Ucrânia: A guerra de um tirano contra um povo heroico

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Pouco mais de 30 anos foi a Ucrânia independente até sofrer uma invasão de larga escala. Sejam por questões militares, imperialistas ou económicas, os factos apontam para cerca de dois milhões de refugiados em duas semanas. Cidades cercadas, desespero e dor. A Guerra voltou à Europa e exaltou o lado mais
empático de todos os que ao longo de anos habituaram-se a acompanhar apaticamente guerras geográfica e culturalmente distantes.

Fé, Esperança, Caridade. As três filhas de Santa Sofia, figura a quem é dedicada a histórica Catedral de Kiev, construída há cerca de 1000 anos. São virtudes teologais, pois têm Deus como origem e objeto imediato. São três palavras às quais muitos ucranianos se agarram por estes dias na tentativa de encontrar forças e superar mais um dia de terror. Para continuar a acreditar que a paz voltará ao seu país.

A 24 de fevereiro a Rússia iniciou o que Vladimir Putin apelidou de “operação militar especial” em território ucraniano. As razões desta, segundo o presidente russo em discurso transmitido às 06h00 desse dia, passavam pela defesa de russos a sofrer “genocídio” no Leste da Ucrânia e pela “desnazificação” do território e das forças governativas.

De lá para cá cidades como Konotop, nos arredores de Kiev, Kherson, Melitopol, Kharkiv, Mariu-pol, Volnovaja e tantas foram ocupadas, estão cercadas ou parcialmente cercadas por tropas russas. Os bombardeamentos e disparos tornaram-se parte do dia a dia.
Pouco após a invasão o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, proibiu todos os homens com idades compreendidas entre os 18 e os 60 anos de abandonar o país. Todas as forças militares estão mobilizadas por, pelo menos, 90 dias.

Zelensky tornou-se herói de um povo, Putin conseguiu virar a população esclarecida e os parceiros internacionais contra si e contra o seu regime. Pelo ar paira a ameaça do nuclear.
Com negociações a decorrer entre delegações dos dois países, a esperança impõe que se acredite em tréguas num futuro próximo. A abertura de corredores humanitários, a muito custo, vai permitindo a alguma população abandonar cidades que são palco de guerra. Até à data estima-se que mais de 2,3 milhões tenham saído do país desde o início do confronto.

IMIGRAÇÃO UCRANIANA EXPRESSIVA NAS ÚLTIMAS DÉCADAS

A queda do bloco soviético em 1991 permitiu a dezenas de Estados serem reconhecidos como independentes pela comunidade internacional. A Ucrânia foi um deles, tendo que reorganizar a sua capacidade produtiva para tentar competir com os agressivos mercados capitalistas avançados. A pressão internacional desafiou o recém-criado país, frágil e impreparado. Foi a receita para a imigração de muitos ucranianos para outros pontos da Europa e do Mundo. Se em 1991 o país contava 52 milhões de habitantes à data de início desta guerra aproximava os 44 milhões.

Os mais recentes dados oficiais apontam para cerca de 30 mil ucranianos a viver em Portugal. O número chegou a ser mais expressivo: em 2008 e 2009 rondavam os 52 mil. Com a crise económica e financeira e com a aquisição de nacionalidade portuguesa os números chegaram aos que temos hoje.

Nos Açores, segundo o relatório do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de 2020, residiam 73 imigrantes ucranianos (39 homens e 34 mulheres), 1,8% do total de imigrantes na região, que eram 4090. Na ilha do Faial viviam sete, sem contar com os naturalizados, o que os tornava na 15.ª nacionalidade estrangeira mais representativa na ilha.

Com o eclodir da guerra, Portugal e parceiros europeus fizeram por simplificar a entrada de refugiados. No início de março havia espaço disponível para 1245 pessoas e mais de 2000 ofertas de empregos disponíveis. Há dois dias eram já mais de 2700 os pedidos de proteção para famílias ucranianas e já algumas dezenas começaram a chegar em autocarros que pararam em Braga ou Leiria, por exemplo.

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FORMULÁRIO PERMITIRÁ REGISTAR DISPONIBILIDADE DA POPULAÇÃO E ENTIDADES EM APOIAR REFUGIADOS

O Governo Regional divulgou na segunda-feira a criação de um formulário para que “famílias, empresas e instituições” possam registar a sua disponibilidade para garantirem apoio habitacional e possibilidades de trabalho para refugiados ucranianos que se desloquem para o arquipélago.

O anúncio foi feito por José Manuel Bolieiro, após uma reunião na cidade da Horta com o empresário ucraniano Anatoliy Lyetayev. O presidente renovou a solidariedade do povo açoriano para com o povo ucraniano, “sofredor numa guerra injusta” e merecedor de todo o apoio possível.

“Fica este apelo a todos os açorianos, famílias, empresas e instituições, que tenham disponibilidade para receber famílias, que possam comunicar-nos para fazermos uma receção de registo dessas disponibilidades”, apelou o governante.