948 e Maria de Fátima da Silva a 13.10.1951.
Foi em Outubro desse ano de 1951 que tive o privilégio de a conhecer e de a ter como educadora até concluir o ensino primário em 1954. Tenho pela professora D. Eduina Alice da Rosa uma enorme gratidão e dela recordo o estímulo, a dedicação e a generosidade que sempre me dispensou, ensinando-me a ler, a escrever e a contar e preparando-me, em apenas três anos, para completar as quatro classes e realizar com sucesso o exame de admissão aos liceus. Lembro que a “nossa escola”, frequentada por cerca de 40 rapazes, era uma atafona desprovida de quaisquer condições pedagógicas e higiénicas. Naquele tempo – já lá vão 65 anos – a política educativa do Estado Novo era aparentemente contraditória: desvalorização sistemática do estatuto económico do professor a quem pagava miseravelmente e, simultaneamente, promoção da dignificação da sua imagem social junto das populações. Apesar disso, a “nossa professora”, por vezes muito disciplinadora e exigente, sempre se mostrou trabalhadora, empenhada e competente, suportando com estoicismo e sacrifício o ensino de quatro classes constituídas por rapazes dos 7 aos 14 anos com diferentes níveis de aptidões e de comportamentos, forçando-a a alargar o horário diário do começo e termo das aulas.
Tenho a convicção que a freguesia de Castelo Branco muito lhe ficou a dever e que as famílias dos que foram seus alunos não esquecem o inquestionável valor e a abnegada dedicação da professora D. Eduina Alice da Rosa. Por mim, recordo-a com saudade e tenho o mais profundo respeito pela sua memória. Dela e do marido, Sr. João Miguel da Silva – que, ao longo da vida foi gráfico, motorista, comerciante, agricultor e empresário com fábrica de torrefacção e moagem de café, chicória, cevada e milho – recebi sempre a mais gratificante amizade.
O êxodo provocado pela erupção do vulcão dos Capelinhos, também atingiu esta família. Emigraram para os Estados Unidos. Em 1959, o marido e os filhos Jorge e Maria de Fátima, e ela em Março 1960, depois de obter – aos 50 anos de idade – a aposentação que requerera e de haver sido autorizada por despacho ministerial “a ausentar-se do país como emigrante” com o “fim de se juntar a seu marido” já residente na cidade de New Bedford.
Regressaram em 1970, fixando residência em Castelo Branco e dedicando-se voluntariamente a várias actividades sociais e culturais.
A professora D. Eduina Alice da Rosa faleceu na sua terra natal a 1 de Julho de 1996. Tinha 86 anos e já era viúva, pois o óbito do marido verificara-se em 20 de Setembro de 1985.
(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

1Horta Desportiva, 22 Abril 1933
2 Correio da Horta 19 Novembro 1935
3 AGCH, Caixas de Passaportes de 1959 e 1960