Eurochat: Pessoas de boa-vontade

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Não, na minha última crónica antes do Natal não me vou dedicar às questões europeias ou, o mesmo será dizer, às hesitações quanto às decisões a tomar, ao atraso crónico das poucas e débeis que se adoptam, ao escasso e efémero impacto das que pontualmente se assumem, ao vazio de concertação de medidas estruturais, ao fosso para que vimos resvalando, uns Estados-membros à frente e outros atrás, mas todos com um mesmo destino à falta de um empenhamento partilhado em prol de uma solução comum. Até mesmo porque o que hoje se diz, amanhã já é história, tal é a velocidade a que os eventos se desenrolam e as decisões caducam; simultaneamente, o mérito das resoluções que se vão tomando, como as da cimeira europeia do “tudo ou nada” de 9 e 10 de Dezembro, já não depende de quem as toma mas da interpretação que essa entidade anónima e toda-poderosa designada por “mercados” lhes atribui.

Centrar-me-ei, não obstante, nos difíceis tempos de provação que vivemos no país e que a crise europeia agrava. Não pretendo, porém, fazer análise das causas e dos responsáveis da dura austeridade a que estamos sujeitos, da sua gestão e das medidas que a procuram colmatar – questões que suscitam interpretações plurais e, frequentemente, opostas, inquinadas pelos pequenos interesses político-partidários, mas também socioprofissionais e até meramente pessoais. Também não incidirei sobre as obrigações do Estado na assistência social, que as tem e hoje mais prementes que ontem, nem sobre as prioridades das intervenções de um Estado falido e a viver de empréstimos. Prefiro focar-me no que cada um de nós pode fazer por aqueles outros que estão em pior situação – numa acção que não depende de outras vontades se não da própria. E há tanto a fazer…

A época natalícia que vivemos é, para crentes e não crentes, um período do ano que apela ao amor e à união na família, entre amigos e com o nosso próximo, o que se traduz numa acção generosa que não se pode reduzir ao tradicional presente material que nos afadigamos em comprar. A oferta mais genuína, mais valiosa mas também a mais económica e, apesar disto a mais difícil de dar é a de si mesmo, a dádiva de si ao outro. Esta pode-se traduzir em actos tão simples e comummente acessíveis como são a disponibilidade para ouvir o outro, uma palavra ou gesto de fraternidade, uma mera presença… Podemo-lo fazer este Natal como todos os dias do ano; este é, afinal, o trabalho quase quotidiano, de muitos dos voluntários, que temos um pouco por todas as ilhas os quais, com desprendimento de si e espírito de abnegação, vão contribuindo para uma sociedade melhor. Conhecemo-los mal pois são discretos; não os vemos mesmo pois são poucos. E, todavia, neste período de dificuldades agravadas que vivemos, os voluntários são um bálsamo para muitos e um convite, através do exemplo, para muitos mais se disponibilizarem a estender a mão a quem mais precisa. Sem se substituírem ao Estado, às instituições, aos profissionais, os voluntários contribuem graciosamente para o bem-estar de pessoas e o bem-viver da comunidade as quais, neste momento de dura provação, precisam de todo o conforto que o mais pobre entre si possam, não obstante dar.

Este foi o seu ano internacional, o Ano Europeu do Voluntariado; os próximos deviam ser os nossos, na prática alargada do voluntariado. Vivamos intensamente este sentimento de fraternidade que o espírito natalício invoca.

 

 

 

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