Foi só em 1920 que Marcelino Lima, já então um conceituado homem de cultura, publicou o seu primeiro livro. Tinha então 52 anos e há muito conquistara lugar de relevo na imprensa, no teatro e em diversas organizações recreativas e cívicas.
Essa sua primeira obra, impressa na Tipografia Minerva Insulana da cidade da Horta, intitula-se “Francisco d’Utra de Quadros”, pequena brochura de 38 páginas, que prenuncia o valoroso investigador que nos deixaria algumas produções incontornáveis para quem queira conhecer a nossa história. Dedicada ao “exímio açorianista, patrício nosso, a quem a ilha do Faial deve já valiosos subsídios para a sua história Sr. António Ferreira de Serpa”, aliás o primeiro faialense a dar relevo aos traços biográficos do fundador do grandioso Colégio dos Jesuítas na Horta (e que Marcelino Lima cita frequentemente), essa monografia vale também pelo nobre e desinteressado gesto de justiça por ele praticado, promovendo a trasladação dos restos mortais de Francisco d’Utra de Quadros e de sua mulher Isabel da Silveira dos escombros da destruída ermida do Livramento para uma sepultura condigna no templo da Matriz, conforme haviam pedido em sua disposição testamentária. Esse piedoso e edificante tributo aos fundadores do majestoso conjunto arquitectónico faialense e um dos mais belos dos Açores, decorreu a 17 de Novembro de 1917, encontra-se minuciosamente relatado na monografia em apreço, “como prova essencial às exigências dos futuros conterrâneos esgaravatadores” 1!
Se Francisco d’Utra de Quadros era apresentada como separata da “obra em preparação Famílias Faialenses”, o aparecimento desta em 1922 constituiu grande acontecimento no meio cultural faialense. Trabalho extenso (tem 733 páginas), reveste-se de inegável mérito literário e genealógico e é, ainda hoje, obra de referência no panorama historiográfico açoriano. Além do beneditino labor de investigação – em que sobretudo usou os registos paroquiais e o manuscrito da “Memória Genealógica” de Francisco Garcia de Rosário – a edição de “Famílias Faialenses” não deve ter sido nada fácil. Feita na mesma Tipografia Insulana, imaginam-se as dificuldades de composição, de paginação, de impressão e de encadernação que não deve ter causado! Mas, mais do que estas, devem ter sido os problemas de financiamento que suscitou e que levaram Marcelino Lima a recorrer ao mecenato do inevitável capitalista Comendador Eduardo Bulcão. É o próprio autor que abertamente o confessa a dado passo da nota genealógica respeitante a esta personalidade de destaque “pela posição que alcançou, pela sua fortuna, pela distinção do seu trato, pela sua franqueza (…) pelos seus amiudados actos de filantropia geral e particular” que se estendiam até “no mundo profano”. Sobre isto, Marcelino Lima dá testemunho pessoal: “Sabia o sr. Eduardo Bulcão da parcela da vida, da aturada canseira que este livro me custara, da dedicação espontânea que lhe votei, do valor em que o tinha; sabia do quanto ele pode acarinhar os que ainda usam recordar-se da sua terra, da qual ele alguma coisa fala e divulga; sabia do acendrado empenho que eu formava em publicá-lo, mas também do encargo pesado que isso trazia, e a que não era lícito arriscar-me. Então, sem rogativas de estimular, num impulso mais patriótico que amistoso, subsidia prodigamente o empreendimento, antecipando-se assim no dever moral melhor talhado para outras entidades, que não para um particular. Eu agradeço-lhe – por mim e pelos meus ilustres patrícios, que do auxílio também colhem algum proveito”2 . “Famílias Faialenses” é um livro há muito esgotado e que, não obstante certas dúvidas que se lhe possam apontar acerca do total rigor histórico com que Marcelino Lima “veste” algumas das suas personagens, constitui um trabalho genealógico pioneiro, de grande nível e de invulgar dimensão. Positivamente acolhido pela crítica, mereceu elogios de relevantes figuras literárias. Vitorino Nemésio, por exemplo, depois de ler o prefácio de “Famílias Faialenses” escreve, em apressado bilhete-postal que lhe dirigiu de Coimbra em 18 de Janeiro de 1923, que é “encantador de fluidez no estilo, e impecável, além de elegante, na linguagem” e presume que “se trata dum livro misto, de grande erudito e prosador distinto”. Na mesma linha se pronuncia Florêncio Terra: “obra fascinante de investigação, forrageando em esquecidos arquivos factos dos mais interessantes da vida açoriana, moldada a obra em plano lucidíssimo e executada com aquele talento, aquela arte primorosa e aquela mestria de estilo que tanto qualificam o autor como um dos primeiros escritores açorianos, esse admirável trabalho assinala-se ainda pelo seu intuito social, ressuscitando as tradições, e trazendo para o presente a lição, os exemplos e o encanto do passado” .
