“Mestre Simão” encalha no porto da Madalena

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O navio “Mestre Simão” encalhou nas rochas junto ao porto da Madalena. Graças ao trabalho de equipa da tripulação e à ajuda de um local o resgate foi rápido e seguro, não havendo feridos.
De momento, está a ser realizado um inquérito para apurar as causas do acidente e a ser implementadas medidas para proteção ambiental

O navio “Mestre Simão”, responsável pelo transporte de passageiros entre as ilhas do triângulo, encalhou, no passado dia 6 de janeiro, por volta das 9h30, na zona da Madalena aquando da sua aproximação ao porto.
Os 61 passageiros e nove tripulantes que se encontravam a bordo foram retirados através de uma balsa rebocada para o cais por uma embarcação turística de Michael Costa que após ter ouvido o pedido de socorro da tribulação, não hesitou e prontamente foi socorrê-los.
Todo o processo de salvamento durou apenas 30 minutos e sem que se tenham registado feridos. Contudo, por precaução alguns dos passageiros foram levados para o Centro de Saúde da Madalena para observação.

“As causas deste incidente ainda não foram apuradas”, diz Carlos Faias

Em declarações ao Tribuna das Ilhas, o Presidente da Atlânticoline disse que “as causas deste incidente ainda não foram apuradas”, mas que “estão a decorrer neste momento as perícias técnicas que poderão mais tarde vir a apontar eventuais conclusões”.
Carlos Faias revelou que “a tripulação está a ser ouvida” e que já estão a ser realizados mergulhos “para também constatar da situação em que se encontra o navio”, adiantando que até ao momento foi possível verificar “que o navio se encontra depositado sobre um fundo rochoso e ao que tudo indica encontra-se numa zona minimamente estável”.
“Também foi possível verificar que não há, neste momento, fugas de combustível ou de outros componentes oleosos”, acrescentou Faias.
O presidente da Atlânticoline explicou que a fuga que ocorreu no dia do incidente deve-se “à água que entrou nos respiros dos depósitos diários e a equipa de mergulho contratada pela Atlânticoline já procedeu aos trabalhos de tratamento a fim de se evitar a continuidade dessas eventuais fugas”.
Carlos Faias salientou ainda que através dos vídeos realizados pela equipa de mergulho será possível a elaboração de “um plano de remoção do eventual combustível que se encontra no interior” do navio que “de acordo com os nossos cálculos poderá ser de cerca de 30 toneladas de combustível”.
Para além desse plano, será também elaborado um plano para a remoção do navio. “Esses mesmos vídeos foram entregues também a um conjunto de empresas que fazem salvamentos de navios no sentido de eles próprios traçarem um plano de remoção do “Mestre Simão” que depois será entregue à autoridade marítima”, concluiu Faias.

Vasco Cordeiro enaltece trabalho da tripulação

No dia após o acidente do “Mestre Simão”, o Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro, dirigiu-se à vila da Madalena para acompanhar as operações relativas à situação. O governante garantiu na ocasião que tudo está a ser feito a fim de solucionar o problema o mais rápido possível.
“Neste momento, o principal é ter a serenidade de, em primeiro lugar, reconhecer que tudo o que pode ser feito está a ser feito com a máxima celeridade, com o máximo cuidado e com toda a competência para garantir que esta situação se resolva o mais rapidamente possível e que, simultaneamente, a regularidade do transporte marítimo de passageiros entre estas ilhas é garantida”, disse Vasco Cordeiro.
O Presidente do Governo enalteceu “a forma como a tripulação, e todos aqueles que colaboraram nas manobras de evacuação dos passageiros, trabalharam, com grande competência, para garantir a salvaguarda da vida e da integridade física destes passageiros”, tendo sido essa a principal prioridade na altura, sendo que a prioridade no momento é de preservar o meio ambiente.
No que à remoção do “Mestre Simão” diz respeito, Cordeiro adiantou que um conjunto de entidades regionais e o Comando da Zona Marítima dos Açores, estão a fazer um trabalho de análise e planeamento para averiguar qual o melhor método para solucionar esta situação, o que levará algum tempo.
O Presidente do Governo revelou ainda que está aberto um inquérito da competência da autoridade marítima para se descobrir as causas desta situação.
“Julgo que, para o Pico, para o Faial e para São Jorge, não se trata apenas de um navio. É um elemento muito forte de vivência diária destas populações, mas vamos ultrapassar este momento”, frisou Vasco Cordeiro.

Derrame de combustível preocupa Ana Cunha

Também Ana Cunha, Secretária Regional dos Transportes e Obras Públicas enalteceu o trabalho da tripulação e de todos os intervenientes na operação de resgates dos passageiros do “Mestre Simão” e “o facto de não ter havido nenhuma vítima e de o processo de evacuação ter ocorrido de forma célere e com segurança”.
Para Ana Cunha, agora há que “acautelar qualquer derrame de combustível” e vigiar a situação do navio, “até que esteja avaliado e definida a forma como se vai processar a operação de resgate do navio e de trasfega do combustível que está no seu interior”.
Para tal, “já foram colocadas mangas de proteção e delimitação do local para acautelar qualquer situação de derrame de combustível”, afirmou Cunha.
A titular da pasta dos Transportes frisou que as ligações marítimas estão asseguradas com os navios “Cruzeiro das Ilhas” e “Cruzeiro do Canal”. “Mantêm-se os horários, mantêm-se os percursos, com estes dois barcos. Obviamente que temos esta limitação decorrente deste acidente e a limitação do navio “Gilberto Mariano” estar neste momento em doca seca para certificação”, acrescentou.
Ana Cunha salientou que o Governo Regional está a acompanhar a situação, “em articulação com o Comando da Zona Marítima dos Açores, o Capitão do Porto da Horta, a Portos dos Açores, que tem fornecido alguns meios, e a Atlânticoline, proprietária do navio”, enquanto se espera até que “haja condições para que se possa chegar ao interior do navio para perceber o alcance dos danos e a situação do combustível”.

