Há mais vida para além da Medicina

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Ao meu bom amigo Rui de Mendonça,
especialista em Medicina de Reprodução

 

A literatura portuguesa, desde o século XIX até aos nossos dias, regista a existência de não poucos médicos escritores, uns sob pseudónimo (Júlio Dinis, 1839-1871, que se chamava Joaquim Guilherme Gomes Coelho, Miguel Torga, 1907-1995, cujo verdadeiro nome era Adolfo Correia da Rocha), e outros que, assumindo os seus verdadeiros nomes, deixaram de exercer Medicina em determinadas alturas das suas vidas para se dedicarem à Literatura a tempo inteiro: Garcia Monteiro (1859-1913), Júlio Dantas (1876-1962), Jaime Cortesão (1884-1960), Fernando Namora (1919-1989), António Lobo Antunes (1942- ), entre outros.
Isto significa que a condição de médico e o ofício hipocrático não são incompatíveis nem irreconciliáveis com o gosto pela leitura e pela escrita. Lembro, a propósito, que Anton Tchekov (1860-1904), médico e escritor russo, dizia ser a Medicina a sua mulher legítima e a Literatura, a sua amante; quando de uma delas se cansava, passava a noite com a outra. Reconhecia, no entanto, que se apenas pudesse contar com a imaginação para construir a sua obra literária, pouco teria para escrever.
A propósito: o referido Miguel Torga, médico otorrino, no seu Diário XII, conta que, momentos antes de contrair matrimónio com a belga Andrée Crabée, professora universitária, virou-se para ela e disse-lhe: “Vou tentar ser bom marido, cumpridor. Mas quero que saibas, enquanto é tempo, que em todas as circunstâncias te troco por um verso”… A noiva foi compreensiva e… tudo correu bem. (Estiveram casados durante 45 anos).
É reforçada a visão dos médicos sobre a condição humana. E julgo que é precisamente o facto de os médicos conhecerem e viverem de perto a condição humana que os torna mais sensíveis e propensos à escrita. Sendo uma ciência, o exercício da Medicina exige rigor e contenção; pelo contrário, a escrita permite uma libertação. E é precisamente esta busca de um equilíbrio entre contenção e libertação, aliada a uma vivência humana riquíssima, que, a meu ver, faz com que muitos médicos se tornem escritores e se dediquem a muitas outras atividades.
É que, bem vistas as coisas, há mais vida para além da Medicina. Até porque a Ciência, por si própria, não faz o cidadão.
Temos, nos Açores, médicos que têm vindo a afirmar-se em domínios que nada têm a ver com a sua prática clínica. Vejamos alguns exemplos:
Na escrita de ficção temos, na ilha de São Miguel, Rui de Mendonça (que utiliza o pseudónimo Jayme Velho), ginecologista-obstetra, especialista em Medicina de Reprodução.
Na escrita não ficcional destaque para a psiquiatra e sexóloga Fernanda Mendes, o endocrinologista João Anselmo, o ortopedista Carlos Arruda (que foi também atleta de hóquei em patins durante 10 anos, participando em campeonatos da primeira e segunda divisões) e ainda o cirurgião geral Carlos Afonso.
Na área da pintura há a considerar o cardiologista Dimas Simas Lopes, na ilha Terceira, e o ginecologista-obstetra Jaime Forjaz Sampaio, em São Miguel.
Na música, tivemos o internista micaelense Paulo Massa (já falecido), e hoje é cantatutor o estomatologista Bruno Walter Ferreira, natural da ilha de Santa Maria e a residir na Terceira.
Na fotografia, o reumatologista Guilherme Figueiredo e o radiologista Rui Teixeira.
No  iatismo temos, na ilha do Faial, o otorrino Luís Quintino e o obstetra Luís Decq Mota; em São Miguel, o cirurgião Vítor Santos, o fisiatra Paulo Sampaio, o anestesiologista Pedro Carreiro e o já referido Rui de Mendonça, jorgense de nascimento.
E temos o picaroto António Simas Santos, médico de medicina geral e familiar, que, para além de cronista de méritos (re)conhecidos, é também empresário turístico nas áreas da hotelaria e restauração. De origem faialense, Luís Arruda, médico dentista, praticou judo e, hoje, compete no trail run ao mais alto nível. E o faialense Gui Santos, médico de família, está a dar muito boa conta de si como crítico cinematográfico e realizador de curtas-metragens no condado de Kent, Inglaterra.
Em São Miguel temos o endocrinologista Rui César que é filatelista, e o fisiatra António Raposo que foi um craque no futebol e escreveu um livro sobre o seu percurso pessoal e desportivo. E temos o ortopedista Luís Soares que é columbófilo. E João Raposo, especialista em ortopedia, soma pontos no judo, sendo cinturão negro. E Fátima Pinto, especialista em medicina interna e diabetologia, foi campeã de andebol. E o gastro Nuno Paz, que é campeão de bridge. E, caso único no nosso país, temos um médico, natural da ilha das Flores, que é também filólogo: João M. Soares de Barcelos, especialista em medicina interna e diabetologia e que, a exercer em Cantanhede, tem vindo a dedicar-se ao estudo da Linguística dos Açores e da Madeira. E muitos outros médicos estarão por aí a trocar as voltas à Medicina. Bem hajam. Porque continua actualíssima a grande máxima do médico Abel Salazar (1889-1946): “O médico que só sabe Medicina nem Medicina sabe”, ele que também foi professor, investigador, pintor e resistente ao regime salazarista.
A todos o meu abraço de mar e o aviso à navegação do dr. Eduardo Barroso: “A saúde é um estado transitório que não augura nada de bom”…

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