JOSÉ GOMES TRIGUEIRO (1912-1965) Músico (maestro), lavrador e apontador do Fundo de Desemprego

0
17

Filho de João José Trigueiro e de Maria do Céu Gomes, nasceu a 7 de Março de 1912, no Curato do lugar da Fazenda, freguesia e concelho de Lajes das Flores, ele lavrador que estivera emigrado em Nevada, EUA, e ela doméstica. Era irmão de Albino Gomes Trigueiro (falecido nos EUA, filho de Maria de Jesus Gomes, com quem o pai foi casado), de Maria Gomes Trigueiro Gonçalves (falecida nas Flores) e de Fernando Gomes Trigueiro.

Frequentando o ensino primário na escola da sua localidade natal, conclui, com bom aproveitamento, o exame da 4.ª Classe na vila das Lajes. Ao longo da vida esses estudos foram por si próprio enriquecidos, tendo-lhe sido verdadeiramente úteis e proveitosas, as muitas leituras que sempre fez, bem como os ensinamentos recebidos dos seus amigos faialenses, José Ferreira da Terra, funcionário do Fundo de Desemprego, e José Rodrigues Pinheiro, sargento da Marinha aposentado, que residiram temporariamente na Fazenda.

Em 1 de Fevereiro de 1934 casou com Cecília de Freitas Armas Trigueiro (falecida), de cujo casamento nasceram os filhos Norberto (falecido), José Arlindo, Vasco, Francisco Manuel, Maria Teresa dos Santos e Maria Helena, tendo quase todos estudado depois de adultos. 

Embora a sua actividade profissional tivesse sido a de lavrador, que cedo ficou a cargo dos filhos, também trabalhou como apontador de obras do Fundo de Desemprego, com carácter eventual. 

Mas foi, sobretudo, como músico e como regente musical que se distinguiu, tendo estado na base da constituição, em 1939, da Filarmónica da freguesia da Fazenda – a “União Portuguesa da Califórnia”. Esteve também na origem do grupo coral da igreja ou melhor da orquestra musical do mesmo grupo organizada uns anos antes. Assim, começou por ir, nos primeiros anos da década de 1930, à freguesia da Lomba, com outros fazendenses, aprender música com o Maestro Coelho de Silva, natural da Terceira – que ali abrira com o filho Manuel uma aula de música – onde aprendeu música e a tocar harmónio. 

Para além de ter feito parte da comissão organizadora daquela Filarmónica, foi o seu primeiro regente, regência essa que manteve até aos primeiros anos da década de 1960. Para se preparar para este efeito chegou a alojar em sua casa, durante algum tempo, o filho Manuel do referido Maestro Coelho de Silva, enquanto este se alojava em casa de Joe Pereira Mello, preparação essa que era extensiva à referida Filarmónica.   

Esteve também na origem da formação de outros grupos musicais, nomeadamente de teatros, de ranchos de ano Novo e dos Reis, e de danças de Carnaval. No teatro ficou na memória colectiva da freguesia e da ilha a revista “Ditos e Mexericos”, da autoria do lisboeta Manuel José Matoso, levada à cena no Inverno de 1946/1947. Nessa revista, para além de ter sido o dirigente da orquestra, onde também tocava bandolim, fez os arranjos musicais das músicas que aquele autor lhe assobiava, trazidas por ele no ouvido das revistas e filmes portugueses que vira em Lisboa, no início da década de 1940. 

Essa sua habilidade para a música era mais evidente na Filarmónica, onde revelava excelente qualidade na direcção musical, quer com a sua sensibilidade na regência, quer no gosto para a escolha dos respectivos repertórios. Nela fazia arranjos musicais bem como instrumentação e, embora conhecesse regras de composição, não se sentia muito à vontade ou eficiente nessa tarefa. As suas composições destinaram-se, sobretudo, ao grupo coral da igreja e a ranchos de Ano Novo e Reis. Contudo, sentia-se seguro nas instrumentações, bem como nos arranjos musicais, juntando-lhes, por vezes, introduções da sua autoria. Entre outras, compôs: para o grupo coral a musica do cântico, a duas vozes, intitulado “Do Vosso Excelso Trono”, cuja letra era da autoria do Padre Francisco Cristiano Korth; para a filarmónica, fez um arranjo ou abertura ao “Hino de Fátima” que a sua banda executou no Porto quando a imagem de Nossa Senhora chegou a terra no seu primeiro desembarque em Lajes das Flores, em 1948, trabalho esse que lhe fora sugerido pelo ouvidor eclesiástico das Lajes, Padre Luís Pimentel Gomes.

Nos anos de 1955/56 colaborou também, tocando bandolim, na Tuna do Clube Recreativo e Cultural Lajense ali criada pelo faialense Luís Augusto Duarte, conhecido por Luís “Galinho”, recentemente falecido na Califórnia.  

Possuidor de uma pequena biblioteca, cujos livros emprestava na freguesia ou lia nos habituais serões colectivos de familiares e amigos, era bastante culto para a limitada instrução que tinha. Na matemática dominava as regras de três composta e simples, bem como as contas de juros de diversas espécies, mas a disciplina que mais o encantava era a geografia mundial. Com ele aprendi o gosto pela música, pelas filarmónicas, pelas tunas e pelas grandes orquestras e até pelo fado e pelo folclore. Com ele também aprendi o gosto pela leitura, que ele fazia essencialmente à luz do petróleo. 

O seu falecimento ocorreu em 8 de Maio de 1965, na cidade da Horta, aonde se deslocou por motivos de saúde e os seus restos mortais encontram-se sepultados no cemitério dessa cidade. 

 

O MEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE ARTIGO