José Decq Mota defende que o acidente do “Mestre Simão” está relacionado com a estrutura do porto

O Tribuna das Ilhas falou com José Decq Mota, Presidente do Clube Naval da Horta (CNH), conhecedor do mar e de náutica, para saber a sua opinião sobre as causas do encalhamento do “Mestre Simão”.
Para Decq Mota, “estamos perante uma situação em que temos estes excelentes navios que dão um grande resultado económico e desenvolvimento ao triângulo”, mas que operam “em portos que não são excelentes”.
Apesar de terem sido feitas obras nas infraestruturas portuárias antes e depois de estes navios terem sido adquiridos e entrarem ao serviço, “a vida tem demonstrado que nem todas as questões foram devidamente analisadas ou previstas, ou seja, aquilo que se prende com a relação entre os portos, com as suas qualidades e com as suas limitações, e os navios, com a sua capacidade de manobra e as suas características”, salientou o Presidente do CNH.
José Decq Mota sublinhou a importância de estudar e analisar todas as limitações e características dos portos para se poder evitar acidentes, dando o exemplo do “rebentamento do cabeço de amarração que provocou a infeliz morte de um passageiro faialense no porto do Cais do Pico”. Após esta trágica situação “não se ouviu falar mais em rebentamento de cabeços de cabos. Porquê? Porque o problema foi estudado a seguir”, frisou, explicando que “a forma de usar os cabos de amarração na atracação dos navios foi adequada às características do navio”.
Segundo o “homem do mar”, “o que se passou aqui no Dia de Reis na Madalena é um trágico acidente marítimo que felizmente não teve consequências humanas, mas que obviamente está ligado às próprias limitações do porto da Madalena”. O porto da Madalena é no seu entender, um “porto pequeno, em águas pouco profundas e virado a noroeste, exatamente, do quadrante de onde vêm vagas de largo período, vagas largas de muito longe e que trazem muita energia e muita força”, explicou.
“As limitações dos vários portos têm de ser concretamente definidas, revistas, se for preciso criar limites de utilização, que se criem, mas evidentemente não podemos é deixar instalar a convicção de que a segurança é uma coisa aleatória”, frisou José Decq Mota.

 

Velho rádio ecoa pedido de socorro

Ainda bem que Mauro Lopes não atirou para o lixo o seu velho radio VHF e o trouxe da ilha das Flores quando veio viver para o Pico, porque Michael Costa descobriu que tinha dois fios quebrados e depois de os soldar o radio voltou a funcionar.
“Ando no mar desde que nasci”, disse Michael Costa. “E no mar temos que aprender a nos desenrascar”.
Essa mentalidade também nos desenrascou, porque fê-lo reparar e montar o velho radio no balcão da sua casa na margem onde encalhou o Mestre Simão no dia 6 de janeiro de 2018 e foi através desse velho amigo que Michael e Mauro ouviram o pedido de socorro, quando nós os passageiros já ouvíamos o relinchar das pedras a rasgar o casco do navio da Atlânticoline.
No momento que ouviram o pedido de socorro Michael, skipper que passou a maior parte dos seus 40 anos de idade no mar, e Mauro, de 37 anos de idade, recém-chegado ao Pico depois de vários anos a assegura o transporte entre as ilhas das Flores e Corvo, estavam a preparar-se para sair para ver baleias avistadas a sul do Pico.
Esse plano foi prontamente abandonado e os dois procederam à retirada de duas embarcações do armazém para poder tirar o semirrígido com que rebocaram a balsa do Mestre Simão. Com a agitação e anciã de chegar rápido ao local do sinistro o atrelado não ficou bem preso e à saída do local saltou fora, mas sem prejuízo, por isso, foi só engatar de novo e rebocá-lo até à grua no cais velho, frente à igreja da Madalena.
Ao tentar colocar o barco no mar o Mauro ainda levou um choque da grua que não queria funcionar, mas lá conseguiram largar para junto de navio encalhado. Isto tudo demorou alguns 15 minutos, disse Michael.
No local analisaram a situação antes de lançar um cabo à balsa e para não colocar a sua própria embarcação em perigo. Esse lançamento acaba por acontecer depois de todos os passageiros e tripulantes terem deslisado até à balsa por uma manga insuflável, que fazia ponte entre o navio e a balsa, e de se cortar as amarras que prendiam a balsa à manga.
Com Michael a manobrar o semirrígido e Mauro segurando o cabo, ao estilo do falecido Senhor Gilberto Mariano, de pé na proa, com uma mão à frente da outra e a ponta do cabo ciada para trás das pernas, lá foram arrastando a balsa para o molhe velho. Ai esperavam bombeiros e outros profissionais que fizeram a triagem na gare do velho do porto da Madalena.
Resumindo e concluindo, no meio do azar ainda houve muita sorte. Está tudo salvo, apenas com algumas pequenas mazelas físicas e o trauma psicológico, mas nada que o tempo não cure. 

Fernando Brum

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