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Lembrando o incêndio da igreja dos Flamengos

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No dia 9 de Setembro de 1938 um violento incêndio destruiu totalmente o interior da linda e histórica igreja dos Flamengos. Era uma 6.ª feira, antevéspera da solenidade de Nossa Senhora da Luz, orago da paróquia.
Faz hoje precisamente 78 anos que, pelas 21 horas, se deu esse sinistro, o qual, em pouco tempo, queimou tudo quanto existia dentro da igreja, desde as imagens aos altares e das alfaias aos vários retábulos e ornamentos, salvando-se apenas o que estava na sacristia. Não demorou uma hora para que da igreja dos Flamengos restassem somente as paredes porque o fogo, na sua fúria destruidora, não as pôde reduzir a cinzas.
Os paroquianos, alertados para a tragédia, a tudo assistiram, impotentes e horrorizados. Contudo, logo que refeitos daquela compreensível comoção, trataram da reconstrução do seu templo, constituindo comissões que realizaram peditórios em várias ilhas. Apesar do resultado apreciável, este era manifestamente insuficiente para uma obra de tamanha envergadura.
Foi essa necessidade que levou o vigário Padre João Goulart Cardoso (1867-1948) a dinamizar as nossas comunidades imigradas nos Estados Unidos, começando essa campanha pela cidade de New Bedford, onde exercera o sacerdócio de 1903 a 1908 e onde vivia o seu irmão Manuel Goulart Cardoso que se distinguiu como excelente fotógrafo. Para estimular essa dinamização o Padre João Goulart escreveu e mandou imprimir na tipografia Minerva um opúsculo intitulado “Incêndio na Igreja dos Flamengos / Ilha do Faia l/ 1938 (Breve Memória e Apelo à Caridade)” com a história circunstanciada daquela catástrofe. Nesse documento – hoje bastante raro – ele descreve o triste acontecimento, recorda as principais vicissitudes que, ao longo dos séculos, marcaram aquele templo e enumera os avultados prejuízos desde a Capela- Mor “completamente renovada em 1934” até aos altares e às 23 imagens sacras que, juntamente com retábulos, banquetas, estantes, cadeiras, genuflexórios, harmónio, alfaias litúrgicas, pratas, coroas e resplendores, foram consumidas pelo fogo.
No fim desse opúsculo, abundantemente distribuído nas ilhas açorianas e nas comunidades imigradas dos Estados Unidos, o vigário João Goulart apelava à “generosa caridade de muitos, mesmo estranhos”, confiando que ela viria em “nosso auxílio”.
E o certo é que essa ajuda foi surgindo, como ficou atestado pela comissão fabriqueira em 16 de Janeiro de 1956 num documento, intitulado “Rememorando e Agradecendo” que sintetiza o que foi toda essa reconstrução.
Por ele se fica sabendo que os nossos conterrâneos residentes nos Estados Unidos, “ao terem conhecimento do sinistro, sensibilizados, não regatearam socorros financeiros, tendo a comissão organizada em New Bedford, a instâncias do hábil fotógrafo Manuel Goulart Cardoso, irmão do referido vigário, remetido a madeira indispensável para o fechamento do edifício”, ou seja, para armação do tecto e colocação de novo sobrado. Como explicita aquele documento, uma vez “fechado o edifício e improvisado um altar, onde as funções de culto eram exercidas, assim ficou durante alguns anos, porque o numerário que havia tinha sido gasto nos trabalhos da primeira fase”.
É certo que “por duas vezes tratou-se da comparticipação do Estado cujos resultados foram nulos”.
Então, em 1950, dirigiram “pedidos a pessoas conhecidas e competentes do Estado da Califórnia para, com subscrições e peditórios, nos auxiliarem nesta última fase da obra, pedidos que foram atendidos e da melhor vontade, como se depreende dos recursos que começaram a afluir”. Foram eles de tal forma que, decorridos seis anos (1956), “e no auge do entusiasmo anunciamos que a nossa igreja está completamente restaurada”, sendo esse facto solenemente assinalado pelo bispo diocesano D. Manuel Afonso de Carvalho então em visita pastoral aos Flamengos. Nessa ocasião de grande júbilo a referida comissão fabriqueira – composta pelo padre António Xavier Bettencourt, professor Manuel Silveira de Medeiros, José Ferreira Porto e José Patrício Garcia – publicamente distinguiu e mencionou individualmente os que nos Estados Unidos tinham organizado ou dinamizado as angariações de fundos que foram decisivos para a conclusão completa do templo, dos altares e de outros acessórios e embelezamentos, “tornando-o atraente e digno dos seus principais moradores – Jesus e Maria”, manifestando, em nome do povo da freguesia, “indelével gratidão a todos os que contribuíram para a restauração da nossa Igreja, com a certeza absoluta de que a Virgem Nossa Senhora da Luz os auxiliará na terra e os premiará no céu”.
Desde o fatídico dia 9 de Setembro de 1938 – que hoje aqui se assinala – até à completa recuperação da igreja, os vigários da paróquia foram os seguintes sacerdotes: Pe. João Goulart Cardoso, Pe. Adriano Furtado de Mendonça, Pe. Francisco Freitas Tomás e Pe. António Xavier Bettencourt.
Foi essa igreja que o violento sismo de 9 de Julho de 1998 destruiu. No mesmo local, e após um intervalo de 18 anos, foi construído de raiz um novo templo que terá custado 1,5 milhões de euros e que, do antecedente, apenas mantém os traços da antiga fachada, com um interior bastante moderno e acolhedor que proporciona excelentes condições para a prática do culto.
A igreja dos Flamengos começou por ser uma ermida erguida pelos primeiros povoadores. A ela se seguiu, próximo de 1589, “uma igreja de três naves sobre cinco colunas, grande e bem-feita” que em 1597 os ingleses, sob o comando do almirante Walter Raleigh, saquearam e queimaram. Reconstruída em 1607 à custa da Fazenda Real, seria vítima de catástrofes naturais e, por isso, teve de ser reparada e consertada em várias ocasiões nos séculos XVIII e XIX até que o terramoto de 31 de Agosto de 1926 lhe provocou danos assinaláveis, sobretudo no frontispício que foi reconstruído e modificado, sendo a igreja aumentada em três metros. Passados 12 anos deu-se o fatídico incêndio de 9 de Setembro de 1938 e, em 9 de Julho de 1998, a forte crise sísmica que assolou o Faial arruinou-a de tal modo que obrigou à construção da nova e actual igreja.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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