Estratégia política, precisa-se (II)

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1. Mesmo correndo o risco de ser excessiva, ao insistir no tema do Mar, da Ciência e da Tecnologia, não posso deixar de concluir a reflexão que iniciei a semana passada sobre este tema.
Há muito tempo que defendo que o conhecimento das potencialidades do nosso mar exige, numa primeira fase, a constituição de um centro de investigação ‘público’ e ‘internacional’. As razões são várias, mas, entre elas, destaco: – Não se pode defender o que não se conhece. Ora, o melindre dos interesses em disputa (entre a mineração e biogenética) exige conhecimentos aprofundados que permitam uma decisão política séria. Nos produtos biogenéticos, o conhecimento e a posse das patentes são factores indispensáveis, seja para a reprodução financeira, seja para a capacidade de atracção de investimento e de parcerias, na área da biotecnologia.
Sendo assim, pergunto: – como pode o Governo Regional anunciar, de forma enfática, que já está decido que ‘o que quer que seja’, a instalar na Horta, terá a base jurídica de uma associação privada sem fins lucrativos?
É que a esta decisão configura aquilo que, desde há muito, mais temia, a saber: – vamos ter alguma investigação científica, sim, mas ao serviço de interesses que não são os dos Açores.
Num momento em que, para recuperar atrasos estruturais da Europa, há mais dinheiro para a investigação e o conhecimento do que nunca, porque não luta o Governo dos Açores para ter os instrumentos que permitam tirar partido das potencialidades do seu mar? Porque desdenha apetrechar-se para o futuro, ao mesmo tempo que deita foguetes, por ser parceiro de uma plataforma de interesses exteriores aos Açores e da qual permaneceremos o parente pobre?
Sabendo nós que, numa semana, o Infarmed poderia mudar de Lisboa para o Porto, porque razão os Açores não têm, no seu território, por exemplo, o Instituto Nacional do Mar? Porque razão o Governo dos Açores nunca colocou essa hipótese?
Sabendo nós que o Governo Regional tem, na sua posse, há vários anos, uma proposta de estratégia para o emprego científico sustentável, nos Açores, porque razão não temos já implementada uma Carreira Científica, na nossa Região?
Sabendo nós que a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) lançou, a nível nacional, um apoio directo à contratação de investigadores doutorados, em todas as áreas científicas – Estímulo ao Emprego Científico Individual –, porque razão não lança o Governo Regional um concurso com estas características, nos Açores?
No dia em que o Governo Regional começar a responder, positivamente, a estas perguntas – entre outras -, poderemos acreditar que, finalmente, começa a ser implementada, entre nós, uma verdadeira estratégia política para as ciências do mar. Até lá, a nossa obrigação é não desistir desta luta, continuando a inquirir, a propor e a desafiar.
2. Tendo imposto a mim própria uma ‘sabática’ prolongada pelos tempos mais próximos, aproveito esta ocasião para agradecer ao Tribuna das Ilhas a cordialidade e a lisura do nosso relacionamento, desde sempre.
A todos/as vós, um bem-haja pela companhia e… até breve!

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