Florentinos que se distinguiram – DR. JOSÉ DE FREITAS PIMENTEL (1894-1920) Médico e mártir do dever da sua profissão

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Filho de António de Freitas Pimentel e de Maria do Rosário Trigueiro Pimentel, lavradores e comerciantes de parcos recursos económicos, nasceu na Fazenda, freguesia e concelho de Lajes das Flores, em 15 de fevereiro de 1894. 

Depois de concluir com distinção os estudos da escola primária da Fazenda das Lajes, fez o curso secundário dos Liceus na Horta e em Angra do Heroísmo.

Seguidamente ingressou na Univer-sidade de Lisboa, frequentando a Faculdade de Medicina, onde viria a terminar, com brilhantismo, a sua licenciatura em 1917, com apenas 23 anos de idade. Segundo escreveu o escritor faialense Marcelino Lima, em nove anos cursou o Liceu, tirou preparatórios e formou-se em medicina1.

Trabalhou com perseverança e inteligência para poder corresponder aos sacrifícios que os pais então fizeram, criando e mantendo reduzido número de cabras e um pequeno comércio de mercearias e taberna, a cargo, respetivamente da mãe e do pai. Este acumulava ainda o serviço de sacristão do curato da localidade, para além do ter presidido, no tempo gratuitamente, à Comissão da Junta de Freguesia que promoveu a elevação, em 9 de dezembro de 1919, do lugar da Fazenda a freguesia, tendo sido também o seu primeiro Presidente, após as respetivas eleições. Para além disso, o pai presidiu, nas mesmas condições, à Comis-são que levou a efeito na localidade a construção do respetivo Cemitério.

Sabe-se que José de Freitas Pimentel passou por grandes privações para se poder manter na capital portuguesa enquanto frequentava a Universidade, valendo-lhe, em muitas ocasiões, os mantimentos que a mãe lhe mandava, e que ele humildemente ia buscar ao cais no dia da chegada do navio que escalava as Flores.

Entre 1918 e 1919 prestou serviço militar no Continente como alferes, e residiu temporariamente durante esse período no Cadaval.

Em abril de 1919 regressou às Flores, tendo aberto consultório médico na vila das Lajes em Junho do mesmo ano, onde fixou residência para poder servir convenientemente os seus doentes. Entretanto concorreu ao lugar de médico municipal do concelho de Lajes das Flores, pedido este que lhe foi recusado por motivos políticos.

Essa recusa provocaria um levantamento popular a seu favor, face à sua popularidade e à competência profissional que revelava, tanto mais que o lugar não se encontrava preenchido. Por esse motivo, no dia 23 de julho, a população promoveu uma grandiosa manifestação, junto da Câmara Municipal do concelho, no sentido de pressionarem os seus responsáveis a promoverem a sua contratação como médico municipal. Aproximando-se da manifestação, subiu a uma parede para, num breve improviso, afirmar que agradecia, sensibilizado, o empenhamento dos lajenses, mas que não aceitaria o lugar que lhe viessem a oferecer sob pressão popular.

Deste modo, em setembro do mesmo ano, impossibilitado de ganhar a vida e de se realizar profissionalmente nas Flores, o Dr. José de Freitas Pimentel seguiu para a cidade da Horta, a fim de tomar lugar do cargo de professor da Escola Primária Superior do distrito. Essa Escola, que mais tarde receberia o seu nome, veio a desaparecer na sequência da instituição do Estado Novo.

Aí, também por razões políticas, não teve acesso ao serviço do Hospital da Horta, pelo que abriu consultório na casa do Sr. Ferreira, hoje pertencente à “Casa das Casimiras”, situada no Largo da Matriz, onde também fixou residência. Aí assistia com humanidade, simpatia e competência uma clientela constituída na sua maioria por pobres que rapidamente passou a encher-lhe o consultório. Como médico, prestava-se a servir os seus pacientes a qualquer hora, salvo nas que tinha de exercer funções docentes, trabalhando quanto a sua juventude o permitia, sem olhar a distâncias ou a doenças.

Assim, foi com essa coragem e dedicação à sua profissão de médico que correspondeu à chamada que lhe fizeram para se deslocar à vila da Madalena do Pico, nos últimos dias de Dezembro de 1919 — em período de férias escolares de Natal — para assistir a uns previsíveis casos de peste, serviço que outros médicos haviam recusado. Essa sua deslocação para a Madalena foi feita depois de outros colegas com experiência não terem correspondido ao apelo que lhes fora feito pela autoridade máxima de saúde do Distrito, cumprindo assim o seu dever deontológico como se impunha nessa situação.

Efetivamente tratava-se de “peste pneumónica”, uma variante da “peste bubónica”, altamente contagiosa e grave, com complicações hemorrágicas que, quando ocorrem, como era o caso, agravam consideravelmente o diagnóstico e o risco. A referida peste, que no tempo ainda surgia com alguma frequência, era quase sempre fatal e epidémica. Conhecida desde a mais remota antiguidade, é considerada como responsável pelo desaparecimento de diversas civilizações. Depois do contágio, os doentes tinham nesse tempo uma duração de cerca de 6 a 7 dias.

Na Madalena, em conjunto com as autoridades locais, promoveu imediatamente a segurança e o isolamento da vila, utilizando para o efeito um grupo de ex-militares madalenenses, tendo passado a assistir todos os doentes contagiados pela peste.

