Florentino que se distinguiu – Cónego Dr. Américo Caetano Vieira (1928-1971)

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Sacerdote, professor e homem da cultura

Filho de Pedro Caetano Vieira e de Maria Noia Vieira, ele comerciante e ela doméstica, nasceu na Vila de Lajes das Flores em 24 de Maio de 1928.

Depois de fazer o Ensino Primário ingressou no Seminário de Angra do Heroísmo em Outubro de 1940. Aluno brilhante, distinguiu-se pela sua inteligência, pela sua dedicação e pela sua forte personalidade. Foi ordenado presbítero em 13 de Maio de 1951, vindo a celebrar a Missa Nova a 24 do mesmo mês na Capela do Seminário.

Por se ter distinguido como estudante e, depois de seleccionado, em Outubro desse mesmo ano foi frequentar a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, onde se licenciou em Teologia Dogmática em 1955.

Regressado à Diocese de Angra do Heroísmo, em Outubro desse ano foi nomeado professor e director espiritual do Seminário, cargos que exerceu com extrema dedicação e competência.

Assim, foi com alguma surpresa que, em Junho de 1968, viria a ser nomeado Reitor do Seminário.

Assim, fez parte de um grupo de professores de elevado nível, que veio a ser considerado como o “período de ouro do Seminário de Angra no Século XX”. Desse grupo distinguem-se, o Dr. José Pedro da Silva, o Dr. José de Oliveira Lopes, o Dr. José Enes, o Dr. Caetano Tomás, o Dr. Cunha de Oliveira, Dr. António da Silva Pereira, o Dr. António da Costa Tavares e Dr. Francisco Carmo.

Foi um professor de notável competência, pois preparava e planificava tudo com eficiência e mestria, demonstrando sempre possuir elevada cultura geral.

No decurso da sua curta carreira profissional leccionou Dogmática Fundamental, Francês, Latim, Ascética e Mística, Dogmática Especial, História Bíblica, Apologética, Introdução à Sagrada Escritura, Moral, Psicologia, Teologia Pastoral e Direito Canónico.

Entretanto, em 5 de Junho de 1965 foi nomeado Cónego do Cabido da Sé Catedral de Angra. Foi membro fundador do Instituto Açoriano de Cultura, secretário do Conselho Pastoral e membro do Conselho Presbiteral.

Possuidor de grande capacidade didáctica e, como era dotado de invulgar inteligência e cultura, expunha com muita facilidade tudo o que tinha a transmitir.

Colaborou na revista “Atlântida”, órgão do Instituto Açoriano de Cultura de Angra do Heroísmo, de que era sócio fundador, bem como noutros órgãos de comunicação social da ilha Terceira.

Publicou diversos trabalhos, neles deixando, para além do seu rico conteúdo, a forma fácil e fluente de os apresentar. Dessas publicações encontrámos as seguintes, embora admitamos que outras possam existir:

– “A Definição Apologética do Milagre Perante a Física Infra-Atómica” – Edição de 1956;

 – “Oração de ‘Sapientia’ na Abertura do Ano Lectivo do Seminário Episcopal de Angra – 8 de Outubro de 1956”;

– “Os Seminários Maiores no Concílio Vaticano II – Angra do Heroísmo 1968”.

Tinha obsessão pelo estudo e era um excelente orador. Sempre se manifestou fidelíssimo à doutrina da Igreja Católica e às orientações da hierarquia, procurando adaptá-las aos tempos que decorriam, com o rigor do seu profissionalismo e das suas convicções.

Durante vários anos ocupou-se das palestras de natureza espiritual aos sacerdotes reunidos em Conferência Eclesiástica, fazendo-o com invulgar mestria e dedicação.

Era muito solicitado para proferir sermões e conferências e, não obstante ter viajado pouco, por dificuldades económicas e por não gostar de se afastar dos seus livros de estudo, vivia humildemente no seu pequeno mundo.

Deste modo, gozava geralmente as férias na sua terra natal, na vila das Lajes das Flores, as quais eram passadas essencialmente junto do mar, no Baixinho próximo das Poças, no velho Porto da Vila. Estudava ou lia à sombra de umas pedras e tomava banhos de água e de Sol. Hoje, nesse lugar situa-se a doca de abrigo do novo Porto das Flores. Raras vezes o víamos acompanhado. O resto do dia permanecia com a família ou passeava nas proximidades do Largo de Santo António, junto da sua residência. Essa casa onde nasceu foi demolida, e lá encontra-se um Largo representativo da antiga defesa da Vila, designadamente da batalha travada pelos lajenses com corsários em 12 de Agosto de 1778.  

Entendia que, para o exercício pleno seu do múnus sacerdotal, não devia exercer actividades fora do ensino e da missão religiosa, para dispor de tempo para o efeito. Ostentava uma personalidade muito forte e digna, capaz de se impor ao respeito e à admiração dos que com ele lidavam sinceramente.

Como Reitor do Seminário, por volta de 1970, sofreu intenso desgosto que poderá ter influenciado a sua saúde, face à grave crise que ocorreu nesse estabelecimento de ensino. Esta foi motivada por alguma rebeldia de alunos que, apoiados por alguns professores, terão provocado instabilidade e algumas demissões, quer de alunos, quer de professores. E isto, certamente, porque o Bispo de então acabaria por apoiar as posições por ele tomadas. Aquelas rebeldias vinham, certamente, na sequência das que anos antes haviam ocorrido em estabelecimentos de ensino de vários países, designadamente na França, mas também reflectidas mais tarde em Portugal, apesar da dureza do regime. A forma rigorosa e séria com encarava a sua responsabilidade como Reitor, ter-lhe á provocado imenso stress. Por outro lado, a sua escolha para o cargo de Reitor do Seminário – depois de o terem sacrificado no cargo de Director Espiritual – foi um erro.

Assim, faleceu, inesperadamente, em 22 de Janeiro de 1971, no Seminário de Angra do Heroísmo, com apenas 43 anos de idade.

O seu prematuro falecimento poderá ter sido influenciado pela instabilidade atrás referida. É que ele foi, subitamente, vítima de um ataque cardíaco, certamente afectado pelos desgostos que, aquela instabilidade, lhe provocaram. Há, assim, quem considere que, aquela “luta” travada no Seminário de Angra, embora pudesse ser directamente destinada ao Prelado de então da Diocese, acabou por envolver o Dr. Américo Vieira e por ser lhe fatal para este triste desfecho.

Em 31 de Janeiro de 1992 o Instituto de Cultura de Angra do Heroísmo, fundado em Maio de 1955, prestou-lhe solene homenagem, atribuindo-lhe um Diploma na qualidade de Sócio Fundador, o qual foi emitido em 22 de Janeiro de 1993. Esse Diploma, que foi oportunamente remetido à família, encontra-se na posse da sobrinha Fátima Vieira Fraga, em Lajes das Flores.  

BIBL: Jornal “A União”, de Angra do Heroísmo, de 22-1-1971; “Jornal do Ocidente”, de Lajes das Flores, de 10-2-1992;

Trigueiro, José Arlindo Armas, “Padres das Flores”, (1999), pp. 149-153, e “Florentinos que se Distinguiram”, (2004), pp. 295-298, edições da Câmara Municipal das Lajes das Flores.

                               

              

                

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