Histórias de Vida: ““Fui uma professora exigente, sem dúvida, mas muito amiga dos alunos”

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Zoraida Nasciment

Hoje com 95 anos, Zoraida Nascimento marcou o percurso escolar de várias gerações de alunos faialenses, sendo uma das mais carismáticas e reputadas docentes do ensino básico e secundário na ilha.

A sua excelência intelectual manifestou-se desde cedo, e valeu-lhe várias distinções enquanto estudante universitária, como o Prémio Carlos Richter (aluna mais distinta do Curso Profissional de Farmácia no ano letivo 1951/1952) e o Prémio Nuno Salgueiro (aluna mais distinta do último ano do curso de Farmácia, ano letivo 1953/1954). A Câmara Municipal da Horta agraciou-a em 1999 com a
medalha de reconhecimento pelo valioso contributo prestado ao concelho, e da Região recebeu, em 2003, a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico.

Nesta entrevista ao Tribuna das Ilhas, recorda o seu percurso académico de excelência, a escolha pela via do ensino e os seus anos de dedicação ao ensino das ciências e aos seus alunos, bem como os anos dedicados ao Núcleo Cultural da Horta (NCH).

Tribuna das Ilhas (TI)- Sabemos que tem o curso de Ciências Farmacêuticas que tirou na Universidade do Porto.
Até lá chegar estudou apenas no Liceu da Horta ou teve de ir para outro liceu dos Açores? Conte-nos um pouco do que era ser uma jovem estudante nesse tempo.
Zoraida Nascimento (ZN) – Não estudei apenas no Liceu da Horta, porque essa possibilidade de concluir o curso complementar, correspondente ao sexto e sétimo anos, não existia neste Liceu. Tive de me deslocar para São Miguel, onde fui aluna no Liceu Antero de Quental.

Uma jovem nos anos quarenta deslocada da sua família, noutra ilha, enfrentava dificuldades, hoje inimagináveis. Não havia liberdade, a sociedade tinha uma certa rigidez de costumes, seguidos principalmente pelo meu pai. No entanto, enquanto vivia no Faial, praticava desporto, andava de bicicleta, convivia com amigos – o nosso ponto de encontro era no Largo do Infante. No Pico vivíamos mais os encontros familiares… era uma vida, apesar dos limites sociais que as jovens enfrentavam, bonita. Sobretudo porque eu nunca deixei de parte as minhas ambições e o meu trabalho de estudante. Sempre sonhei prosseguir estudos e fazer mais, e isso não me foi vedado – o que me deixou feliz.

TI – Julgamos saber que foi uma aluna brilhante. Com reagiam a isso os seus colegas homens?
ZN – Os meus colegas homens trataram-me sempre bem e achavam muita piada ser eu, uma menina, a tirar-lhes as dúvidas. Nunca senti nenhuma reação negativa da parte dos colegas. Antes pelo contrário. Eram meus amigos e elogiavam-me sempre. Até diziam: lá vem a menina sábia!

Lembro-me que, na primeira aula do curso, ainda antes da matéria, um professor lançou uma pergunta a todos, eu levantei o dedo e respondi corretamente. O colega que estava ao meu lado disse: vais ver que vais ficar marcada pelo Professor e nunca mais te larga. A verdade é que assim aconteceu…

Eu era muito trabalhadora, por isso alcancei os meus objetivos. Nada se faz sem trabalho e foi isso que eu transmiti mais tarde aos meus filhos e netos. No entanto, para além do trabalho, tenho de reconhecer as capacidades que me levaram a atingir sempre o primeiro lugar.

TI – Quantos anos estudou na Universidade? O que melhor recorda desse tempo?
ZN – Estudei cinco anos. A minha dedicação ao estudo sempre esteve em primeiro lugar. Por outro lado, os convívios naquela época não abundavam, para além das tradicionais queima das fitas e de algumas amizades que foram criadas ao longo desses anos. As amizades que perduraram foram as melhores recordações. A maior de todas foi ter conhecido, no tempo de Faculdade, quem veio a ser meu marido mais tarde e de quem tive uma filha e um filho. Foi o início de uma caminhada familiar plena de alegrias e companheirismo que preencheu toda a minha vida.

TI – Nessa época só se vinha de férias apenas no Verão ou também pelo Natal e Páscoa. Como eram essas viagens de barco?
ZN – Nessa época só vinha no verão e nem vínhamos todos os verões. As viagens de barco eram demoradas, levavam cerca de uma semana e estavam condicionadas pelo tempo. A facilidade de transportes e os aeroportos que hoje conhecemos não existiam.

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Bilhete de Identidade

Nome completo: Maria Zoraida Bettencourt Salema Stattmiller Saldanha Matos do Nascimento
Data de nascimento: 26 de março de 1927
Naturalidade: Horta
Estado civil: Viúva
Filhos e netos: Dois filhos, três netos e dois bisnetos
Desporto preferido: Ténis
Clube do seu coração: Fayal Sport Club e Futebol Clube do Porto
Filme de que mais gostou: “E Tudo o Vento Levou”
Livro preferido: “Mensagem” de Fernando Pessoa
Música preferida: “My Way” de Frank Sinatra
Animal de estimação: Cão
Flor que mais gosta: Rosa
Virtude que mais aprecia: Sinceridade
Defeito que mais o incomoda: A mentira
Personagem histórica que mais admira: Rainha Santa Isabel
Personagem histórica que mais detesta: Adolf Hitler
Lema de vida: Seguir na experiência única e fascinante de vida em paz com a família e os amigos