Sem meios para se proteger convenientemente, meios esses que não lhe foram dados pelos  serviços de saúde, ao verificar-se a convulsão hemorrágica de um doente, José Macedo, precisamente o enfermeiro que até então havia tratado os doentes, foi atingido na cara pelo vírus do contágio da doença. Escondendo a sua preocupação perante o doente, logo compreendeu que estava perdido, conforme viria a afirmar às pessoas que com ele depois contataram.

E foi com elevada dignidade que, depois de ter ido à Horta donde trouxe uma mala com as suas roupas — apesar de contrariar o dono da Pensão Garcia junto do Porto da Madalena, onde se encontrava instalado — deixou esse estabelecimento hoteleiro e instalou-se numa casa desabitada pertencente ao capitão Branco, situada na mesma rua (que hoje tem o seu nome), para nela viver os dias de vida que lhe restavam e lá morrer sozinho.

Entretanto, com a sua oposição, D. Maria do Céu Duarte, senhora já idosa, caridosa e benemérita notável, foi tratá-lo, para que, como dizia, “o infeliz jovem médico florentino não morra sem qualquer assistência longe dos seus familiares e amigos”, fixando com ele a sua residência.

O Dr. José de Freitas Pimentel faleceu em 1 de Janeiro de 1920, e a sua benemérita “enfermeira”, por ele contagiada — conforme ele previamente a havia prevenido — veio a falecer no dia 8 do mesmo mês. Tinha então 25 anos de idade. 

Refira-se que, logo depois de ter sido noticiado o seu contágio, as autoridades de saúde e militares da Horta já conseguiram enviar para a vila da Madalena médicos, enfermeiros e militares devidamente equipados, nomeadamente com máscaras adequadas de proteção. 

Por outro lado, a imprensa faialense da época noticiou, a 3 de janeiro, que o Dr. Xavier de Mesquita, responsável pela saúde no Distrito, – que também era natural das Flores – assumindo as suas responsabilidades, se demitiu do cargo de guarda-mór de saúde que vinha exercendo.

Estimado e admirado por familiares, amigos e conhecidos, a morte do Dr. José de Freitas Pimentel chocou profundamente todos os corações sensíveis. Apesar da sua juventude e da sua curta estadia na cidade da Horta, já nela gozava de impressionante popularidade. Não se falava de outra coisa.

A imprensa, designadamente os jornais faialenses, dedicou-lhe as suas primeiras páginas. Dessa imprensa merecem especial referência o jornal “A Democracia”, da cidade da Horta, com artigos do escritor faialense Marcelino Lima e do contista Florêncio Terra, e jornal “O Atlântico”, da vila de Santa Cruz das Flores, com artigos dos Dr. Armas da Silveira, do Prof. Jaime Leal Páscoa e de outros.

O jornal “A Democracia”, onde o extinto contava com grandes amigos, abriu uma subscrição para a angariação de fundos destinados à construção do jazigo do Dr. José de Freitas Pimentel, subscrição esta que foi extensiva ao “Jornal-Rádio”, de Santa Cruz das Flores.

Efetivamente, no Cemitério da Vila da Madalena encontra-se o seu jazigo, construído em mármore, onde consta esta significativa inscrição: “DR. JOSÉ DE FREITAS PIMENTEL POBRE DE BENS RICO DE TALENTO MÁRTIR DO DEVER FALECIDO EM 1/1/1920. MARIA DA GLÓRIA DUARTE SUA DESVELADA ENFERMEIRA EXEMPLO DE ALTRUISMO VITIMA DA SUA ABNEGAÇÃO FALECIDA EM 8-1-1920. OS SEUS AMIGOS DO FAIAL, FLORES E PICO.”

Por sua vez, a Câmara Municipal da Madalena, em sessão extraordinária de 13 de janeiro de 1920, por proposta do vice-presidente, a exercer a presidência, Manuel Pereira do Amaral, aprovou por unanimidade que “a Rua do Porto se chamasse no futuro Rua Dr. Freitas Pimentel” e que “a Câmara Municipal mandasse ampliar um retrato do extinto médico, para que o mesmo acompanhasse os outros beneméritos, tendo lugar na sala das sessões do Paço deste concelho e desta forma publicamente recordando a abnegação e sacrifício até à do fim da vida, do defunto médico Freitas Pimentel”.

Agora, à distância desse trágico acontecimento, ao ler-se a imprensa faialense e florentina da época, é impressionante a popularidade, o carinho, o prestígio e a consideração em que o Dr. José de Freitas Pimentel era tido. 

 

Bibl: Trigueiro, José Arlindo Armas, “Florentinos que se Distiguiram”, 2004, p.155, ed. C. M. Lajes das Flores. Jornais de dezembro de 1919 e de janeiro de 1920:  “A Democracia”, da Horta; “O Telégrafo”, da Horta; “O Atlântico”, de Santa Cruz das Flores; “Jornal-Rádio”, de Santa Cruz das Flores; Jornal “Correio da Horta”, de 24-7-1984, artigo de José Arlindo Armas Trigueiro; Trigueiro, José Arlindo Armas, “Fazenda das Flores, Um Século de Sucesso”, (2008), pp. 219, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores.

1 Jornal “A Democracia” de janeiro de 1920.

 

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