Há muito, muito tempo, numa terra distante, vivia um menino que queria voar. Queria ser as aves que pelo céu pareciam colares a brincar, suas voltas loucas e lisas pelos ares, a correria das andorinhas pelo chão a rasar, os milhafres tão altíssimos, quase suspensos nas brancas nuvens e, até, os mais minusculos pássarozitos que num turbilhão de curvas faziam a sua cabeça rodar. Por isso, todos os dias, depois da escola, lá ia ele para um cantinho perto de casa, onde, sentado, se punha a pensar nas voltas que ele podia dar subindo, subindo, subindo de encontro ao mundo azul dos pássaros. A varanda do ar, que deveria ser fresca de ventos e chuvas pequeninas, a mão majestosa do Sol que devagar aquecia e iluminava o Mundo, os aviões que passavam a roncar à distância das viagens, as estrelas maravilhadas de piscar que do chão pareciam apagadas. E assim pensando, o menino fechava os olhitos e se punha a sonhar aquelas coisas todas que dentro dele, naquele instante, se tornavam possíveis demonstrar.
Certa vez, no local claro e sossegado em que se sentava, um pardalzito veio para ao pé de si debicar. E logo o menino se entusiasmou a observar as corridazitas desconfiadas com que o pássaro caminhava. De um lado para o outro ele quase escolhia o chão para pousar dos saltitos que dava. Quase voava num segundo para noutro pousar. E, curioso, perguntava ele porque seria que o pardalito não andava sem saltar? Estaria ali o segredo dele voar? A fórmula mágica que ele poderia usar?
E assim pensando, o menino quis tocar o pássaro para lho perguntar. Mas eis que, assustado, o animal, na boleia de uma aragem, se elevou pelos ares, com uma beleza tal, com tão impensada leveza que logo, logo, desapareceu por entre uma pequenita nuvem que em murmúrios doces ia a passar. E foi tamanha a sua tristeza que o pequenito quase se pôs a chorar.
“Mas eu nem lhe queria fazer mal”, disse ele para as suas frágeis mãos que pareciam o querer acarinhar. Eu só queria perguntar-lhe como posso voar. Porque eu quero tocar as nuvens, quero rasar o chão a gargalhar, quero ir ver as estrelas que, suspensas, o Mundo estão a espreitar, e conhecer a chuva a tilintar nos seus pinguinhos brilhantes, as cantigas do vento, a casa da noite.
Foi deste modo que ele voltou para casa deveras desconsolado, com o coração tão partido que até parecia que a vida não queria continuar. Creio que a tristeza pesava-lhe tanto e era tão grande e tão fria que, chegado ao aconchego do lar, a mãe de pronto se encheu de cuidados. É que faltava o riso sonhador ao menino, aquela pressa de querer contar as coisas cheias, sempre, de mil cores, de mil lugares e que faziam a delícia fantástica das alegrias da sua casa.
“O que se passa contigo João?” , perguntava a mãe. Mas nada de resposta. Só aquele murmúrio trémulo da sua desilusão. Aquele vazio tão fundo que a gente, assim, não quer mostrar.
A mãe do menino se apercebeu, então, que o melhor que podia dar era um doce e gordo carinho, aquela quentura das mães que fazem as nossas tristezas desaparecer. Mas o João continuou calado, muito fechado nos seus olhinhos magoados.
“Depois de comeres, meu filho, vais dormir um bom soninho, disse-lhe a mãe, e amanhã verás que todas as coisas irão melhorar”. E lá se foi deitar o nosso rapazinho.
Nessa noite o João sonhou. Sonhos diferentes dos que costumava sonhar. Uma montanha alta que, enorme, se erguia fresca e verde e de outras cores de tantas serem as flores que ali cresciam. A violeta roxa, a rosa rosa, o antúrio branco que ardia vermelho em sua comprida língua e as borboletas malhadas, às riscas, de desenhos tão leves, bonitos, nas suas asas voando em turbilhão pelo chão, fazendo magias. E as libélulas brandas, óh as libélulas, muito transparentes, paradas e leves pelo ar e que de repente arrancavam loucas em correria como um helicóptero a girar, e os animais pequenos como o coelho saltador, o rato roedor, a toupeira cega no seu trabalho escavador, o lento caracol viscoso e andador, e tantos outros que é difícil lembrar.
