José Agostinho e Leonardo Dias concorrem nas eleições à Cooperativa Agrícola de Lacticínios

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Amanhã, dia 31 de Março, a Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Faial (CALF) vai a votos para escolher os órgãos sociais para os próximos três anos. Numa altura de dificuldades para todo o sector produtivo a nível nacional, a CALF debate-se hoje com vários problemas, com destaque para as dificuldades em valorizar o seu produto em mercados altamente competitivos e para a falta de matéria-prima. É neste cenário que o presidente eleito amanhã terá de trabalhar para garantir a viabilidade da fábrica, que emprega actualmente 63 funcionários. A escolha dos 155 sócios da CALF faz-se entre José Agostinho, presidente da CALF nos últimos 12 anos, e Leonardo Dias. A última vez que se apresentaram duas listas a estas eleições foi em 1995. Tribuna das Ilhas foi conhecer a realidade actual da cooperativa e falar com os dois candidatos.

Constituída em 1943, a CALF assumiu-se desde logo como uma referência da actividade económica faialense, por tradição muito dependente do sector primário. Inicialmente dedicada à produção de leite e manteiga, em 1960, com uma nova e modernizada fábrica, arrancou a produção de leite. Em 2004, face à abundância de matéria-prima e à necessidade de modernização, são inauguradas as actuais instalações fabris. No entanto, a realidade do sector agrícola transformou-se, e a produção de leite na ilha tem vindo a decrescer.

Estas eleições acontecem numa altura de crise económica que se sente particularmente nos sectores produtivos. De acordo com o actual presidente e candidato às eleições de amanhã, José Agostinho, é cada vez mais difícil valorizar o produto nos mercados.

A qualidade da produção faialense é incontestável mas, apesar disso, não é viável comercializá-la a preços mais elevados, devido à concorrência feroz das várias marcas a actuar no mercado dos lacticínios.

A dificuldade em valorizar o produto no mercado dificulta a gestão da CALF uma vez que os custos fixos de produção continuam a aumentar.

Uma solução seria o aumento da quantidade de matéria-prima laborada. Projectada numa altura em que a quantidade de leite disponível era bem maior, a CALF tem capacidade para laborar entre 18 e 20 milhões de litros por ano. Tendo em conta o modelo de economia de escala em que funciona a fábrica, onde o custo de produção de 10 mil litros é o mesmo que, por exemplo, de 20 mil, a produção será mais rentável quanto maior for a quantidade de produto transformado.

 No entanto, o Faial debate-se com um problema de falta de leite que faz com que a CALF labore muito abaixo das suas capacidades há vários anos. Em 2011, no entanto, foram laborados 12,5 milhões de litros de leite, mais 1,5% do que em 2010.

José Agostinho reconhece que o preço pago aos produtores de leite é baixo, e a própria CALF tem feito um esforço para não reduzir ainda mais esse valor, apesar das dificuldades financeiras causadas por todos os condicionalismos já antes referidos. Como acontece em outros sectores produtivos, como é o caso da pesca, o desfasamento de preços entre a produção e o consumidor final mostra que é no processo de distribuição que ficam as grandes fatias do lucro. No entanto, trata-se de uma situação que escapa ao controlo dos produtores.

Apesar das dificuldades, a CALF consegue escoar toda a sua produção. A manteiga Ilha Azul e os queijos Capelinhos, Moledo e Ilha Azul são os produtos referência da fábrica. Produtos premiados inúmeras vezes pela sua qualidade são reconhecidos dentro e fora de portas. Cerca de 80% da produção da CALF é escoada para fora da Região, através da LactAçores, e é possível encontrar produtos da cooperativa faialense em países como França, Luxemburgo e até Moçambique. 

De acordo com José Agostinho, neste momento a CALF está a concluir um processo de certificação e existe também um projecto para melhorar o processo de produção, com destaque para a dotação da fábrica de condições para o fatiamento de queijo, importante para valorizar a produção.