Ainda nos anos vinte do século passado, Marcelino Lima fixou residência na capital portuguesa. Vivendo embora longe do Faial, a presença da terra natal marcou sempre a sua obra. Dedicou-se também ao romance histórico, publicando entre 1930 e 1940 quatro livros, todos tendo como “Livraria Depositária” a conhecida “Parceria António Maria Pereira” de Lisboa e todos abordando temática açoriana: “A Loucura do Ideal (Miguelistas e liberais na ilha do Faial)”, 1930; “ Uma freira que pecou”, 1931; “Por causa dum Ramalhete/à caça da baleia/ um duelo de John Bull e Uncle Sam em águas portuguesas”, 1933; e “A Discípula”, 1940. Já na edição de 31 de Maio de 2013 deste semanário fiz referência a esta novela histórica regionalista, a propósito da figura do padre José Leal Furtado, antepassado de Marcelino Lima. No espólio legado por este à Biblioteca Pública da Horta encontram-se diversas apreciações a vários dos seus livros, com realce para A Discípula, romance que Afonso Lopes Vieira qualifica como “uma espécie de Amor de Perdição ao divino” 4, reconhecendo em “Marcelino Lima um bom aluno de Camilo”. Já Mário Beirão considera-a “uma novela concebida e sentida à maneira portuguesa”, que “vem do profundo das nossa raízes num alvoroço de Amor, que logo se turba de sombras, afogando-se em abafados soluços”. É, acrescenta, “uma novela da agri-doce essência camilesca, escrita em linguagem da maior nobreza”5 . Outros literatos, como Antero de Figueiredo, Hugo Rocha, Hipólito Raposo ou o picoense general Lacerda Machado não poupam adjectivos laudatórios ao talento de Marcelino Lima, chegando um deles a afirmar-lhe que “essas duas figuras centrais do seu romance – o padre [Furtado] e a fidalguinha [Nina] são do melhor que tenho visto na literatura do género”6 .
Ao mesmo tempo que publicava A Discípula, Marcelino Lima ia escrevendo, em fascículos, os Anais do Município da Horta que, em 1943, conheceram edição completa e definitiva. Começada pelo historiador faialense António Ferreira de Serpa, a convite da Câmara Municipal em 1936, esta obra viria a ser, devido ao falecimento dele em 1939, da total responsabilidade de Marcelino Lima que, segundo diz, se viu “enredado numa tarefa medonha, que não esperava e que, pela força das circunstâncias e apego à minha terra entendi continuar com a mesma dedicação e generosidade” a que se votara o seu mestre e amigo. Lamentando não poder fazê-lo “com a mesma sabedoria” revela que vai “decalcar nele o melhor possível” o seu trabalho, já que Ferreira de Serpa, tendo sido “sabedor como poucos de assuntos históricos, muito nos contou das coisas açorianas e muito particularmente esclareceu numerosos pontos de vista do tão obscuro passado da ilha do Faial”7 . De 1939 a 1943 Marcelino Lima investiga e escreve a “História da Ilha do Faial”, subtítulo dos “Anais do Município da Horta” que, em nosso entender, seria bem mais adequado do que este. No testemunho de um contemporâneo, aquela obra ficou a ganhar por ter sido escrita por Marcelino Lima que, “com os ingredientes próprios” forneceu “aos amadores da história insulana e da boa literatura um trabalho de incontestável utilidade e … atraente”, coisa que não aconteceria com Ferreira de Serpa, já que este, embora “muito erudito e inteligente pesquisador” era “baço no escrever, baço e por vezes confuso, tirando por vezes para António Lourenço [Silveira Macedo, autor da História das Quatro Ilhas], de forma que se ele tem presidido à publicação transmitia-lhe a sua personalidade literária e tínhamos um trabalho, erudito sim, mas fastidioso” 8. Perfilhe-se ou não esta opinião, a verdade é que os Anais do Município da Horta foram um sucesso editorial que se esgotou rapidamente, levando a que por três vezes se haja recorrido a edições fac-similadas, a última das quais em 2005. Ainda actualmente, e não obstante a recente publicação da “História da Ilha do Faial/ Das origens até 1833” os Anais de Marcelino Lima são de consulta indispensável para quem queira conhecer um pouco mais do nosso passado. Eles e toda a sua obra histórica publicada que, além dos livros citados, engloba também: “A Ilha do Faial”, 1943; “O Convento de Santo António dos Capuchos no Faial”, 1945; “Goularts – Monografia Histórica-genealógica”,1952; “Judeus na Ilha do Faial”, 1956; “O Teatro na Ilha do Faial”, 1957; “Vocabulário Regional das Ilhas do Faial e Pico”, 1957; “A Ermida do Pilar”, 1958 e “A Ermida de São Lourenço”, 1959.
Marcelino Lima faleceu em Lisboa a 22 de janeiro de 1961 quando se abeirava dos 93 anos de vida. Historiador, romancista, genealogista e literato, ele foi jornalista brilhante e requestado conferencista. Desde 1979 está justamente perpetuado na toponímia da cidade da Horta, numa das ruas de maior simbolismo para todos os açorianos, pois é nela que se situa a sede da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores.