E no sopé da montanha havia o mar que cantava, azul e fino no marulhar e as suas ondas, quase brancas, quase alvas da espuma que as vestia, verde, por vezes, por causa das algas ou do doirado tilitante do Sol que as bebia. E por dentro do mar os peixes inúmeros de tamanhos incontáveis, que num rasgo ora nadavam tão velozes, ora se punham simplesmente a ondular como canções de embalar. E as conchas delicadas que à terra vinham dar nas formas mais impensáveis, as estrelas do mar, as garrafas azuis, as alforrecas sonolentas à espera de partir com a àgua que as viria buscar.
Era tudo tão maravilhoso visto daquele lugar. Tudo tão mágico, tão gostoso que o João parecia subir, pouco a pouco, lentamente, pelo ar. E aí, chegaram-lhe as aves que tanto admirava, com aquelas suas asas inquietas, com aquele doce piar. A Águia imponente e misteriosa, o Falcão ágil e veloz, a Garça esbelta e alta, o Condor opulento e majestoso, a Andorinha festiva, o Corvo matreiro, o Beija-Flor cavalheiro, a Cegonha senhora e maternal e até o Pardal saltitador que o saudava a debicar.
“Vem João, vem connosco brincar”, diziam-lhe os pássaros.
E o menino, entusiasmado na sua aérea alegria, batia as mãos para flutuar e assim fazendo as mãos tornavam-se asas para o vento as puxar, e estendia as pernitas, muito bem esticadinhas, duras mas leves para se poder guiar e gargalhava, gargalhava como se quisesse chilrear. Então dava voltas ao Condor com os bracitos bem abertos e subia com ele até às nuvens, a sentir-lhes a frescura, a humidade das gotas do seu algodão, e dentro delas ia de olhos fechados, para não se doer na tontura, a planar, a planar. Era aí que lhe gritava a Águia:
“João estende os braços!”. De tal modo o fazia que logo se sentia a cair, a cair velocíssimo pelo céu abaixo.
“Não tenhas medo João, assim também estás a voar!”, explicava-lhe o pássaro.
De facto, muito a medo, o menino lá abria os olhos que num instante se punham a lacrimejar e, de soslaio, espreitava a sua companheira Águia de asas fechadas a picar de encontro ao chão. E então gritava, gritava, não de medo, mas do bom que era aquela tamanha sensação de rasgar o espaço, de lhe assobiarem as mãos, das lágrimas geladas no cantinho dos olhos, ele assim, entregue à tontura da altura, a vir tão veloz desde o azul do céu, desde o branquinho das nuvens.
“Agora abre os braços João!” tornava a dizer-lhe a Águia.
Depois, com os bracitos já abertos o menino espantava-se a sentir-se de novo subir. E ria, ria, ria daquela estranha euforia, carinhosa, doce, leve que de repente o levava, de novo, para a fofura das nuvens. De lá o que via, só se pode imaginar. As coisas que eram grandes em terra, as casas, os prédios, as palmeiras, os carros, os adultos, as ruas, eram agora tão pequenininhas que o João pensava-se um enorme gigante. E a cidade arrumadinha, as pessoas como pequenas formiguinhas. Que bom, pensava ele, é ver as coisas assim tão perfeitas e organizadas.
Uma leve frescura veio pousar-lhe sobre a face. Um toque vagaroso, uma festinha delicada. “Seria uma nuvem”, perguntou-se o João. “Um daqueles floquinhos que tanto lembravam um grande e bom algodão doce ?”
Foi então que levantou a mãozinha para tocar o que lhe tocava, e sentiu que era quente aquela forma sobre o seu rosto e não gelada como as nuvens. Depois uma voz que enchia o seu coração com outra diferente magia. Era a mãe que o beijava. E acordou. E sorriu. E atirou-se com tanta ternura para o colo dela que quase a vestia com a sua alegria.
“Estás feliz, meu filho, que bom ver-te a acordar assim !”, disse-lhe a mãe.
“Mãezinha, é que já sei voar!”, exclamou ele.
A mãe sorrindo com aquele quentinho que só têm as mães, pensou no João feliz, depois do banho e do pequeno almoço, partindo para a escola, olhando as aves que conhecia, as casas, as árvores, as ruas que vira tão bem arrumadas, os adultos que já não eram formiguinhas, com os livrinhos debaixo do braço, os livrinhos que o ensinariam a sonhar coisas tão bonitas e tão maravilhosas como foi aquele sonho onde ele aprendeu a voar. É que voar, sabia-o a mãe, é saber sonhar.