Com a grande aceitação que os produtos biológicos começam a ter no mercado, a ideia da CALF alargar a sua actividade transformadora ao leite biológico é vista por algumas pessoas como uma medida de valorização da produção. José Agostinho entende que, em princípio, é viável transformar leite biológico na fábrica, desde que esteja garantida uma produção diária de pelo menos 2 mil litros. No entanto, as dificuldades inerentes à conversão das explorações agrícolas ao modo de produção biológico no que ao leite diz respeito faz com que não existam produtores no Faial para garantir essa quantidade de leite.

Recandidatura de José Agostinho surge na sequência do pedido de vários sócios

Em conversa com o Tribuna das Ilhas, José Agostinho explica que a sua decisão inicial foi no sentido de não se recandidatar. No entanto, depois de solicitações de vários sócios que acreditam que a continuidade é o melhor caminho para a cooperativa no actual cenário, o ainda presidente reconsiderou e apresentou a sua recandidatura.

José Agostinho está ligado à administração da CALF há 21 anos. Inicialmente desempenhou as funções de tesoureiro e de há 12 anos a esta parte é presidente da Cooperativa. Neste momento, reconhece que as dificuldades na fábrica de lacticínios são um problema mas o mais importante, considera, é continuar o trabalho de valorização da CALF, e não baixar os braços.

Agostinho entende que, face às actuais dificuldades, conhecidas de todos, não é prudente entrar “em promessas vãs”. O ainda presidente da CALF entende que, independentemente de quem ganhar as eleições, o importante é continuar a trabalhar para garantir a viabilidade da fábrica. Neste momento, garante que a cooperativa tem os seus pagamentos “em dia”.

José Agostinho deixa ainda claro que o resultado das eleições não terá qualquer influência sobre os investimentos já agendados para a fábrica.

Leonardo Dias quer criar condições para aumentar o rendimento dos produtores

De acordo com Leonardo Dias, a motivação para constituir uma lista veio, precisamente, da actual Direcção: “esta Direcção tem vindo a dizer que está cansada, que já lá está há muitos anos, por isso achámos por bem avançar com uma candidatura”, disse.

Do plano de trabalhos da sua lista, o candidato destaca a criação de medidas para incentivar a produção de leite. Leonardo reconhece que a falta de leite é a principal dificuldade da fábrica, no entanto salienta que os produtores não se sentem incentivados a devido aos baixos preços a que são forçados a vender. Além disso, a falta de rendimentos faz com que não possam investir nas explorações, o que, a longo prazo, traz limitações à qualidade do produto. Para o candidato é vital “ajustar o preço do leite relativamente aos custos inerentes à sua produção”.

Para tal, Leonardo entende que é preciso valorizar mais o produto que sai da fábrica, fazendo reflectir a sua comprovada qualidade no preço a que é vendido: “escoamos todo o nosso produto sem qualquer problema e a sua qualidade é reconhecida. O nosso queijo, por exemplo, é dos mais premiados a nível Açores, no entanto continua a estar entre os mais baratos no mercado”, refere.

Leonardo considera também que a secção comercial da Cooperativa necessita de “novas estratégias de compra”. Para este produtor, o objectivo da CALG comercializar os produtos necessários à actividade dos sócios – os chamados factores de produção, como as rações e os adubos – é fazê-lo a preços inferiores aos praticados nos outros pontos de venda, ajudando assim os produtores a retirar mais rendimento da sua actividade. No entanto, de acordo com o candidato, isso não acontece. Por isso, pretende criar “protocolos de cooperação com as empresas que comercializam factores de produção”.

Contribuir para o aumento da qualidade do leite laborado na fábrica é outro dos objectivos da lista liderada por Leonardo Dias. Para tal, entende que é necessário garantir “apoio técnico aos produtores que tenham problemas com a qualidade do leite, de forma a que estes consigam melhorar os seus rendimentos”.

Leonardo entende também que, com o actual volume de trabalho da fábrica, é necessário “optimizar os recursos humanos de forma a reduzir os custos de mão-de-obra”. “Neste momento a fábrica tem empregados a mais”, diz.

O candidato entende ainda que seria benéfico para a CALF “contratar um gestor para a fábrica”.

 

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