Faialenses pelo Mundo: José Duarte da Silveira: um açor nas Caraíbas

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Portugal em Porto Rico, surge na rubrica Faialenses Pelo Mundo. Tem passado indissociável dos cabos submarinos de telecomunicações. Até aos 24 anos por cá viveu, mas a vida levou-o para as Caraíbas e por lá fez vida com a “sua” Manuela. Antes das Caraíbas esteve dois anos na Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, para onde foi com todos os exames de técnico e supervisor de cabos submarinos devidamente aprovados. Apesar da baixa estatura era bom jogador de futebol, filho da família Fayal SC, praticava basquetebol, vela, cantava no coro e fazia teatro – neste último caso chegou a contracenar com a namorada e futura esposa.

Com tantas atividades, dizia o seu pai a Eurico Leal, “não deixa um minuto para crescer”. Recorda saudoso as “especiais” festas de verão nos campos do Fayal, do Atlético e do Sporting Club da Horta. Lembra a sua mãe e outros faialenses a cantar na Praça da República o Hino do Trabalhador, no 1.º de maio, enquanto a Artista Fayalense entoava a dita música no final das reuniões que lá aconteciam, era ainda de tenra idade.

Não tem boa memória da batalha naval ocorrida perto da Ponta de São Mateus do Pico, pelas 06h00, entre ingleses e alemães. Assistiu no escuro, na praia da Alagoa, com o seu pai. Desde então a vida aconteceu, sucederam-se as viagens,
constituiu família e o salero caribenho teima em não sair da pele.

Tribuna das Ilhas – Especializou-se na técnica de cabos submarinos de telecomunicações e foi essa atividade que o levou primeiramente à República Dominica-na. Assumiu esta decisão confiante que iria voltar a casa?
José Duarte da Silveira (JDS)- Terminada a II Guerra Mundial a International Telephone & Telegraph (ITT), que era a dona da Commercial Cable, uma das seis companhias que tivemos no Faial, modernizaram e atualizaram equipamentos e comunicações na Europa e nalguns países da América Latina. Aqui encontrou uma tremenda falta de pessoal técnico. O Faial, mesmo pequeno, durante quase 80 anos, foi a maior concentração de cabos submarinos telegráficos do mundo, cerca de 17. A empresa trouxe para as Caraíbas 42 técnicos, nomeadamente americanos, canadianos, ingleses, franceses e portugueses. Éramos 11 açorianos. Eram programas maravilhosos. Já tinha noiva, estava para me casar, surgiu o contrato de três anos. Ficava lá três anos, regressava três meses de férias e não tinha de voltar. O meu programa original eram seis meses na República Dominicana, seis meses em La Guaira (Venezuela), um ano em Lima (Perú) e um ano em Santiago (Chile). Uma vez terminado, regressava ao Faial como supervisor técnico com um ordenado muito bom para aquela época, a Manuela regressava para professora de francês no Liceu. Era um sonho.
Ao final de seis meses a coisa complicou-se com Fidel Castro e companhia e, portanto, ficamos seis anos na República Dominicana, ao fim dos quais cansámo-nos. Eram muitas guerras civis. Tive uma oferta do Governo do Canadá para trabalhar com eles, aceitei, informei a ITT. A empresa pediu-me para vir a Porto Rico concentrar todas as comunicações das Caraíbas e da América Central na ilha, do ponto de vista administrativo e técnico. Aceitei, vim dois anos. Fui promovido, já não fui para o Canadá e estamos cá desde 1965.
TI – Quais foram então as principais funções que acabou por exercer quando rumou às Caraíbas?
JDS – Naquele tempo todos os países da área respondiam diretamente a Nova Iorque, tornou-se muito complexo. Países como Panamá ou Venezuela passaram a responder administrativamente a Porto Rico, onde se fundou um Centro Internacional. Depois expandiu-se ao resto da América Latina, como Perú e Argentina. Durante dois anos foi este o processo que organizei.
Entretanto sou promovido a diretor geral de duas empresas grandes do grupo em Porto Rico. Depois fecharam a linha do Oriente e colocaram-na a responder para cá.
Tudo o que era fora dos Estados Unidos da América (EUA) era gerido pela International Communications Overseas, fundada na ilha. Ao fim de nove anos em Porto Rico fui nomeado e fiquei durante 20 anos como diretor geral de todas essas empresas. Eram à volta de 17 empresas com 29 centros de operações, semelhantes aos do Faial, mas aqui tinham operadores para telegramas e no Faial eram mais técnicos. Eram cerca de 1000 empregados ao todo.
Quando a ITT resolveu vender toda aquela divisão de televisões, centrais telefónicas e cabos submarinos falaram-me para ir para outras divisões, em Bruxelas até, mas os filhos já estavam formados e casados e foi uma decisão fácil dizer não. Aceitei foi um contrato de 10 anos de consultor. Quanto fiz 70 anos queriam que continuasse como consultor, mas aí fechei a porta e dediquei-me a outras coisas.
TI – Para além das oportunidades que se sucederam o que o fez ficar tanto tempo? Foi o clima, a população, a cultura? Mesmo com um bom emprego se fosse um local onde não se sentisse confortável possivelmente hoje não estaria aí.
JDS – Foi relativamente fácil. Eu e a Manuela ficámos muito impactados pelos colegas mais velhos que nós. Quando se reformavam sofriam para saber onde se iriam fixar pois tinham filhos espalhados pelo mundo. Nós temos três filhos, um vive na parte continental dos EUA e as filhas casaram cá. Começaram a nascer os netos. A minha família está é aqui. Gostamos de cá estar, apesar de nos últimos 10 anos terem surgido algumas complicações graves, como a debilidade governativa que endividou e o furacão Maria que destruiu a ilha. Tem sido difícil recuperar mas não por falta de dinheiro. Isto é território americano e o governo tem-se portado bem com Porto Rico. Faltam materiais e pessoal qualificado para recuperar uma ilha grande, com 3,5 milhões de pessoas e com um terço da superfície de Portugal Continental.
Não é um nível de vida muito alto, comparado com os EUA continentais, mas melhor que a maioria das ilhas das Caraíbas.

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