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Eu não quero um país cristão

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Por: Adriano Batista

Passados 40 anos, temos uma eleição presidencial que se decidirá a duas voltas. De um lado, António José Seguro, do outro, André Ventura.

No discurso que Ventura fez na noite eleitoral, entre as variedades com que sempre nos brinda, voltou a dirigir-se aos “que querem um país cristão, de valores assumidamente cristãos”. Pois bem, sendo assim, considero que o seu discurso não foi para mim.

Não quero no meu país uma espécie de “califado cristão” em que a política e a religião andam de mão dada, não se percebendo onde começa uma e termina a outra. Não quero um país cristão porque a fé que professo tem que ser única somente para mim que a vivo e celebro. Não quero um país cristão porque desejo que todos se sintam respeitados, acolhidos e integrados. Não quero um país cristão porque a fraternidade não se constrói com imposições ou superioridades morais. Não quero um país cristão porque é na diversidade que crescemos e é conhecendo-a que destruímos os preconceitos. Não quero um país cristão porque tenho amigos que não professam a mesma fé que eu, nem qualquer outra, e têm exatamente os mesmos direitos e deveres do que eu. E são meus amigos e meus irmãos! Não quero um país cristão porque a Pessoa de Cristo é uma proposta para a vida de cada um e não uma imposição.

O que quero é um país que respeita a diversidade, que recebe, integra e acolhe de forma digna e humana. O que quero é que aqueles que nos procuram respeitem as crenças dos que cá estão e que os que cá vivem respeitem a fé dos que chegam. O que quero é um país humanista, fraterno e solidário onde posso celebrar livre e tranquilamente a minha fé.

No próximo dia 8 de fevereiro, os portugueses irão escolher entre a democracia e o autoritarismo; entre a responsabilidade e a irresponsabilidade; entre a união e a divisão; entre o sentido de estado e a vulgarização; entre a honra e a descredibilização; entre a inclusão e a exclusão.

A escolha não será entre direita e esquerda. Será entre quem defende as instituições e quem as quer refundar ou eliminar. Será entre quem deseja um país livre e digno e quem não querendo ser Presidente da República, coloca portugueses contra portugueses. Será entre quem quer um país cristão e quem deseja cumprir e fazer cumprir a Constituição que assegura a liberdade de religião e de culto, bem como o direito a professar ou não qualquer religião.

Nesta segunda volta a escolha recairá sobre um homem sóbrio e respeitador das instituições e das pessoas ou sobre um homem que se diz cristão, mas que promove o ódio, a intriga, a divisão e a marginalização.

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